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A Vida do Nosso Espírito

Pelo Arquimandrita Sofrônio de Maldon / Essex
Texto extraído do livro “Voir Dieu tel qu´Il est”
Les éditions du Cerf – le sel de la terre – 2004
Tradução: Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla, BiH.

 

            Uma vida autenticamente cristã se passa “em espírito e em verdade” (Jo. 4, 23). Ela é então possível em todo lugar, em todo tempo e não importa em que época da história. Os Mandamentos divinos de Cristo possuem um caráter absoluto. Em outras palavras, não existem e nem saberiam existir circunstâncias – ou que seja sobre a Terra – que tornariam a observação totalmente impossível. Tal como o Espírito e a Verdade divinos, esta vida transcende – em sua essência eterna, é claro – toda forma exterior. Todavia, na medida em que o homem vem a este mundo como uma tabula rasa, onde lhe é necessário “crescer, e se fortalecer em espírito, enchendo-se de sabedoria” (Lc. 2, 40), a necessidade de recorrer a tal ou tal forma de organização, de introduzir tal ou tal disciplina faz-se ressentir. Isto acontece, a fim de coordenar a vida em comum e de educar os seres humanos, que estão ainda longe de serem perfeitos. Nossos Pais na fé, os Apóstolos e o próprio Cristo – graças aos quais aprendemos a honrar o Deus Verdadeiro – sabiam muito bem que a vida do Espírito divino ultrapassa todas as instituições terrestres. Eles sabiam também que este mesmo Espírito, todavia, constrói para si uma habitação – dotada de certas características que o exprimem – nos limites da Terra, um receptáculo para preservar seus dons. Esta maravilhosa morada do Espírito Santo é a Igreja. Ela portou, através dos séculos, problemas e violências, o precioso tesouro da Verdade revelada por Deus. Deixemos de lado os “zelotas” que, falsos de sabedoria, tornaram-se precisamente imoderados partidários das “formas”, o que os desvia da essência espiritual que elas englobam. “A letra mata e o espírito vivifica [...] Ora o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade [...] Mas todos nós [...] contemplamos a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Co. 3, 6; 17-18).
            A missão da Igreja é de conduzir seus filhos na esfera do Ser divino. A Igreja é o centro espiritual de nosso mundo; ela engloba toda história desde o primeiro homem criado até o último ainda a nascer de uma mulher. Ela é uma união de amor em Cristo, em virtude da indissolúvel unidade com Ele. Aqueles que cresceram no seio da Igreja e que, por meio de um longo esforço ascético em observar os Mandamentos evangélicos, tornaram-se conscientes de sua liberdade de filhos de Deus, não estão mais ligados por algum lugar geográfico nem por tradições exteriores; os costumes e as observâncias comuns não os incomodam, nem os perturbam de todo. Eles têm Cristo como exemplo – Aquele que guardou a Lei de Moisés, com todas as suas “cargas difíceis de transportar” (Lc. 11, 46).
            Mais de uma vez, interrompi meu trabalho, descontente do que vinha a escrever. Procurei encontrar a causa deste fenômeno e, agora, pareço compreender um pouco. Fixei-me uma tarefa irrealizável: apresentar em meu livro o que me foi dado a viver ao curso de decênios de meu “inferno de arrependimento”. Visivelmente não sou escritor. Recordando-me dos eventos de minha vida espiritual, os quais permaneceram gravados de maneira mais nítida em minha memória, fui frequentemente freado pela própria natureza de minha experiência. Penso que isto não acontece somente comigo, mas também com todos os outros ascetas escritores, mais ou menos antigos.
            Um fenômeno – essencialmente o mesmo, com nuances, no entanto – se repetia ao curso de um período por vezes prolongado. Quase a cada vez, ele se apresentava numa sucessão diferente ou comportava uma mudança na composição e nos detalhes: novos elementos entravam em meus estados, ou ainda outros – presentes, outrora, - faziam falta. Isto produziu uma diversidade que é impossível de expor num livro que requer uma organização sistemática da matéria. Realizando minhas primeiras anotações – tomadas em vista de um livro mais volumoso – remarquei, mais de uma vez, a presença, na mesma página, dum condensado de vários temas. Alguns dentre eles poderiam fazer o objeto de capítulos diversos, como por exemplo: do arrependimento, da oração, da contemplação, da Luz, da Pessoa etc...
            Se eu escrevesse cada pensamento numa folha de papel separada seria quase possível de dispô-los tal como cartas de jogo, classificando-os segundo diversas combinações: o mesmo pensamento poderia entrar numa dezena de problemas conexos. Espero que não tomemos isso como caricatura! A vida espiritual é como uma água viva: por vezes não passa de um pequenino ribeiro, por vezes um rio ou uma junção de rios, por outras vezes ainda um vasto mar. Ela é ora a música duma torrente saltitante entre os rochedos ora a corrente – constantemente percorrida de vibrações, mas majestosa – dum largo rio. Ora são as águas turbilhonantes no co-fluente de duas torrentes de montanha, ora a superfície estendida das águas onde se espelham o sol e o céu d´azur. Por vezes também, sobre a imensidão dos vastos oceanos, fortes tempestades fazem violência, seguidas por uma calma sublime no silêncio duma noite iluminada pela lua. Mas em tudo isso, as águas são sempre as mesmas.
            Quando ele volta-se para Deus, o espírito do homem pode sempre receber de Deus novas efusões de graça, novos conhecimentos. Ele atinge as fronteiras do tempo, passa em outras dimensões. Graças à sinergia do Espírito divino, ele abrasa o mundo terrestre, o ser cósmico, os íons temporais. Em seu impulso de oração ao Eterno, ele toca a própria eternidade.
            Eu não conheço experiência que pudesse ser, de alguma maneira, a soma, a recapitulação de todas as outras, notoriamente quando se trata de estados espirituais iniciais e médios. Mesmo se, por momentos, nosso espírito se aproxima de uma visão mais perfeita na Luz, esta perfeição é somente relativa; em nossa trajetória terrestre, ela não escapa as flutuações. Breve, a extrema riqueza dos dons do Alto não pode ser descrita numa apresentação estruturada de maneira lógica e cronológica; de minha parte, eu renuncio.
            O método do Starets Siluan consistia em colocar o homem diante de um princípio geral, a fim de que ele possa em seguida se controlar, ele próprio e discernir seus diversos estados. Eis alguns exemplos: “É necessário comer de tal maneira que depois de termos tomado nosso alimento, não percamos nem a oração nem o sentimento da presença de Deus” (ver Lc. 21, 34); “É melhor renunciar a todo empreender pelo qual a alma não ousa demandar a benção de Deus; da mesma maneira, é melhor abster-se de todo afazer antes do qual não podemos orar sem se perturbar-se”, “Se, durante a oração, um pensamento estrangeiro vem ao espírito, esta oração não é pura”. “Se possuímos intimidade ou rancor por alguém, nossa salvação é incerta”; “Se não temos amor pelos inimigos, estamos ainda nas mãos da morte e não conhecemos ainda Deus como nos é necessário conhecê-Lo”. E assim por diante.
            Eu resolvi então continuar a escrever, todavia com exigências para comigo mais restritas; apresentando minha experiência – para lá de secular – em seus traços mais salientes, em particular na sua relação com as afirmações fundamentais de nossa fé tais que as apreendi: o Deus-Amor é a Trindade Consubstancial e indivisível; o Ser absoluto é pessoal, e nossas relações com o Deus pessoal são, elas também, antes de tudo pessoais; o pecado é sempre um crime contra o amor do Pai, ou um afastar-se em relação a Ele; o restabelecimento da inocência original e da imutabilidade pelos séculos de nossa união de amor com Deus se realiza pelo arrependimento (pela penitência); fora de Cristo e da Luz do Espírito Santo ninguém jamais chegou a atingir a plena visão do pecado e nem nunca o compreendeu; a via que conduz ao Pai de tudo o quê existe é o Cristo e nossa adoção filial é possível somente e exclusivamente por Ele e n´Ele com o Filho Único, coeterno ao Pai e ao Espírito. Chorar de toda a sua alma é o estado normal daquele que se arrepende verdadeiramente. Quanto mais o temor de estar eternamente separado de Deus é violento, mais o horror de nossa ignomínia é profundo, e mais o impulso de nosso espírito na oração será total.
            A imensidão da tarefa que se encontra diante de nós não deve de maneira alguma nos desviar de sua realização. Se crermos que o Cristo – o Criador de nossa natureza – conhece de uma maneira perfeita as potencialidades desta natureza, isso nos incita a empreender o prodígio ascético proposto. Segundo a revelação, nós somos eleitos em Cristo desde “antes da criação do mundo”. Os Apóstolos e nossos Padres tinham plena consciência disso; porque seríamos nós então tomados de pusilanimidade diante de uma vocação tão maravilhosa, face à qual todo outro sentido da vida ou todo outro objetivo perde o seu valor? Ainda mais: fora desta idéia, tudo torna-se vazio, e a vida se reduz à uma vaidade desprovida de sentidos. Como homem, Cristo nos manifestou n´Ele próprio a possibilidade de atingir a santa eternidade no seio do Pai; nós não podemos recusar de responder ao Seu chamado (ver Jo. 15, 22; 16, 33). Decerto, não somos mais fortes do que os Apóstolos, os quais “maravilharam-se e seguiam atemorizados” o Senhor que subia a Jerusalém para ai ser julgado e entregue a uma morte infame (ver Mc. 10, 32-33). E nós sabemos que estamos em estado de guerra. Mas nossa única guerra – aquela que escolhemos – é a luta contra o inimigo comum de todos os homens, de toda humanidade: a morte (ver I Co. 15, 26). O homem, na realidade, não tem outro inimigo. Nós lutamos pela Ressurreição, a nossa própria e aquela de todo homem. O Senhor “nos enviou como cordeiros no meio de lobos” (Mt. 10, 16).
            Na base da escada dos diversos estados espirituais do cristão – e, talvez antes de tudo, do monge – se encontram “as trevas exteriores” (Mt. 8, 12); no degrau mais elevado se encontra o “Reino de Deus com poder” (Mc. 9, 1). Em sua mediocridade voluntária, numerosos homens não somente são infelizmente incapazes de compreender o Cristianismo autêntico, mas ainda desviam-se dele. Decerto, é ainda possível – mesmo em nossa época – encontrar atletas da piedade, cuja experiência se aproxima da eternidade; eles passaram pelos horrores das flutuações psíquicas, pelos tormentos interiores provenientes da consciência de sua impureza e de sua iniqüidade diante de Deus, pelas dúvidas destruidoras e a dolorosa luta contra as paixões. Eles conheceram o estado dos tormentos do inferno, as opressoras trevas do desespero, as cadeias da acedia mortal, a angústia e a aflição indescritíveis de se sentir abandonado de Deus.
            Àquele que prosseguiu o verdadeiro arrependimento é também dado de conhecer os numerosos degraus do júbilo e da paz espirituais, da fé inspirada e da esperança portadora de cura; o fogo do amor divino inflama o coração e o espírito do homem que ora, e lhe aporta a visão da Luz sem declínio da “cidade futura” (ver Hb. 13, 14). Afinado pelo jejum e a oração, o coração adquire facilmente a clarividência que vem da graça, enquanto se entreabrem diante dele as profundezas da alma e as vias conduzindo à cura pelo arrependimento. As outras formas de clarividência não retêm sua atenção. No princípio, vem habitualmente a graça da “memória da morte”: um estado particular, quando a eternidade vem tocar o coração do homem que permanece nas trevas do pecado. Eis que então, o Espírito divino – que ainda não é reconhecido mas, ao contrário, permanece desconhecido e oculto – comunica ao espírito do homem uma visão, difícil de explicar, do mundo circunvizinho: este mundo, o conjunto do ser cósmico onde tudo está marcado pelo selo da corrupção desde o instante do nascimento, aparece como privado de sentidos e imerso nas trevas da morte.
            A consciência do cristão que passou pela provação se abre à palavra evangélica. O quê outrora parecia contraditório se revela agora como universalidade divina, como mistério oculto desde os séculos aos olhares impuros. O contraste entre a cegueira anterior e a nova percepção é demasiado grande para ser exprimido em palavras. O espírito do homem chega a dois limites – o inferno e o Reino – entre os quais se move toda vida espiritual dos seres racionais pessoais.
            Quando o espírito do homem se concentra no interior – seja em seguida à sua aflição esmagadora, seja em virtude da glória celeste que o cobre – sua oração torna-se semelhante a um relâmpago que rasga num instante o espaço dum lado ao outro. Liberado do poder que tudo o que é passageiro pode ter sobre ele, o espírito se entusiasma facilmente pelo mundo imutável. Um sofrimento, aparentemente mortal, se mistura a uma insustentável felicidade.
            A natureza humana não suporta por muito tempo os estados-limites. Alguns dentre eles só são concedidos a certos homens e por uma única vez. Todavia nesta experiência, durante o mais breve instante, são reveladas esferas do Ser que os homens, ordinariamente nem suspeitam a existência: o coração deles está fechado à percepção da santa vida de Deus.
            O começo da luta vitoriosa contra o pecado consiste em afastar-se dos lugares, das pessoas e das circunstâncias às quais nossas quedas estavam ligadas. Deixar o mundo, fugir para o deserto constitui, neste sentido, uma etapa positiva; no deserto, em efeito, não podemos – materialmente, fisicamente – realizar inúmeros pecados como: usar de violência, enganar, roubar, cobiçar, viver na dissolução e na dispersão, e assim, sucessivamente. Decerto, isto é ainda longe de ser suficiente. O cristão atento ressente como uma subjugação ao pecado e à morte, a presença nele de paixões ainda não ultrapassadas e que triunfam dele, mesmo que seja no estado inicial do pensamento. Além disso, existem vários pecados que – independentemente de sua atualização sob uma forma visível – nos destroem: o orgulho, a vanglória, a soberba, o rancor, etc. A luta contra estes pode ser muito rude mesmo no deserto, numa solidão completa. A vitória sobre todas as coisas consiste na humildade, que nos torna semelhantes ao Senhor, humildes e sem paixões.
            Deus é isento de paixões, e aqueles que se salvaram n´Ele são eles também sem paixões. O sentido da impassibilidade cristã, apatheia, consiste no que o homem se libera do poder que a “lei do pecado” (Rm 8, 2) exerce sobre ele. O estado de impassibilidade se caracteriza pela presença constante no homem da graça do Espírito Santo, que testemunha ao nosso espírito que passamos “da morte à vida” eterna. A atividade do Espírito Divino se reconhece no amor, pois “Deus é amor: e quem está em amor está em Deus e Deus nele” (I Jo. 4, 16). Pela sua origem, este amor é imortal. Ele não diminui quando sofremos, mas lhe é próprio o compadecer-se. Na medida em que ele coloca o homem fora da morte, ele é naturalmente pleno de piedade compassiva, mesmo pelos inimigos. Ele não teme aqueles que matam o corpo; ele é da mesma maneira benevolente para com eles, pois que estão privados da Luz da vida verdadeira (ver Mt. 10, 28). Nossos Santos Padres nos ensinaram a compreender as coisas desta maneira; nós próprios vivemos este conhecimento como verdadeiro.
            Tendo nascido neste mundo, estamos a ele ligados por fortes laços, estreitas afinidades. Nós o amamos, pois é em seu âmbito que construímos nossa eternidade. Mas sofremos nele, pois ele é muito estreito para o amor a nós ordenado. Não podemos não amar o mundo, mas quando nossa atração por ele prevalece sobre o nosso amor por Deus, devemos encontrar em nós as forças necessárias para agir como Abraão: tomar em nossas mãos o fogo e o cutelo, e oferecer em sacrifício tudo o quê nos é querido em vista do triunfo do amor divino em nós (ver Gn. 22, 6).
            A benção do Senhor habita neste mundo, lá onde a recebemos com reconhecimento. Todavia, mesmo em seu aspecto abençoado o mundo não é de maneira alguma nosso objetivo final. Esmorecemos por aqui em baixo, tal como presos a uma santa aflição: o chamado de nosso Pai celeste nos atira. Nós temos consciência de que a parte de nosso ser que tende a Ele torna-se, ela também, celeste. Sabemos que Deus nos chamou a colaborar com Ele, em Seu ato de criação de deuses imortais. Nós somos criaturas, mas o Senhor Jesus – pela Sua aparição sobre a Terra, Seu ensinamento, Seu exemplo – nos torna semelhantes a Ele. A semelhança ao Filho Único se realiza em nós pela presença enquanto morada em nós do Espírito Santo. Desta maneira nos tornamos, nós também, filhos do Altíssimo (ver Lc. 1, 35). Tudo o quê Cristo diz a Seu respeito em Sua Encarnação pode nos ser atribuído, a nós também: “O Filho por Si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto Ele faz, o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-Lhe tudo o que faz” (Jo. 5, 19-20).
            O homem vive sobre dois planos: de uma parte, ele está neste mundo; de outra parte, transcende este mundo natural. Nas formas mais baixas de seu ser terrestre, ele aparece como uma “coisa” deste mundo; ele é, como tal, determinado. No entanto, como hypostase, imagem do Deus Hypostático, ele escapa a toda definição. Disto resulta o fato de que temos uma dupla consciência de nós mesmos: somos nadas, tirados do “nada”, e portanto, temos uma grandeza na graça da salvação. Em nós co-habitam a dependência e a liberdade, a corruptibilidade e a imortalidade, a escravidão e a senhoria. Em sua queda, os homens tornaram-se vítimas duma funesta aberração: consideram como grande o quê aos olhos de Deus é uma “abominação” (vede Lc. 16, 15), fogem e desprezam o quê é precioso diante d´Ele.
            Para ser cristão, o homem precisa duma audácia junto da qual tornam-se pálidas todas as outras audácias. “O Cristo Jesus, homem Ele mesmo” venceu o mundo e nos convida a participar à Sua vitória eterna (vede I Tm. 2, 5: Jo. 16, 33). Após a Sua Ascensão, é desde então como homem que Ele Se assenta à destra de Deus” (Mc. 16, 19). Todos nós temos necessidade da grande força da fé apostólica ou da simplicidade duma pequena criança para assumir sem hesitação esta vocação. “Ao vencer lhe concederei que se assente Comigo no Meu trono; assim como Eu venci e Me assentei com Meu Pai no Seu trono. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça...” (Ap. 3, 21-22). “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (I Jo. 5, 4).
            Aquele que se esforça em seguir a Cristo “onde quer que Ele vá” (Ap. 14, 4) será inevitavelmente abalado por muitas vezes, a cada vez que ele se elevar de um degrau no conhecimento e no amor. Não contemos Seu todo-poder em nossos corações, não apreendamos Sua infinidade pelo nosso intelecto. “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os Meus caminhos, diz o Senhor” (Is. 55, 8).
            De que maneira empacamos geralmente, incapazes que somos de compreender a vontade de Deus - Seu primeiro e último pensamento a nosso respeito! Nós não abandonamos facilmente “nossas vias”, e é com grande dificuldade que encontramos “as Sua vias”. Basta-nos a impressão de ter atingido o que buscamos que Ele já nos mostra que está infinitamente longínquo. Minha alma estende-se até o limite de suas forças; meu espírito não pode mais, o pavor me domina inteiramente diante dos abismos escancarados do conhecimento de Deus. Eu procuro um apoio na Palavra de Deus, e o quê acontece? Eu caio nesta passagem: “Ainda uma vez comoverei não só a Terra, senão também o céu”... Por quê? Porquê “mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as imóveis permaneçam” (Hb. 12, 26-27).

            Senhor, estou sem forças (cf. Sl. 6, 2). Tu sabes isso. Com temor, eu procuro as vias que conduzem a ti. Não me desprezes; não Te afastes de mim em minha queda, aproxima-Te de mim [também] que nada sou, pois tenho sede. Vem e habita em mim, e realiza Tu próprio em mim tudo o quê nos ordenaste; faze-me Teu pelos séculos eternos em um amor inabalável.

            A vida divina é impensável para nós. Eis porque falamos comumente de mistérios divinos. Todavia, isso não significa – bem evidentemente – que o Senhor nos oculte intencionalmente certos aspectos de Seu Ser eterno. Enquanto que seres criados “do nada”, logo como “potencialidades” somente, nós devemos passar por certo processo de tornar-se e de amadurecer na Verdade, adquirindo progressivamente o conhecimento dos mistérios. A vida é esta aqui, então: todos os dons do Criador são dons puros, posto que nada possuíamos antes de virmos neste mundo – até a nossa existência, a recebemos de Suas mãos. Todavia, a assimilação dos dons recebidos está ligada a uma dolorosa tensão de todo o nosso ser. Somente por meio desta condição é possível a Deus de nos atribuir a aquisição, de nos dar a vida que procede d´Ele em plena possessão por toda eternidade. Sua vida torna-se nossa vida.
            O Absoluto sem princípio, Deus, revelou-Se a nós como Ser pessoal. Mas nós, nós somos criados como pessoas em poder somente. Conhecer Deus é para nós – pessoas criadas - um ato bilateral: d´Aquele que dá e daquele que recebe. Este conhecimento traz sempre um caráter pessoal, não objetivo. Imagens de Deus, nós portamos em nós uma irresistível aspiração por elucidar o mistério do Ser Divino, que Se revelou a nós como o Ser-em-si.
            Após a oração do homem, o Senhor, desde então, não mais age só, mas sempre com o acordo daquele que Ele criou. O processo de nosso aperfeiçoamento resulta do encontro de duas vontades – aquela do Criador e aquela da criatura – e de duas pessoas: de Deus e do homem. O conhecimento do Deus Vivo nos é comunicado pelo ato de nossa união com Ele em Seu próprio Ser. Tal ato de “união” é o resultado do amor recíproco que abre o nosso coração, todo o nosso ser em sua integralidade. Se Lhe entregarmos somente uma parte de nossa vida, não nos é preciso esperar que Ele, o Eterno, Se revele a nós em toda a Sua integralidade, o quê não passa de uma maneira imprescritível, para sempre. O Senhor é inefavelmente generoso, mas todavia leva em conta a medida (o grau) com que nos damos a Ele. Em outros termos, Ele Se dá a nós na medida onde, em nossa liberdade estamos prontos a recebê-Lo.
            Deus une-Se ao homem de tal sorte que este vive Deus como sua própria vida, e de forma alguma como “objeto” de conhecimento”. O método científico, que procede por objetivação, não é em caso algum aplicável a Deus. Na união de Deus conosco, nós permanecemos – Ele e nós – invariavelmente pessoas, conscientes de estarmos ligadas pelo amor. Ele diz d´Ele próprio: “Eu vivo”; Ele Se nomeia: “Eu sou”, e Ele nos comunica precisamente esta vida. Desta forma, podemos nós também dizer de nós mesmo com emoção: “Eu sou”. Ele é o Ser-em-si, mas nós recebemos nosso ser d´Ele. Se estamos n´Ele, nós estamos fora da morte, o que quer dizer eternos.
            Ele Se nomeia Alfa e Omega, “o Princípio e o Fim” (Ap. 1, 8); “o Primeiro e o Último” (Ap. 1, 17). Ele é o princípio primordial: d´Ele próprio e de tudo o que existe. Até o momento em que Ele nos toca com Seu dedo, até o momento em que a energia da Sua vida eterna atravessa o nosso coração, nosso intelecto e até o nosso corpo, nós nos perdemos em nossas conjecturas a Seu respeito, sendo criados, nós não alcançamos, de uma maneira geral, como o Ser é possível. Nós constatamos este fato, mas, no entanto, não somos estamos mesmo prontos a ir mais longe. No início, Ele Se revela a Moisés no Sinai pelo Nome Eu Sou, em seguida – com muito mais força ainda – pela Sua aparição neste mundo, em nossa carne. Ele nos dá a benção de O conhecer como Pessoa, e de nos vermos a nós próprios elevados a este modo de ser pela Fé n´Ele, pelo nosso encontro com Ele numa união ontológica com Ele, pela vinda do Espírito Santo em nossos corações.
            A manifestação da Luz confere ao homem um conhecimento existencial de Deus; o coração, o intelecto, e mesmo o corpo tomam parte neste conhecimento. No entanto não o contemos em sua plenitude. Esta fato incita (desperta) em nós uma sede ardente, o desejo de intensificar nossa relação com Ele, de penetrar mais profundamente n´Ele com todas as fibras de nosso ser. Uma força estimulante – ao mesmo tempo fonte de júbilo e de dor – se encontra nesta nostalgia de Deus. Nosso espírito permanece imerso na aflição vendo-se ainda, de uma maneira inexplicável, tão longe do Pai tão desejado. Nossa oração torna-se como uma torrente impetuosa; a experiência que fazemos toma múltiplas formas. Preocupamo-nos, dia e noite, com a busca inventiva de vias que conduzem a Ele.
            Em nosso íntimo interior, subjetivamente, não temos dúvida alguma acerca da origem divina deste amor sagrado. Todavia, ainda que o impulso deste amor que surge na Luz inflama tudo, seria não somente errôneo, mas ainda perigoso, confiar-se em si mesmo. Nós sabemos, por meio da Escritura, que a Santíssima Virgem Maria apressa-se em encontrar a justa Isabel para dela ouvir a confirmação de que a revelação que havia recebido era verdadeira. O Anjo havia lhe anunciado que Ela daria à luz a um Filho que “será grande, e será chamado Filho do Altíssimo [...] e o Seu Reino não terá fim” (Lc. 1, 32-33). Outro exemplo nos é dado por São Paulo – ele nos confia que fora “arrebatado ao Paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar” (II Co. 12, 4). Segundo as suas próprias palavras, Deus “digna-Se revelar n´Ele Seu Filho (vede Ga. 1, 15-16). Apesar de tudo, Ele foi por duas vezes a Jerusalém a fim de Se submeter ao julgamento de Pedro e de outro ainda, e “aos que estavam em estima” (vede Ga. 2, 1-2). Para receber deles a confirmação de que não havia corrido em vão. Poderíamos citar infinitos exemplos deste gênero na história de nossa Igreja. Ela estabeleceu como regra obrigatória o fazer-se controlar e o submeter-se ao julgamento de outros, mais experientes (experimentados), mais antigos e reconhecidos pelos fiéis. Nós nos seguramos à esta Tradição.
            Somos marcados, na raiz de nosso ser, com o selo da criação ex nihilo; isto nos priva da possibilidade de trazer um julgamento individual acerca do Ser-em-si absoluto. E além do mais, trazemos em nós as conseqüências da “queda de Adão”, as quais se manifestam por uma tendência à auto-deificação. A experiência da liberdade e de nossa auto-determinação testemunham, decerto, de nosso “absoluto”, e podemos facilmente perder a consciência de que somos criados. Todavia, por sermos criados “à imagem do Deus Absoluto”, nosso “absoluto” nada mais é do que o reflexo em nós do Absoluto primário. Acerca deste ponto, podemos nos afastar, vítimas duma aberração sobre o duplo plano intelectual e psicológico. Podemos nos tornar as vítimas de nossa “imaginação”, e desta maneira nos afastarmos da realidade verdadeiramente existente, que não é individual, mas antes “católica”. Somos chamados, em efeito, a conter em nós toda plenitude do ser humano e mesmo divino, mas devemos reconhecer que não estamos ainda lá, longe se for preciso. Torna-se, assim, absolutamente necessário para cada um dentre nós, qualquer que seja o dom profético que ele possa usufruir, de receber a confirmação – pelo testemunho de outras pessoas – de que ele está incluso no ser “católico”, à imagem do Deus trinitário. Nós buscamos – e isto é natural – testemunhas tais que só podemos encontrar na Igreja, cuja experiência secular leva vantagem sobre toda experiência individual. No passado longínquo, os Apóstolos foram estes mestres competentes. Eles nos deixaram sob a forma escrita o conhecimento que haviam recebido diretamente de Deus. Depois deles vieram os inumeráveis Padres da Igreja (Doutores e ascetas) que transmitiram de geração em geração, antes de tudo, “o espírito da própria vida”, consolidando-o muito geralmente pelos seus escritos. Nós acreditamos que a cada época, alguns destes testemunhos vivos se encontram na Igreja e que, até o fim dos tempos, a humanidade não ficará privada do autêntico conhecimento de Deus.
            Podemos então somente nos fiar em nossa experiência individual depois de ter obtido uma confirmação autorizada, e novamente, não sem medida. Nosso espírito não deve parar em seu movimento a Deus. A cada novo passo, devemos nos lembrar que se – em nossa suficiência – nos separamos dos outros, este isolamento é pesado de possibilidades de pecar contra a Verdade.

            Rei Celeste, Consolador, Espírito de Verdade (Jo. 14, 16-17)
            Tu que procedes do Pai, e repousas no Filho (Jo. 15,26),
vem e habita em nós,
instrui-nos em toda Verdade (Jo. 16, 13),
e salva as nossas almas,
Tu que és bondade.

            “Mas quando Ele vier, Ele, o Espírito de Verdade, Ele vos instruirá em toda Verdade”, nos prometeu o Senhor antes de Seu êxodo em direção à morte sobre a Cruz.
            Ter consciência de estar afastado de Deus, deste Deus oculto, mas, todavia amado, é excessivamente penoso. Agora, ao refletir acerca do que me ocorreu em realidade durante estes anos abençoados, três observações me vêm ao espírito. Primeiramente, a sede de Deus, da qual eu estava devorado, parecia-me totalmente natural, “a única coisa necessária” (Lc. 10, 42) no estado lastimável em que me encontrava. Em seguida, sei que sou fraco, instável em tudo...; de onde então me é vinda esta oração que excede as forças de minha natureza? Enfim, não seria o Senhor, Ele-próprio que me atrai pela Sua força? Não há lá a união de duas vontades: aquela de Deus e a minha, na medida em que o nosso Deus e Criador não realiza nada em nós sem o nosso acordo nem o nosso concurso?
            A aflição de minha alma era incessante – dia e noite. Meu tormento se desaguava numa oração igualmente ininterrupta, mesmo durante o meu sono, ou quando me encontrava no meio de outras pessoas. Na presença deles, todavia, certa força e retinha de manifestar meu estado ao exterior; mas desde que eu retornava a mim mesmo – e por vezes mesmo antes que tivesse tempo de fechar a porta de meu quarto – os prantos se apoderavam novamente de mim. Em dados momentos a dor da alma causada pela minha separação de Deus me lançava à terra; no silêncio noturno, durante horas, eu não deixava de deitar lágrimas e de me lamentar a (Sua) perda, com uma intensidade inexprimível. Todo o meu seu, o meu intelecto, o meu coração e mesmo o meu corpo, tudo se recolhia estreita e fortemente, (tal) como um nó bem apertado. E quando os prantos franqueavam certo limite, a terra e todo o mundo visível desaparecia de minha consciência; eu estava lá, só, diante de Deus. A Luz impalpável que jorra do Eterno me permitia ver-me não em minha aparência exterior, não nas condições de minha vida cotidiana, mas antes de uma maneira estranha que eu não saberia descrever: eu permanecia diante de meu Criador, radicalmente nu em meu próprio ser. Nada em mim ficava oculto a Seus olhos.
            Um dos acontecimentos mais marcantes de minha vida foi, graças à boa providência de Deus para comigo, meu encontro com o Starets Siluan. A este homem humilde, havia sido concedido do Alto de orar pelo mundo inteiro como por ele mesmo. Nele, todavia, predominava a aflição por aqueles que já haviam partido daqui de baixo. Sua alma estava pregada à visão do inferno que está para lá dos limites da Terra. Ele contemplava este inferno em virtude de sua experiência – o que lhe havia sido dado de viver – da realidade deste estado espiritual do espírito humano. Ele não estava, de uma maneira geral, limitado em sua oração nem pelo tempo nem pelo espaço, pois seu espírito estava constantemente direcionado à eternidade. Em mim, em contrapartida, prevalecia a visão do inferno aqui em baixo, na História.
            Minha vida no deserto – longe de me liberar deste estado – aumenta, ao contrário, meu tormento pelo mundo devido aos acontecimentos trágicos de nossa época; isto mais especialmente durante a Segunda Guerra Mundial. O deserto dava a liberdade de me entregar à oração pela humanidade, particularmente durante as horas da noite, estava de alguma maneira, possuído pela percepção dos sofrimentos do mundo inteiro. Minha experiência da Primeira Guerra Mundial, e seguidamente, da Revolução Russa, sem dúvida ai contribuíram. Eu havia vivido durante anos numa sufocante atmosfera de ira, raiva, cólera, ódio fratricida, primeiramente na guerra internacional, e em seguida na guerra civil. Desde então, prefiro ouvir falar da perda de muitos milhares de vidas humanas nas catástrofes naturais, como por exemplo, os tremores de terra, as inundações, as epidemias, etc... Os desastres deste gênero suscitam normalmente a compaixão de todas as partes, enquanto que as guerras arrastam, por assim dizer, todos os homens sem exceção, numa cumplicidade moral com os massacres que nela são perpetuados. Não há maior pecado do que a guerra. Estes anos lá, eu vivia a Liturgia relembrando-me de Cristo na noite, no Gêtsemani, bem como do dia terrível do Gólgota. Eu estava no deserto: a primeira queda do homem desvendava-se sob os meus olhos em todas as suas dimensões. Como permaneci vivo? Eu não sei de nada.
            “E quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo. 19, 30). O que é que havia na consciência de Cristo quando Ele pronuncia estas palavras: está consumado? Ninguém está na medida de desvendar em plenitude esta eternidade na qual o Senhor habitava constantemente. Todavia não nos enganaremos supondo que Sua visão global não integrava somente Sua extrema “kenosis” – até e ai compreende a descida ao inferno – mas, também a Sua vitória sobre a morte: Ele percebia, na Luz do Reino do Pai, a multidão daqueles que Ele havia salvado. O desígnio do Altíssimo a respeito do homem no intelecto criador de Deus desde “antes da criação do mundo” torna-se agora possível e se realiza: Cristo realizou “a obra” que o Pai Lhe confiara (vede Jo. 17, 4).
            Nós ficamos no temor, no pavor, quando os extremos estágios do sofrimento se descobrem diante de nós. Mas a via cristã tem, precisamente, isto de particular: que, ao mesmo tempo da descida ao país dos horrores da morte, o espírito humano tem a possibilidade de subir à esfera da Luz incriada. Quando as provações insuportáveis, o que nos parece, se abatem sobre nós, o acesso a uma superabundância verdadeiramente infinita de vida se abre a nós, ao imprevisto. Logo então, começamos a conhecer mais profundamente o Cristo, em Sua humanidade e Sua divindade. Então, nosso espírito triunfa e se admira com o milagre que Deus operou por nós. Da mesma maneira que a oração do Gêtsemani permanece eternamente em seu poder real, que a morte de Cristo no Gólgota esta inscrita para sempre no corpo do universo criado, por toda eternidade, todos os labores que temos realizado em nossa caminhada seguindo a Cristo, mas transfigurados pela força do amor divino.
            Àquele que crê são concedidos estados que o tornam semelhante ao Deus Encarnado. Se não falamos duma identidade completa, não negamos certa analogia. Afirmar a primeira coisa seria loucura; negar a segunda, impiedade e ingratidão. Se jamais não houvera sido dado a ninguém de viver na oração, e somente uma fraca semelhança aos estados do Deus - Homem, como é que os homens chegariam então a discernir Deus n´Ele? “Ora a vida eterna é esta: que Te conheçam, a Ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste” (Jo. 17, 3).
            Tal é o objetivo de toda nossa laboriosa ascese: conhecer o único Deus verdadeiro. Nosso espírito está orientado não a fenômenos temporais, mas antes ao Ser que não passa. O impulso de nosso intelecto está dirigido Àquele que é, que está na base de tudo o que existe, que é o Primeiro e o Último. Como poderíamos conferir ao Cristo “histórico” semelhantes atributos se, de uma parte, a observância de Seus Mandamentos não produzisse em nós os frutos que nossos Padres falam com tanta veneração e entusiasmo, de geração em geração, e se, de outra parte, Ele fosse um indivíduo tão limitado como parecemos ser? Mas “o Filho de Deus [...] nos deu entendimento para conhecermos o [Deus] verdadeiro; e estarmos no Verdadeiro, em Seu Filho Jesus Cristo” (I Jo. 5, 20). O Apóstolo Paulo sublinha que em nós deve existir “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp. 2, 5). Novamente, Paulo “põe-se de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo [...], para que nos conceda que sejamos corrobados com poder pelo Seu Espírito, fortificando em nós o homem interior, que Cristo habite pela fé nos nossos corações, que nós [...] recebêssemos a força de compreender, com todos os Santos, qual seja a largura e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e de conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejamos cheios de toda plenitude de Deus”. (ver Ef. 3, 14-19).
            Logo então, se no princípio do Cristianismo, o Espírito pôs na boca e no coração de Paulo estas palavras, este mesmo Espírito não deixou até o dia de hoje de inspirar aos corações dos crentes uma oração semelhante pelo mundo inteiro; a fim de que cada homem saiba de todo o seu ser que o Senhor nos chama a todos e a cada um de nós, “para a Sua maravilhosa Luz” (I Pe. 2, 9).
            Nós não alcançamos, pela nossa inteligência, o significado da salvação do mundo, ou como compreender a ressurreição dentre os mortos (vede M. 9, 10); na oração, nos é dado por vezes - a nós também – um estado que nos revela previamente os mistérios do século que há-de-vir. Nós acreditamos que um momento virá – chamado “a plenitude dos tempos” (Ef. 1, 10) – como realização de tudo o que o Criador pensou a nosso respeito.
            A eternidade não tem duração. Todavia, ela abraça toda a extensão dos séculos e do espaço. Podemos falar dela como de um “instante eterno” que não está pronto à definição ou medida alguma: nem temporal, nem espacial, nem lógica. Neste instante indefinível, graças ao dom do Espírito Santo, nós abraçamos também com amor – num único ato instantâneo e imortal de todo nosso ser – tudo o que existe desde a aurora dos tempos. Deus, então, será tudo em nós (I Co. 15, 28).
            O ser da criatura que tem razão deve tornar-se perfeito: à imagem da Tri-unidade divina. Eis o sentido, o objetivo e a missão da Igreja de Cristo: “Que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és em Mim, e Eu em Ti;que também eles sejam um em Nós” (Jo. 17, 21). É claro que cada membro da Igreja deve chegar à plenitude da semelhança a Cristo – mesmo até à identidade; senão, a unidade da Igreja não se realizará à semelhança da unidade da Trindade Santa.

 

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