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    Carta do Natal de 2007

Mensagem Patriarcal para o Natal de 2007
(lido em 07.01.2008)


DA IGREJA ORTODOXA SÉRVIA PARA SEUS FILHOS ESPIRITUAIS NO NATAL DE 2007

PAVLE
Pela Graça de Deus

Arcebispo Ortodoxo de Pec, Metropolita de Belgrado e Karlovci e Patriarcado Sérvio, com todos os Hierarcas das Igreja Ortodoxa Sérvia para o Clero, Monges e todos filhos e filhas de nossa Santa Igreja: graça, misericórdia e a paz de Deus-Pai, de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo, com a radiosa saudação de Natal:

A PAZ DE DEUS! CRISTO NASCEU!

Hoje Belém recebe Aquele que é co-entronado com o Pai. Hoje os Anjos louvam de forma admirável o Recém-Nascido exclamando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

A Igreja, em suas súplicas cotidianas, queridos filhos espirituais, ora, antes de tudo pela PAZ QUE VEM DO ALTO. Nós não rezamos por uma paz indefinida, vinda de um mundo desconhecido; nós rezamos pela PAZ trazida e concedida a nós por Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou: não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. João 14: 27

Aqui no começo da celebração da radiosíssima festa da Natividade do Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nós iniciamos com orações pela Paz que vem do Alto. Enviamos a todos vós a mensagem da Paz celestial que,almejamos, entre em vossos corações, e em vossas almas e em vossas vidas, como naquela noite abençoada da Natividade do Emanuel ela entrou no coração e na alma dos pastores de Belém. Ter a paz de Deus significa ter paz com Deus, com nossos irmãos e nossos companheiros, assim como com a criação inteira de Deus.

Este é o privilégio concedido aos Santos Cristãos. Mesmo quando as ondas deste mundo agitado ameaçam afogar e destruir tudo, como é o caso em nossa época (em nosso tempo), nós permanecemos calmos e seremos, repletos da graça e da paz divina, porque nós sabemos que Aquele que encoraja os cristãos de todos os tempos é fiel: “Não temais! E acrescenta: “Estarei convosco até a consumação dos séculos”. (Mateus: 28: 20). Na paz divina entre Deus e a Santíssima Theotokos cumprida no mistério da Anunciação, o Unigênito de Deus foi concebido como a Paz e o Amor de Deus, e nasceu na quietude da gruta de Belém. A Santíssima Theotokos recebeu a saudação da Paz - “rejubila. ó bendita “ (Lucas: 1: 28) dirigida a ela pelo anjo de Deus, e aceitando a Paz do Altíssimo, ela respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a sua palavra”. (Lucas 1: 38). Era aquela a vontade de Deus: que ela, a qual encontrou graça diante de Deus, se tornasse aquela que dá à luz a Deus, pois ela dá a luz o Deus encarnado – o Messias e Salvador do mundo, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Com a saudação: “Cristo nasceu”, nós cremos e confessamos que Cristo – o ungido de Deus – nasceu em Belém da Judéia, segundo a vontade de Deus. Nós não apenas cremos, mas também sabemos, por nossa experiência, e confessamos que Cristo é Emanuel, o que significa Deus conosco. Assim, a certeza de que Deus VERDADEIRAMENTE ESTARÁ CONOSCO faz-nos abrir e purificar nossos corações para que eles possam tornar-se a Sua morada. Possam os nossos corações tornar-se hoje uma nova Belém, uma nova manjedoura para Ele a quem nada pode conter; uma graça encheu o órgão no qual o nascimento do amor de Deus em Belém encontrará sua permanente morada. Desse modo, hoje e durante estes radiosos dias de Festa, sejamos anfitriões de Nosso Senhor. Recebamos e saudemo-Lo em nossos lares, recebendo os mais humildes como se fossem Ele próprio, sem distinguir quem é quem. Em nossas Igrejas, celebremo-Lo de modo digno e que convenha a Ele. Que possamos guardá-Lo como a vida de nossas vidas e a luz de nosso ser. Deixemos tudo que é nosso,e o que é apenas humano em nós,ser submetido para sempre à vontade de Deus, a fim de que possamos dizer, como a Santíssima Theotokos: Senhor, eis aqui tua serva, faça-se em mim e comigo segundo a Tua vontade.

Por que nós dizemos isso? Porque, ano após ano em torno da festa da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo aquilo que é humano é cada vez mais enfatizado, e aquilo que é divino é enfatizado cada vez menos. Nós somos perigosamente expostos a celebrações comerciais e folclóricas, comemorações que suprimem a verdadeira essência da Festa. Se reduzirmos o significado da Festa para simplesmente manter os costumes, nossos corações permanecerão submersos na agitação individual e nas tempestades do mundo, continuando longe do Senhor, distantes do Divino Infante. Nossos corações e nossa vida foram criados para Deus. Somente com o coração e a alma repletos da Paz de Deus seremos capazes de celebrar Cristo, o divino Infante, com a canção: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!” O nascimento de Cristo é, acima de tudo, o ato do amor de Deus, que se revela inteiramente no Cristo Jesus Encarnado e nascido.

S. João, o teólogo, confirma este mistério do amor de Deus com as seguintes palavras: Deus amou de tal maneira o mundo que deu o seu Filho Único, para que, aquele que n’Ele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna (João; 3: 16).

O nascimento de Cristo é um evento histórico – um evento que se passou num concreto tempo histórico e num lugar geográfico particular. Ele nasceu durante o reinado do imperador romano César Augusto e durante o recenseamento do povo, que ele havia ordenado. Cristo nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, que, no tempo, governava a Judéia. Ele nasceu em Belém de Judá. Seu nascimento não foi despercebido na Judéia e no grande Império Romano, especialmente nas regiões do Oriente Médio. Primeiro os anjos avisaram aos pastores de Belém, que saíram glorificando e louvando a Deus:
E, vendo-O divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita (Lucas 2: 17)
O aviso dos anjos rapidamente espalhou-se por toda a Judéia e Jerusalém, “e todos que ouviram isso maravilhavam-se com o que os pastores lhes diziam.(Lucas 2: 18).
As notícias chegaram até o rei Herodes que cruelmente tinha governado as tribos de Israel. Embora de início ele menosprezasse as estórias e narrativas do povo que lhe era subjugado, seu coração perturbou-se quando os sábios chegaram do Oriente, inquirindo sobre o rei judeu, com a seguinte pergunta: “ onde está aquele que é nascido rei dos judeus?porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos a adorar.(Mateus 2: 2)
Esta questão perturbou grandemente o astuto Herodes, e a essência dela tornou-se o divisor do tempo em velho e novo, ou seja, tempo da profecia e da prefiguração, e tempo de cumprimento da mesma.

Tomado de exaltação por esse mistério,o Apóstolo S. Paulo exclama: assim que se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez nov. (II Cor. 5: 17). No Deus-homem recém-nascido “tudo tornou-se novo”, mas acima de tudo nós renascemos n’Ele e por Ele – com a sinergia do Deus e homem, isto é, sinergia do Criador e do criado nós nos tornamos UMA NOVA CRIAÇÃO. Isto não de modo mitológico, como alguns interpretariam, mas, nós, verdadeira, essencial e completamente nos tornamos uma criação divino-humana.

Infelizmente, por causa da diminuição do amor e das virtudes no mundo, nós diariamente ouvimos e vemos instabilidade, conflitos, grandes tragédias humanas e desastres naturais. Vendo e ouvindo isto, muitos perguntam: “são estes os últimos tempos?” São estes os tempos do cumprimento da palavra de Nosso Senhor sobre os sinais dos últimos tempos e da segunda vinda de Cristo?” O povo tem razão de perguntar isto e de temer. Mas seria muito melhor se nós nos enchêssemos do temor de Deus e assim, nos tornássemos sábios guardiões da herança que Deus nos deu, em vez de estultos, e que, em vez de agentes constantes da perversão deste mundo, nos tornássemos o sal da terra, luz para o mundo, o caminho e a porta através dos quais o mundo pudesse ser salvo. A causa de todos estes trágicos eventos é, por um lado, a ruptura da paz entre Deus e o homem e, por outro, a ruptura do equilíbrio entre o homem e a natureza. Neste mundo tumultuado, várias iniciativas pela paz têm sido feitas por indivíduos, grupos e organizações. Apesar disto, não se vislumbra no horizonte paz para o mundo. Por que?
Porque a PAZ DE DEUS está sendo rejeitada e a paz do homem está tentando substituí-la – uma paz de homens controlados pela paixão que, em vez de paz, insuflam a agitação. Para tornar completo o paradoxo, mesmo os deflagradores de guerra do mundo e em nosso próprio solo, desavergonhadamente tentam enganar o mundo com suas pretensas “iniciativas de paz”. Na realidade, estas são pseudo-intenções pacíficas que servem para iludir o mundo. O que importa para eles é uma paz interesseira, uma paz da qual obterão benefícios políticos e materiais.

Hoje nós saudamos especialmente os nossos irmãos e irmãs em Kosovo e Metohija e suplicamos que o Divino Infante os proteja e fortaleça-os a fim de que eles possam carregar a cruz que pesa sobre os seus frágeis ombros e que lhes foi imposta pelos poderes deste mundo. Como nos anos anteriores, este ano também partilhamos com tristeza e preocupação por causa dos eventos em Kosovo e Metohija – nossa terra santa – coração e alma do povo sérvio, nossa Belém espiritual e berço de nossa cultura.

Os poderosos deste mundo atacam nossa terra santa de S. Lázaro e vergonhosamente ofendem nossos sentimentos e nossa dignidade. Em nome de seus interesses nos Bálcãs e na Europa, e transgredindo todas as normas da lei internacional – sobre as quais repousa o mundo atual – eles querem tirar do povo sérvio o seu berço, sua alma e coração, que permanecerão para sempre em Kosovo e Metohija. Que todos aqueles que continuam a quebrar as normas da justiça humana e da justiça divina, e, acima de tudo, os direitos do povo sérvio à sua terra natal, possam parar e refletir sobre este fato.

Nesta alegria e espírito festivo, não esqueçamos nossos irmãos e irmãs exilados da Bósnia e Herzergovina, Croácia, Kosovo e Metohija. Apelamos a todos os governos oficiais na Sérvia e Montenegro para proporcionarem uma vida normal e decente, fazendo tudo o que for possível para o seu retorno seguro e para que eles possam retomar o seu patrimônio pessoal. Apelamos especialmente para todos vocês, queridos irmãos e irmãs, para que compartilhem este Santo Dia com todos os exilados. Lembremo-nos hoje de todos aqueles que permaneceram em suas casas e daqueles que regressaram para sua casas incendiadas. Nós sabemos e vemos que eles sofrem diariamente discriminação e humilhação, justamente porque são sérvios e porque encontraram força e coragem para retornar e permanecer em suas casas.

Apelamos aos governos oficiais na Croácia, na Bósnia e Herzegovina para que eles tenham boa-vontade de resolver os problemas emergenciais de seus cidadãos exilados, quer da Sérvia, quer de outras nacionalidades. Conclamamos a todos para respeitar os direitos humanos básicos, direitos nacionais e religiosos do nosso e de outros povos, direitos garantidos por todas as convenções internacionais. Que eles igualmente – nem mais nem menos – respeitem nosso povo sérvio ortodoxo que, através da longa história de sua existência, e através de suas contribuições nos paises já mencionados, deixaram um indelével selo na cultura e histórias desses paises, com os quais eles compartilham uma história centenária. Temos sempre e em toda parte criado uma cultura de paz e de amor, através de cooperação com outros. No espírito daquela Divina paz e amor, tolerância e estima, renovemos o estabelecimento de pontes entre os homens de boa-vontade. Não rejeitemos os perturbadores da paz, independente de quem sejam. Tenhamos paz, amor e boa-vontade com todos.

Saudamos nosso povo jovem – as crianças e a juventude. Incessantemente ofereçamos nossas orações ao Senhor, queridas crianças e jovens, para que Ele os proteja de todas as tentações contagiosas de nosso tempo: drogas, álcool e outros vícios. Sabendo que o mundo prosseguirá com os jovens desejamos que vocês, amadurecendo e tornando-se nossos herdeiros se armem com virtudes e com o bem, para que possam defender-se de todas as tentações que o mundo oferece e que impõe a vocês. Nos momentos mais difíceis da vida, lembrem-se das tentações sofridas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Invoquem a ajuda d’Ele e Ele certamente ajudará vocês. Um programa deliberado para impor pseudo-cultura e sucumbir a ela constitui um perigo particular. Os caminhos da vida têm suas encruzilhadas. Depende de cada um escolher a direção que leva para a vida eterna, em cujo fim não haverá tristeza, mas alegria com todos os nossos ancestrais.

Estamos também preocupados com todos os nossos filhos da Diáspora – na América, Austrália, Europa, África e Ásia, que vivem longe de suas pátrias de origem,dos lugares santos e dos cemitérios. Embora vocês – em razão de circunstâncias históricas e desafortunadas – tenham sido forçados a viver na Diáspora, espalhados pelo mundo afora, não esqueçam que, celebrando o Natal, vocês encontrarão sua pátria, a alegria da infância, e o pãozinho fresco feito por mamãe. Lembrem-se de suas velhas Igrejas e dos santos mosteiros, e ensinem a seus descendentes a fazer o mesmo. Salvaguardem a unidade de vossa igreja como o fariam com a pupila dos próprios olhos. Reúnam-se em torno de seus Bispos como filhos em torno dos pais, reúnam-se e concordem no bem, nas virtudes e na glorificação a Deus.

Hoje Cristo, o Divino Infante, nos reúne em nossas santas igrejas para trocar a saudação “A Paz de Deus” uns com os outros, para unificar, para nos tornarmos como Cristo e para crescer, de acordo com a vontade de Deus!

Possa a luz da gruta de Belém brilhar sobre todos os povos e todas as nações do mundo, concedendo a Paz que vem do Alto a tudo e a todos.

Saudando a todos vocês, queridos filhos espirituais, conclamamos uma vez mais a todos e a todo povo de boa-vontade para celebrar o Dia Santo da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo em paz, alegria e disposição espiritual.

A PAZ DE DEUS – CRISTO NASCEU!

Que todos vocês possam ter um Ano Novo abençoado!

Dado no Patriarcado Sérvio em Belgrado. Natal de 2007

Seus intercessores diante do Divino Infante:
Todos os Bispo do Santo Sínodo Sérvio.

 

 

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