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Sâo Máximo, Confessor (580-662)
Tropário de São Máximo,
o Confessor
Guia da Ortodoxia, mestre de piedade,
luminar do universo, ornamento dos monges, inspirado
de Deus, sapiente Máximo, pelos teus ensimamentos
iluminastes o mundo inteiro, óh Lira do Espírito.
Roga a Cristo nosso Deus que salve as nossas almas.
Kondakion
Fiéis veneremos, como merece o amigo
da Trindade, Máximo o Grande, que ensina claramente
a fe divina para glorificar à Cristo em duas naturezas,
duas vontades, duas energias, com cánticos, dizendo: Alégrate! Predicador da fé.
Biografia:
Nasceu em Constantinopla em 580 de
familia aristocrática de quem recebeu uma educação
privilegiada. (Existe uma outra versão de que teria
nascido na Palestina, segundo fontes siríacas)
Foi convocado a Corte Imperial e
tornou-se o primeiro secretário do Imperador Heráclio;
destinado a exercer altas funções, a existência
mundana parecía-lhe medíocre.
Sentindo-se vocacionado à vida espiritual
abandonou tudo e escolheu a vida monástica no Mosteiro
de Crisópolis onde permanece até 615.
Em agosto de 615 parte para o mostério
de S. George em Cízico, onde permanece até a invasão
de persas e ávaros. Começa aquí seu exilio.
Passa por Creta em 628. Em Pentecostes
de 632 está em Cartago na África e provávelmente
em Chipre em 630.
No período africano continúa a vida
monástica e em 641 empreende uma luta contra o monofisismo
e a nascente heresía do monoergismo e monotelismo.
Neste período existe uma forte discussão
na Igreja sobre o monofisismo e a unidade política
do Imperio bizantino depende da unidade religiosa.
Em julho de 645 o Patriarca Pirro
chega a África para dirimir a heresia monofisita
com S. Máximo numa disputa pública, da qual se têm
a transcripção inteira.
Nessa disputa diante do governador
e inúmeros bispos africanos S. Máximo convence Pirro
do seu erro.
Neste período desenvolve intensa
atividade contra o monotelismo mediante escritos
e conversações. Sua participação é decisiva no Concílio de Latrão em 649.
Em junho de 653 é aprisionado em
Roma por ordem do Imperador Constâncio junto ao
Papa Martinho.
Em junho de 654 sofre o primeiro
processo político e posterior exilio em Byzia na
Trácia. Em 656 tenta-se convence-lo a abandonar
suas posições e sofre um sugundo exílio em Perberis.
Chamado a Constantinopla em 658 é
condenado pelo sínodo no ano de 662. O castigo imposto
é a pena iraniana, que consiste na amputação dos
membros com os quais defende sua doutrina: a lingua
que profesa a fé reta e a mão direita que escreve.
Em consequência destes tormentos
morre no exílio em Lazika, na costa do Mar Negro
em 13 de agosto de 662.
Obras Principais:
Os tomos 90 e 91 da Patrologia grega
de Migne, 1863 París, recolhem uma edição do conjunto
das suas obras.
Ambigua: é sua obra mestra
onde manifesta sua profundidade e agudeza especulativa
e riqueza de análise (Gatti, Milão 1987) composto
de dois conjuntos de trabalhos que contêm uma refutação
dos origenistas.
Segundo Von Balthasar “o único lugar
na patristica grega onde se refuta o erro origenista
desde uma compreensão acabada de Orígenes.
As 79 Questiones et Dúbia:
trata de várias questões teológicas e escriturísticas,
sendo frequentemente respostas breves como a pregunta.
As 65 Questiones at Thalassium:
são respostas mais extensas a questões sobre a interpretação
de diversas passagens bíblicas onde encontra-se
a doutrina espiritual do Confessor. Junto com Ambigua é a mais relevante
obra teológica.
As 03 Questiones ad Theopemtum,
com as outras duas obras integra um conjunto de
gênero muito extendido de “questiones et responsiones”
200 Capita theologica et econômica
onde toma abundantes elementos de Orígenes e Evágrio
Pôntico.
Diálogo Ascético, ano 626:
escrito dentro da grande tradição monástica têm
como tema a captação do misterio da caridade como
resposta à questão ascética (o exercício da vida
espiritual) como uma referência ao mistério de Cristo.
Centúrias sobre a Caridade:
obra destinada ao mesmo destinatário do Diálogo
Ascético, Elpídio e têm como tema central a caridade
desenvolvida em 400 capítulos ascético-espirituais,
muito em voga na literatura monástica de caráter
sapiencial. (ver Lelup pg 208)
Trata-se da sabedoria acumulada durante
séculos de experiência monástica e têm um claro
sentido mnemotécnico.
Do período africano e sua ativa luta
contra o monofisismo, o nascente monoergismo e monotelismo
são os tratados espirituais:
Interpretação do Pai Nosso escrita no período 628-630, onde apresenta uma síntese
da filosofia dos primeiros séculos da nossa era.
De uma filosofia como via de transformação que se
chama de theosis ou divinização.
Esta divinização é progressiva e
o comentário sobre o Pai Nosso descreve perfeitamente
as etapas necessárias para alcança-la.
Disputa com Pyrro: debate
teológico ocorrido na África para resolver questões
dogmáticas e doutrinais e pelo qual S. Máximo convence
Pyrro dos seus erros.
Mystagogia: é uma análise
simbólica dos ritos litúrgicos. De particular relevância
os 07 primeiros capítulos onde o Confessor elabora
uma ontología do misterio eclesial.
De singular importância para nós,
sua concepção de homem como microcosmos e a colocação
de toda a criação à unidade.
Comentário ao Salmo 59 trabalho
exegético bíblico.
Opúsculos teológicos e polêmicos onde destacamos o tema da Agonía de Jesus. Este
tema é aprofundado por S. Máximo na defesa da plena
humanidade de Cristo, sobre tudo para fazer a distinção
entre as duas vontades de Cristo: a humana e a divina.
Ao fazer-se homem Cristo apropiou-se
de tudo o que pertence à natureza humana, compreendidos
a dor e o medo à morte, mas conferindo-lhe aquilo
que era seu como pessoa divina, cuja vontade humana
era livre e independente, não escrava do pecado.
Se Cristo teme a morte, como humano
que era, com a mesma vontade humana supera o temor.
A Teologia da Divinização:
No período monástico considerou a
Divinização como o objetivo da vida cristã por ser
esta “a plena realização da natureza humana em Deus”
Trata-se de exigente fidelidade para
conservar em nós a liberdade; em conformar o ser
e sua vontade com a do Cristo, em qualquer situação,
a fim de viver a intimidadeque Ele tinha com o Pai
no âmago do mundo.
Se a natureza, a vontade, a energia
humanas de Cristo não forem respeitadas, então não
haverá divinização real do homem, pois neste caso
o caráter próprio do homem é aniquilado pelo poder
divino.
As grandes obras de S. Máximo situam-se
neste contexto em que o cerne do debate é a união
das duas naturezas, das duas vontades e das duas
energias no Cristo, “sem confusão nem separação”
“Só é salvo aquilo que tiver sido
assumido”: se Cristo não é veraddeiramente homem,
então, nós não fomos verdadeiramente salvos.
Cristologia e Teologia da Divinização,
segundo S. Máximo não estão separadas. Para ele,
Jesus Cristo aparece como o homem plenamente universal,
“católico” (segundo o todo), o homem da síntese,
entre o criado e o incriado, entre o tempo e a eternidade,
entre a liberdade humana e a liberdade divina: é
o arquétipo do homem divinizado.
A Divinização como realização plena da natureza
humana em Deus:
S. Máximo considera a Divinização
como a realização plena da quase natural, da natureza
humana, voltada para seu fim que é Deus: para participar
do Belo, da Verdade, do Bem, do próprio Ser.
A liberdade humana consiste em aderir
ao movimento íntimo de seu ser em direção ao Ser
Eterno. Se não aderir a esse movimento, ele torna-se
contranatural e entra na “região da dessemelhança”
encontra-se em estado de hamartia (do grego: pecado,
literalmente: “falhar ao alvo” . Não realiza seu propósito
existencial.
A Divinização é aquí, o repouso de
todas as nossas faculdades na contemplação do Ser-Amor
para o qual está encaminhado o nosso desejo.
O homem não foi feito somente para
produzir, ter, acumular, e sim é feito para Ser.
A Divinização como adoção pessoal do Pai no Filho
Cristo:
É concebida em um meio em que pode
desabrochar a natureza, supostamente contemplativa
do ser humano, encarada como o espaço em que se
desenrola a aventura de nossa comunhão pessoal com
Deus que confere a nosso agir uma feição inédita,
de uma ascese prática.
Trata-se da identificação com o Cristo,
ao encarnar em cada um de nós, o Logos faz-nos filhos
do Pai, a divinização é para S. Máximo adoção filial
é o confessor da união das duas naturezas e das
duas vontades no Cristo.
A Divinização é exatamente a união
de duas liberdades, de duas vontades: Não seja feita
a minha vontade, mas a Tua vontade (Lc 22:42) Mas
a vontade de Deus não toma o lugar da nossa; Deus
não pensa por nós, nem deseja em vez de nós: a grandeza
de Deus é que deixa subsistir a liberdade daqueles
que se entregam a Ele.
A Divinização é um processo que não
ocorre de uma vez, mas cada dia trata-se de recomeçar
a viver, na alegria como nas provações segundo o
modo de ser de Cristo.
Estudos sobre São Máximo:
A literatura especializada não é
abundante, se comparada com a de outros Padres da
Igreja, dada a dificuldade da temática maximiana.
Falta um estudo crítico global da
sua obra, que somente agora começam a aparecer.
Segundo Argarte, o estudo sobre o Confessor se divide
em duas etapas: antes e depois de Kosmische Liturgie
de von Balthasar (1930). Isto implica uma nova atitude
e valorização da sua obra.
Mais tarde Lot-Borodine já reivindica
a originalidade do pensamento de S. Máximo.
Estes trabalhos tem como propósito
mostrar não só a originalidade como uma poderosa
síntese confirmado pelo Simpósio sobre S. Máximo
o Confessor em 1980.
Outros autores estudiosos de sua
obra são Sherwood, Dalmais, Hausherr, Volker, Loosen,
Heintjes, a série de monografias dirigidas por Le
Guillou: de Garrigues, Riou, Lethel e Schönborn.
Soman-se a estas os estudos de Croce, Piret e recentemente
Bausenhart, Karayannis e particularmente Larchet:
A Divinização segundo S. Máximo o Confessor. Ed. Du Cerf, Paris 1996.
O Pai Nosso como síntese e tratado de divinização
segundo o Confessor:
O Pai Nosso é uma breve síntese da
filosofia dos primeiros séculos da era cristã, mas
o verdadeiro filósofo é antes de tudo um homem de
oração, ou seja, que vive em relação íntima com
a Fonte de seu Ser.
O Pai Nosso é uma theosis ou divinização
progressiva descrita em etapas. Mostra a exigência
de uma pedagogia na abertura ao Outro, ao Completamente
Outro (Deus).
A Escritura não debe ser verificada
na sua referência semântica ou histórica, mas experimentada
no movimento do Sopro (Pneuma) do espírito.
O
que pedir?
Pedi e vos será dado! Procurai e
encontrareis! Batei e a porta será aberta! Todo
aquele que pede, recebe, quem procura, encontra;
quem bate, a porta será aberta (Mt 7: 7-8).
Mas o que se deve pedir? Que merece
ser procurado? Que porta bater? S. Paulo dizia que
nós não sabemos pedir nem orar.
Será necessário que o Espirito Santo
interceda por nós para dizer Abba (Pai) Não será
esse o objetivo da oração? harmonizar nossos desejos,
nossas vontades, nossos pensamentos a fim de que
se realize em nós a filiação divina?
O Pai Nosso é tratado de divinização
a obra do designio de Deus de deificarmos a nossa
natureza.
“Pai Nosso que estás nos céus, santificado seja
o teu Nome, venha a nós o Teu Reino”
Esta oração de Jesus nos conduz a
contemplar uma revelação da Trindade: Somos chamados
à ousar convocar a origem de todos os seres vivos,
a causa primeira, o criador dos mundos.
Ao nosso Pai pedimos-lhe que Seu
Nome seja santificado, seu Nome é o próprio Filho;
Em seguida pedimos-lhe que venha o Seu Reino: o
Espírito Santo. Assim somos introduzidos no clima
da vida trinitária e no desejo de “participar da
natureza divina”
Somos levados a honrar a Trindade
consubstancial e superessencial como causa criadora
de todas as coisas.
“Que seja feita a Tua vontade assim na terra
como no céu”
Nos primeiros versículos já pedimos
a Deus, nosso Pai que nos conceda aquilo que Ele
não pode deixar de nós dar, Seu Filho e Seu Espírito
Santo: suas duas mãos pelas quais Ele nós recria
incessantemente à sua imagem e semelhança com objetivo
de elevar nossa vontade e nossa consciência até
a companhia dos anjos.
Semelhante espírito puro obtém- se
por uma firme prática da lucidez e pelo adequado
exercício da reta razão. Aprender a ver com clareza,
a pensar com discernimento é o mais adequado meio
de harmonizar nossa inteligência com a Inteligência
criadora e assim realizar Sua vontade.
“O pão nosso suprasubstancial nós dai hoje”
É necessário ter uma inteligência
espiritual, uma razão esclarecida para compreender
esta demanda, sob risco de interpretar esta no sentido
grosseiro a demanda do pão. Não se trata do pão
carnal, mas do pão dos anjos, do pão suprasubstancial
(epoiusios)
Alimento não do corpo destinado à
morte, mas de um maná misterioso destinado à alimentar
o divino em nós, o corpo que não morre, nosso corpo
de gloria, segundo S. Paulo.
Em relação à vossa alma, não vos
preocupeis pelo que haveis de comer ou beber. Como
pode ensinar a orar por coisas que não deveriam
ser pedidas, segundo esta recomendação?
O Salvador nos ordenou que procurássemos
exclusivamente o Reino de Deus e sua justiça, é
razoável que este Reino seja solicitado pela oração
dos que desejam o Reino.
O pão nosso de amanhã dai-nos hoje:
é o pão do tempo da salvação, pão da vida. Hoje
significa este mundo. Nosso pão que preparastes
no começo para a imortalidade da natureza, da-no-lo
hoje a nós que estamos mergulhados na vida presente.
Para que a morte e o pecado sejam
vencidos pelo alimento do pão da vida e do conhecimento.
“Nossos pais no deserto comeram do
maná e morreram. Quem comer deste pão e beber deste
vinho viverá para sempre” ( Cântico de comunhão
Liturgia Bizantina)
“Perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos
aos nossos devedores”
Alimentados pelo pão angélico e suprasubtancial,
o coração transforma-se dotado de uma compreensão
e discernimento angélicos.
Torna-se capaz de compreender tudo,
perdoa tudo. Conhecer-se a si mesmo, conhecer o
que há no homem é tornar-se como o Cristo, capaz
de dizer: Pai perdoa-lhes porque eles não sabem
o que fazem.
O perdão torna-nos semelhantes à
Deus
“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos
do maligno”
Para S. Máximo somente aquele que
tiver realmente perdoado poderá ser desembaraçado
da tentação e da influência do maligno.
O coração e o espírito impregnado
do Amor não têm mais nada a recear.
Para S. Máximo o maligno é o poder
de ilusão que se apodera de nosso desejo e nos desvia
do verdadeiro Real.
Pede-se para Deus nós livrar específicamente
do maligno pois este é a origem de todo mal, ainda
que o mal seria algo muito vago e genêrico.
Recapitulação da sua Contemplação:
Remonta da última demanda à primeira,
neste sentido se opera nossa divinização:
Em primeiro lugar é necessário deixar
de ceder à influência do maligno.
Em seguida perdoar para que a graça
do perdão de Deus se torne viva em nós.
Assim sejamos alimentados com o pão
dos anjos que é a contemplação da pura Bondade e
participação de Sua Vida.
Então é o Espírito de Deus que habita
e reina em nós, o Filho encarna-se no mais profundo
do nosso ser e por Ele podemos dizer a Deus Abba
. Nosso Pai.
Bibliografia consultada:
Biblioteca
de Patrística. Máximo el Confesor. Meditaciones
sobre la Agonía de Jesús. Editorial ciudad nueva.
Madrid:1996.
Biblioteca
de Patrística. Máximo el Confesor. Tratados Espirituales.
Editorial ciudad nueva. Madrid:1997.
Jean-Yves Lelup. Introdução aos Verdadeiros
Filósofos. Éd. Vozes: 2004.
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