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   Memórias do nosso venerável
  Pai Teóforo João Damasceno

Tradução Irmã Rebeca, Mosteiro dos Santos Apostolos Pedro e Paulo
(Herzegovina/ Patriarcado da Sérvia)


A grande cidade de Damasco, capital da Síria, sendo tomada pela dominação árabe aos 635 torna-se a sede do califado. Apesar da forte pressão exercida sobre os cristãos, Sérgio Mansur, representante de uma das mais ilustres famílias da cidade, havia conseguido ganhar a confiança do Califa Abdul-Malik (685-705), tornando-se seu general-intendente para os assuntos ligados as populações cristãs submissas ao tributo.

É deste homem justo e bom que vem a nascer, por volta de 680, nosso santo Pai João – instrumento melodioso do Espírito Santo. Instruído desde sua infância nas grandes virtudes da oferta e da caridade, por seu pai, o qual dispunha grandes recursos à redenção e à liberação de prisioneiros cristãos, João cresce e progride em sabedoria, em companhia de seu irmão adotivo, São Cosme (comemorado aos 14 de Outubro) - recolhido por Sérgio depois da morte de seus pais. Os dois irmãos foram, em seguida, iniciados à filosofia e a todas as ciências do tempo pelo sábio monge Cosme, originário da Itália, recuperado das mãos dos árabes por Sérgio.

A viva inteligência e a sapiência dos costumes dos dois jovens rapazes os fizeram progredir rapidamente e a crescerem em particular na arte da poesia e da música, ao passo que no dealbar de alguns anos, seu Mestre, reconhecendo que não havia mais o quê os ensinar, pede a permissão (a Sérgio) para se retirar à Lavra [1] de São Sabas, e lá terminar seus dias.

Chamado a uma brilhante carreira na administração, João, conhecendo perfeitamente tanto o árabe como o grego, sucede seu pai no alto cargo, após a morte deste último, sob o Califa Walid (705-715).

Algum tempo depois, Leão III o Isauriano sobe no trono de Bizâncio e não tarda a atormentar a santa Igreja de Cristo, dirigindo-se contra a piedosa veneração das santas imagens. Tomando conhecimento da situação, o ardente defensor da Fé, João, envia de Damasco, várias cartas a Bizâncio, com o propósito de justificar, por meio de argumentos tirados das Santas Escrituras e dos escritos dos Santos Padres, o culto dos santos ícones. Ele desperta a ira do monarca que para se ver livre dele, faz chegar ao Califa uma falsa carta da parte de João, propondo ao Imperador de vir se apoderar de Damasco. O Califa, furioso, faz cortar a mão direita de seu conselheiro.

Nesta mesma noite, depois de ter colocado o membro sem vida diante do ícone da Mãe de Deus, João passa longas horas a orar com lágrimas à Soberana do mundo, pedindo-Lhe que restituísse o uso de sua mão. Ao despertar, descobre maravilhado que sua mão direita havia sido restabelecida. Ele decide, desde então, a se consagrar ao louvor da Mãe de Deus, do Cristo-Salvador, bem como a defesa da santa Fé ortodoxa. Renuncia suas funções, distribui sua fortuna e, em companhia de Cosme, parte a Jerusalém, a fim de se tornar monge na Lavra de São Sabas o Consagrado.

Confiado pelo Igumeno [2] da Lavra a um Ancião experiente nos combates da virtude mais rude e exigente, João vê-se desprovido de toda atividade que lhe ligava à sua glória passada: filosofia, ciências, poesia, canto e escritura, e recebe a ordem de se consagrar sem murmúrios, as tarefas mais vis, a fim de progredir em obediência e na humildade. O brilhante jovem demonstra então um zelo admirável, renunciando em tudo à sua vontade própria e esquecendo seu passado.

Certo dia, pressionado por um vizinho que acabara de perder um de seus parentes, ele compõe, para lhe consolar, um sublime Tropário [3], ainda em uso em nossos dias, mesmo apesar da restrição de seu Pai Espiritual. Ao saber deste ato de desobediência, seu Ancião lhe ordena de recolher todas as imundices da Lavra com suas próprias mãos; o quê ele faz sem replicar em nada. Todavia, alguns dias mais tarde, a Mãe de Deus aparece ao velho monge pedindo-lhe que deixasse, desde então, seu discípulo compor hinos e poemas, que iriam ultrapassar em beleza e em doçura os Salmos de David e as Odes dos Profetas.

Tal como uma harpa de acentos melódicos, João faz ressoar, sob a inspiração do Espírito Santo um grande número de hinos com uma harmonia perfeita, cujo conteúdo reunia as mais profundas especulações teológicas dos Padres da Igreja. Foi ele que compôs o Cânone [4] que cantamos na Páscoa e redigiu também, na sua maior parte, os hinos do Octoeco [5] em honra da Ressurreição. Ele é também o autor de admiráveis cânones e homilias em honra das Festas do Senhor e da Mãe de Deus e dos Santos. Conjuntamente com estes dons de mélodo, Deus lhe concede a graça da expressão teológica. Sem acrescentar nada de novo aos dogmas e as doutrinas exprimidas por Padres anteriores, tais como: Gregório o Teólogo, Basílio o Grande, João Crisósotomo, Gregório de Nissa, Máximo o Confessor.... São João Damasceno expôs, em uma trilogia intitulada Fonte do Conhecimento [6], o essencial da Fé cristã com a ajuda de expressões de uma densidade e de uma clareza tão admiráveis que podemos considerar sua obra como o selo e o coroamento da grande era patrística. Sua Exposição da Fé Ortodoxa é a mais segura referência para o cristão ortodoxo acerca de tudo o que concerne o dogma e o monumento exemplar da Tradição Cristã.

Refutando as heresias e mostrando a via real da santa doutrina que conduz ao céu, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda, João se ilustra particularmente na luta contra os iconoclastas. Em três longos tratados compostos entre 726 e 730, ele mostra com clareza a profundidade teológica e a necessidade da veneração dos santos ícones e das relíquias, por ser uma proclamação da realidade da Encarnação do Filho de Deus e da deificação de nossa natureza, na pessoa dos Santos.

Tendo adquirido a verdadeira sabedoria por meio de sua humildade e sua constância nos trabalhos da ascese, este filósofo do Espírito Santo dorme em paz no Senhor com a idade de cento e quatro anos. Podemos ainda venerar a gruta na qual se retirara no Mosteiro de São Sabas.



Notas de tradução:

[1] – LAVRA: Grande complexo monástico, podendo reunir várias construções, prédios e dependências monásticas, bem como as terras, as propriedades, as Igrejas e Capelas. A Lavra de São Sabas o Consagrado situa-se em Jerusalém, na Palestina, e segue, ainda nos dias de hoje, uma regra muito restrita.

[2] – IGUMENO: Título geralmente destinado ao Superior de um Mosteiro, neste caso, enquanto chefe espiritual e administrativo da comunidade. É através dele que os monges recebem suas obediências (trabalhos e/ou tarefas cotidianas no Mosteiro).

[3] – TROPÁRIO: Curta composição melódica dos serviços divinos, em honra das Festas do Senhor e da Mãe de Deus, dos Santos, dos dias da Semana, de temas do ciclo litúrgico e também das necessidades de celebração.

[4] – CÂNONE: Composição hinográfia dos serviços divinos trazendo o conteúdo teológico da celebração do dia. Os Cânones são compostos, na maioria das vezes por oito Odes, as quais podem compreender até 14 estrofes, ao todo. Os Cânones fazem parte do Ofício de Matinas e de Completas, mas podem também serem lidos ou cantados em guisa de Cânones de Intercessão ou fazerem parte da oração pessoal.

[5] – OCTOECO: Livro litúrgico que traz os oito tons dominicais diferentes, usado de acordo com o ciclo litúrgico nos ofícios diários (mais necessariamente de Matinas e Vésperas).

[6] – FONTE DO CONHECIMENTO: Coletânea compreendendo a Dialética (introdução filosófica), a História das Heresias (refutações de cento e três heresias) e o Exposto da Fé Ortodoxa.

 

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