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O
Pastor de Hermas (3ª Parte)
PRIMEIRA
PARÁBOLA
CAPÍTULO 50
Ele me disse: "Vós, servos de Deus, sabeis que habitais
em terra estrangeira. De fato, vossa cidade acha-se longe desta
cidade. Portanto, se conheceis vossa cidade, aquela que deveis habitar,
por que correis assim atrás de campos, instalações
luxuosas, palácios e mansões inúteis? Quem
procura tais coisas nesta cidade não espera retornar à
sua própria cidade. Insensato, vacilante, homem infeliz!
Ignoras que tudo isso é estrangeiro e está em poder
de outro? De fato, o dono desta cidade dirá: 'Não
quero que habites na minha cidade. Vai embora daqui, porque não
obedeces às minhas leis'. Então, tu, que possuis campos,
casas e muitos bens, ao ser expulso por ele, o que farás
com teu campo, tua casa e tudo o que te resta do que acumulaste?
Porque o dono desta cidade te diz justamente: 'Ou obedeces às
minhas leis, ou sais do meu país'. Portanto, o que farás,
tu que segues a lei da tua cidade? Por causa de teus campos e do
resto de teus bens, renegarás tua lei e andarás de
acordo com a lei dessa cidade? Atenção! É perigoso
renegar tua lei, porque, se queres retornar à tua cidade,
temo que não te acolham mais, por teres renegado a lei de
tua cidade, e assim sejas excluído dela. Vigia, portanto.
Visto que moras em terra estrangeira, não reserves para ti
senão o estritamente necessário, e estejas pronto.
Desse modo, quando o dono dessa cidade quiser te expulsar, porque
te opões às suas leis, sairás da sua cidade,
chegarás à tua, e aí viverás conforme
tua lei, sem prejuízo e com alegria. Atenção,
vós que servis ao Senhor e o tendes no coração.
Praticai as obras de Deus, lembrando-vos de seus mandamentos e das
promessas que ele vos fez. Crede que ele as manterá, se seus
mandamentos forem observados. Em lugar de campos, resgatai os oprimidos,
conforme cada um puder; visitai as viúvas e os órfãos,
e não os desprezeis. Gastai vossas riquezas e todos os vossos
bens, que recebestes de Deus, nesses campos e casas. De fato, o
Senhor vos enriqueceu, para que presteis a ele tais serviços.
E melhor adquirir esses campos, bens e casas, que reencontrarás
em tua cidade, quando aí retornares. Esse investimento é
nobre e alegre, não produz tristeza, nem medo, mas alegria.
Não procureis o investimento dos pagãos, perigoso
para os servos de Deus. Fazei vossos próprios investimentos,
com os quais podeis alegrar-vos. Não cometais fraude, não
toqueis nos bens de outros, nem os desejeis, porque é mau
desejar os bens alheios. Realiza tua tarefa, e serás salvo."
SEGUNDA PARÁBOLA
CAPÍTULO 51
Caminhava eu para o meu campo e, observando um olmeiro e uma videira,
refletia sobre essas árvores e seus frutos. Então
o Pastor me apareceu e disse: "O que pensas sobre o olmeiro
e a videira?" Eu respondi: "Senhor, penso que eles se
completam perfeitamente." Ele disse: "Essas duas árvores
existem para servir de modelo aos servos de Deus." Eu pedi:
"Desejaria saber o modelo que podem oferecer essas árvores
das quais falas." Ele perguntou: "Vês o olmeiro
e a videira?" Respondi: "Sim, senhor." Ele continuou:
"A videira produz frutos, mas o olmeiro é estéril.
Entretanto, se essa videira não se prende ao olmeiro, fica
estendida no chão e não produzirá frutos. Os
frutos que produzir apodrecerão, se ela não estiver
suspensa no olmeiro. Vês, portanto, que o olmeiro também
dá muitos frutos, não menos que a videira, e até
mais." Eu perguntei: "Por que mais, Senhor?" Ele
respondeu: "Porque a videira suspensa no olmeiro dá
muitos frutos belos, ao passo que estendida no chão só
produz frutos podres e poucos. Essa parábola vale para os
servos de Deus, o pobre e o rico." Eu perguntei: "Senhor,
como assim? Explica-me." Ele respondeu: "Escuta. O rico
tem muitos bens, mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque
se distrai com suas riquezas. A oração e a confissão
ao Senhor não lhe são importantes e, se ele as faz,
são breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico
se volta para o pobre e atende às suas necessidades, crendo
que o bem que ele fez ao pobre poderá encontrar sua retribuição
junto a Deus (porque o pobre é rico por sua oração
e confissão, e sua oração tem grande poder
junto de Deus), então o rico atende sem hesitação
às necessidades do pobre. Assim, o pobre, socorrido pelo
rico, reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por
sua vez, redobra o zelo para com o pobre, para que não lhe
falte nada na vida, pois sabe que a oração do pobre
é bem acolhida e rica junto a Deus. Desse modo, ambos cumprem
sua tarefa: o pobre o faz mediante sua oração, que
é sua riqueza recebida do Senhor. Ele a devolve ao Senhor
na intenção daquele que o ajuda. E o rico, sem hesitação,
dá ao pobre a riqueza que recebeu do Senhor. Essa é
uma ação nobre e bem acolhida por Deus, porque o rico
compreendeu perfeitamente o sentido da sua riqueza e partilhou com
o pobre os dons do Senhor, cumprindo assim, convenientemente, a
sua tarefa. Para os homens, o olmeiro parece não produzir
fruto. Eles não ignoram e não compreendem que, se
vier seca, o olmeiro, que conserva água, nutre a videira,
e esta, continuamente provida de água, produz o duplo de
frutos, para ela mesma e para o olmeiro. Da mesma forma, os pobres,
rezando ao Senhor para os ricos, asseguram pleno desenvolvimento
às riquezas deles. Por sua vez, os ricos, atendendo às
necessidades dos pobres, dão satisfação à
sua alma. Portanto, ambos participam da ação justa.
Quem age assim não será abandonado por Deus, mas será
inscrito no livro dos viventes. Felizes os que possuem e compreendem
que o Senhor preserva suas riquezas, pois aquele que o compreende
poderá também prestar bons serviços."
TERCEIRA PARÁBOLA
CAPÍTULO 52
Ele me mostrou muitas árvores sem folhas, que me pareciam
mortas, e eram todas semelhantes. E me perguntou: "Vês
essas árvores?" Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo:
são semelhantes e mortas." Ele continuou: "Essas
árvores que vês são os habitantes deste mundo."
Eu perguntei: "Senhor, então por que são semelhantes
e mortas?" Ele respondeu: "Porque os justos e os pecadores
não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes.
De fato, para os justos este mundo é inverno, e eles não
se distinguem, pois nele habitam juntamente com os pecadores. No
inverno, despojadas de suas folhas, as árvores são
semelhantes, e não se distingue quais estão mortas
e quais vivas. Da mesma forma, os justos e os pecadores não
se distinguem neste mundo; são todos semelhantes."
QUARTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 53
De novo, ele me mostrou muitas árvores, umas verdes e outras
secas. E me disse: "Vês essas árvores?" Respondi:
"Sim, senhor, eu as vejo: umas estão verdes e outras
secas." Ele continuou: "As árvores verdes são
os justos, que habitarão no mundo que está para chegar.
De fato, o mundo que está para chegar será verão
para os justos e inverno para os pecadores. Portanto, quando brilhar
a misericórdia do Senhor os servos de Deus poderão
ser distinguidos e serão visíveis para todos. No verão,
os frutos de cada árvore aparecem e se pode saber de que
espécie são. Do mesmo modo, naquele mundo os frutos
dos justos serão manifestos e se saberá que todos
eles são vigorosos. Entretanto, naquele mundo, os pagãos
e os pecadores, as árvores secas que viste, serão
encontrados secos e mortos, e serão queimados, como madeira
morta, patenteando-se assim que durante a vida deles sua conduta
foi má. De fato, os pecadores serão queimados, porque
pecaram e não fizeram penitência; os pagãos
serão queimados porque não conheceram o seu Criador.
Portanto, leva frutos em ti mesmo, para que, naquele verão,
teu fruto seja conhecido. Evita muitas ocupações e
não cometas nenhum pecado. Os que se carregam de muitas ocupações
cometem também muitos pecados. São absorvidos por
seus negócios e não servem mais em nada ao Senhor.
Como poderia o homem assim pedir algo ao Senhor e ser atendido,
se ele não serve ao Senhor? Os que o servem, receberão
o que pedem, mas os que não o servem, não receberão
absolutamente nada. Aquele que tem apenas uma ocupação,
pode também servir ao Senhor; o seu pensamento não
se corromperá longe do Senhor, mas o servirá, conservando
pensamento puro. Se assim fizeres, poderás levar frutos para
o mundo que está para chegar. Qualquer um que fizer isso,
levará frutos."
QUINTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 54
Eu jejuava, sentado sobre um monte, e agradecia a Deus tudo o que
ele fizera por mim. Então vi o Pastor sentado junto de mim,
dizendo: "Por que vieste aqui tão cedo?" (Eu respondi):
"Senhor, porque estou montando guarda." EIe perguntou:
"Que quer dizer guarda?" Eu respondi: "Senhor, estou
jejuando." Ele continuou: "E que jejum é esse que
estás fazendo?" Eu respondi: "Senhor, eu jejuo
por costume." Ele disse: "Não sabes jejuar para
o Senhor, e esse jejum que fazes é sem valor." Eu perguntei:
"Senhor, por que dizes isso?" Ele explicou: "Digo-te
que não é jejum esse que imaginas fazer. Eu te ensinarei,
porém, qual é o jejum agradável e perfeito
para o Senhor." Eu disse: "Sim, senhor. Tu me farás
feliz, se eu puder conhecer o jejum que agrada a Deus." Então
ele explicou: "Escuta. Deus não deseja esse jejum vazio.
Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás
nada para a justiça. Jejua do seguinte modo: Não faças
nada de mau em tua vida e serve ao Senhor de coração
puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus preceitos,
e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê
em Deus. Se fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má,
viverás em Deus. Se cumprires essas coisas, farás
um jejum grande e agradável ao Senhor."
CAPÍTULO 55
Escuta a parábola sobre o jejum. Um homem possuía
um campo e muitos escravos, e mandou plantar uma vinha numa parte
do campo. Ele escolheu um servo muito fiel e estimado, chamou-o
e lhe disse: "Toma conta desta vinha que plantei e, durante
minha ausência, coloca as estacas. Não faças
mais nada na vinha. Observa esta minha ordem e serás livre
na minha casa." Então o senhor do escravo saiu de viagem.
Depois que partiu, o escravo tomou conta e estaqueou. Tendo terminado
de estaquear, viu que a vinha estava cheia de mato. Então
refletiu e disse: "Já executei a ordem do senhor. Agora
capinarei a vinha, pois capinada ficará mais bela e, não
sendo sufocada pelo mato, produzirá mais fruto. Decidido,
capinou a vinha e arrancou todo o mato que havia nela. Sem o mato
que a sufocava, a vinha ficou mais bela e florescente. Depois de
certo tempo, o senhor do campo e do servo voltou. Foi até
à vinha e, vendo que estava muito bem estaqueada, capinada,
o mato extirpado e que as videiras floresciam, ficou muito satisfeito
com o trabalho do escravo. Chamou então seu filho amado,
que era o herdeiro, e seus amigos conselheiros. Disse-lhes o que
ordenara ao escravo e tudo o que ele vira executado. Eles se alegraram
com o escravo, por causa do testemunho que o patrão dera
dele. Então o patrão lhe disse: "Prometi a liberdade
a esse escravo, se ele executasse a ordem que lhe dera. Ele não
só executou a ordem, mas fez bom trabalho na vinha, e isso
me agradou muito. Portanto, como recompensa do trabalho que ele
realizou, quero que seja herdeiro junto com meu filho, porque teve
uma boa idéia e, ao invés de descartá-la, a
realizou." O filho do senhor aprovou a intenção
de designar o escravo como seu co-herdeiro. Alguns dias mais tarde,
o patrão dava um banquete e enviou muita comida do banquete
ao escravo. Este aceitou a comida que o senhor lhe enviara, reteve
o suficiente para si e distribuiu o resto a seus companheiros de
escravidão. Os companheiros o receberam, se alegraram e começaram
a rezar para que ele, que os tratara tão bem, recebesse ainda
mais favores do senhor. "O senhor soube de tudo o que acontecera
e de novo se alegrou muito com a conduta do escravo. Chamou novamente
os amigos e o filho e contou-lhes a respeito da atitude do servo
quanto à comida recebida. E eles concordaram mais ainda que
o servo se tornasse herdeiro juntamente com o filho do senhor."
CAPÍTULO 56
Eu lhe disse: "Senhor, não compreendo essas parábolas,
nem as poderei entender, se não me explicares." EIe
respondeu: "Vou te explicar tudo, e, te esclarecerei tudo que
eu falar. Guarda os mandamentos do Senhor, e lhe serás agradável
e contado entre os que observam seus mandamentos. Se fizeres algo
de bom, além do mandamento de Deus, conseguirás glória
maior e serás glorificado junto a Deus, mais do que deverias
ser. Portanto, se, observando os mandamentos de Deus, acrescentares
essas boas obras, te alegrarás, se as observares conforme
a minha ordem." Eu lhe disse: "Senhor, observarei tudo
o que me indicares, pois sei que estás comigo." Ele
me respondeu: "Estarei contigo, pois tens esse desejo de fazer
o bem, e estarei com todos os que têm o mesmo desejo. Se os
mandamentos do Senhor são observados, teu jejum é
muito bom. Eis como observarás o jejum que queres praticar:
Antes de tudo, guarda-te de toda palavra má, de todo desejo
mau, e purifica teu coração de todas as coisas vãs
deste mundo. Se observares isso, teu jejum será perfeito.
E jejuarás do seguinte modo: depois de cumprir o que foi
escrito, no dia em que jejuares, não tomarás nada,
a não ser pão e água. Calcularás o preço
dos alimentos que poderias comer nesse dia e o porás à
parte para dar a uma viúva, a um órfão ou necessitado
e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a essa
humildade, quem tiver recebido ficará saciado e rogará
ao Senhor por ti. Se jejuares como te ordenei, teu sacrifício
será aceito por Deus, teu jejum será anotado, e o
serviço, assim realizado, será bom, alegre e bem acolhido
pelo Senhor. Observarás isso com teus filhos e toda a tua
família. Desse modo, serás feliz, e todos os que ouvirem
esses preceitos e os observarem, serão felizes e receberão
do Senhor as coisas que pedirem."
CAPÍTULO 57
Eu lhe pedi insistentemente que me explicasse o sentido simbólico
do campo, do senhor, da vinha, do escravo que estaqueara a vinha,
do filho e dos amigos conselheiros, pois compreendera que tudo isso
era uma parábola. Ele me respondeu: "És muito
ousado em tuas perguntas! De modo algum deves perguntar, pois, se
alguma coisa se deve explicar a ti, será explicada."
Eu lhe disse: "Senhor, tudo o que me mostrares sem explicar,
será inútil que eu veja, pois não compreenderei
o que significa. Da mesma forma, se me contas parábolas sem
explicá-las, terei ouvido em vão alguma coisa de ti."
De novo, ele me respondeu, dizendo: "Todo servo de Deus que
tem o Senhor em seu coração, pode lhe pedir a compreensão
e obtê-la. Ele poderá, então, explicar qualquer
parábola e, graças ao Senhor, tudo o que for dito
em parábolas será compreensível para ele. Os
indolentes e preguiçosos para a oração, porém,
vacilam em pedir ao Senhor. O Senhor é misericordioso e atende
todos os que lhe pedem sem hesitação. Tu, porém,
que foste fortificado pelo anjo glorioso e dele recebeste essa oração,
e não és preguiçoso, por que não pedes
a compreensão? Tu a receberás." Eu repliquei:
"Senhor, tendo a ti comigo, tenho necessidade de te pedir e
perguntar. Com efeito, tu me mostras tudo e falas comigo. Se eu
visse ou ouvisse essas coisas sem ti, pediria ao Senhor que as explicasse
a mim".
CAPÍTULO 58
Ele continuou: "Já te disse, e não faz muito,
que és esperto e ousado para pedir explicação
das parábolas. Como és tão perseverante, vou
te explicar o sentido simbólico do campo e de tudo o mais
que o acompanha, para que possas explicá-lo a todos. Escuta,
portanto, e compreende. O campo é este mundo, e o dono do
campo é aquele que criou todas as coisas, que as organizou
e lhes deu força. O filho é o Espírito Santo,
e o escravo é o Filho de Deus. As videiras são o povo,
que ele mesmo plantou. As estacas são os santos anjos do
Senhor, que protegem o seu povo. O mato arrancado da vinha são
as iniqüidades dos servos de Deus. A comida do banquete que
ele enviou ao escravo são os mandamentos que ele deu por
meio de seu filho. Os amigos e conselheiros, são os primeiros
santos anjos criados. A viagem do senhor é o tempo que resta
para a sua parusia." Eu lhe perguntei: "Senhor, tudo isso
é grande, admirável e glorioso. Como poderei, Senhor,
compreender essas coisas por mim mesmo? Nenhum outro homem, ainda
que fosse muito inteligente, poderia compreendê-las. Explica-me
ainda, Senhor, o que vou perguntar." Ele disse: "Se desejas
alguma explicação, podes pedi-la." Eu perguntei:
"Senhor, por que o Filho de Deus aparece na parábola
sob forma de escravo?"
CAPÍTULO 59
Ele respondeu: "Escuta. O Filho de Deus não aparece
sob a forma de escravo, mas com grande poder e soberania."
Eu disse: "Como, senhor? Não compreendo." Ele continuou:
"Porque Deus plantou a vinha, isto é, criou o seu povo
e o entregou a seu Filho, e o Filho estabeleceu os anjos sobre eles
para guardá-los individualmente. Ele próprio purificou
os pecados deles, trabalhando muito e suportando muitas fadigas,
pois ninguém pode capinar uma vinha sem trabalho e fadiga.
Ele, portanto, tendo purificado os pecados do povo, ensinou os caminhos
da vida, dando-lhes a lei, que recebera de seu Pai. Observa que
ele é o senhor do povo, porque recebeu todo o poder do seu
Pai. Escuta por que o Senhor nomeou seu Filho conselheiro e os anjos
gloriosos para decidir a herança que deveria ser dada ao
escravo. Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o Espírito
Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne, em que
o Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito,
andando no caminho da santidade e pureza, sem macular em nada o
Espírito. Ela se portou digna e santamente, participou dos
trabalhos do Espírito e colaborou com ele em todas as coisas.
Comportou-se com firmeza e coragem e, por isso, Deus a escolheu
como companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta
dessa carne agradou a Deus, pois ela não se maculou na terra,
enquanto possuía o Espírito Santo. Ele tomou então
o Filho e os anjos gloriosos por conselheiros, para que essa carne,
que tinha servido ao Espírito irrepreensivelmente, obtivesse
um lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa
pelo seu serviço. Toda carne em que o Espírito Santo
habitou e que for encontrada pura e sem mancha, receberá
sua recompensa. Aí tens a explicação dessa
parábola."
CAPÍTULO 60
Eu disse: "Senhor, fiquei contente em ouvir a explicação."
Ele disse: "Escuta agora. Guarda tua carne pura e sem mancha;
para que o espírito, que nela habita, dê testemunho
em favor dela e assim seja justificada. Cuida para que nunca entre
em teu coração a idéia de que tua carne é
perecível. E cuidado para não abusar dela com alguma
impureza. Se manchas tua carne, mancharás também o
Espírito Santo. Portanto, se manchas tua carne, não
viverás." Eu perguntei: "Senhor, se tiver havido
alguma ignorância antes que essas palavras tivessem sido ouvidas,
como se pode salvar o homem que manchou a sua carne?" Ele respondeu:
"Quanto às ignorâncias anteriores, somente Deus
pode conceder a cura, pois ele tem todo o poder. Agora, porém,
estejas atento, e o Senhor, em sua grande misericórdia, as
curará, se doravante não manchares nem tua carne,
nem teu espírito, pois os dois vão juntos e não
podem manchar-se um sem o outro. Portanto, conserva os dois puros,
e viverás em Deus."
SEXTA PARÁBOLA
CAPÍTULO 61
Sentado em casa, eu glorificava ao Senhor por tudo que tinha visto,
e meditava sobre os mandamentos, descobrindo que eles são
bons, fortes, alegres, gloriosos e capazes de salvar a alma do homem.
E dizia a mim mesmo: "Serei feliz, se caminhar conforme esses
mandamentos, e qualquer um que andar nesse caminho também
será feliz." Enquanto dizia isso a mim mesmo, de repente
vi o pastor ao meu lado dizendo: "Por que duvidas a respeito
dos mandamentos que te dei? Eles são bons. Não duvides
em nada. Ao contrário, reveste-te da fé do Senhor
e andarás em seus caminhos, porque eu te fortificarei neles.
Esses mandamentos são úteis para os que farão
penitência, porque, se não andarem nesse caminho, sua
penitência será inútil. Vês, portanto,
que fazeis penitência, rejeitai os males deste mundo, que
vos aniquilam. Revestidos de toda a virtude de justiça, podereis
observar os meus preceitos, mas não acrescenteis pecados
aos vossos pecados. Se não acrescentardes mais pecados, cancelarei
os vossos pecados passados. Caminhai, portanto, conforme os meus
mandamentos, e vivereis em Deus. Todas essas coisas vos foram ditas
por mim." Depois de me dizer isso, ele acrescentou: "Vamos
ao campo, e te mostrarei os pastores das ovelhas." Eu disse:
"Vamos, Senhor." Fomos para uma planície, e ele
me mostrou um jovem pastor, vestido com roupa amarela. Apascentava
numerosas ovelhas, as quais viviam de modo voluptuoso e dissoluto,
saltando alegremente de cá para lá. O pastor também
estava muito satisfeito com seu rebanho; sua fisionomia era alegre,
e ele andava de um lado para o outro, no meio das ovelhas. Vi também
outras ovelhas juntas, dissolutas e voluptuosas; mas estas não
saltavam.
CAPÍTULO 62
Então ele me perguntou: "Vês esse pastor?"
Eu respondi: "Vejo, senhor." Ele continuou: "E o
anjo da volúpia e do erro. Ele aniquila as almas dos servos
de Deus que são vazios, desviando-os da verdade e enganando-os
com maus desejos, nos quais eles morrem. De fato, eles esquecem
os mandamentos do Deus vivo e caminham nos enganos e volúpias
vãs, e são destruídos por esse anjo: alguns
morrem, outros se corrompem." Eu lhe disse: "Senhor, não
sei o que é essa morte e essa corrupção."
Ele respondeu: "Escuta. Todas as ovelhas que viste muito alegres
e saltitantes são os que se separaram definitivamente de
Deus e se entregaram às paixões deste mundo. Para
eles não há mais penitência para a vida, porque,
além de tudo, blasfemaram contra o nome do Senhor. Para eles,
portanto, resta apenas a morte. Aquelas que viste, pastando no mesmo
lugar sem saltitar, são os que se entregaram às volúpias
e aos enganos, mas sem blasfemar contra o Senhor. Corromperam-se
longe da verdade. Para eles, portanto, existe esperança de
penitência, a fim de que possam viver. A corrupção
conserva ainda alguma esperança de restauração,
ao passo que a morte implica em perdição eterna."
Avançamos um pouco, e ele me mostrou um pastor de porte alto
e de aspecto selvagem, vestido com pele branca de cabra, com bornal
nas costas, e na mão um cajado rude e cheio de nós
e um grande chicote. Seu olhar era tão severo que me infundiu
medo. Assim era o seu olhar! Esse pastor recebia do pastor jovem
as ovelhas dissolutas e voluptuosas, mas que não saltitavam.
Ele as impelia para lugar escarpado, cheio de espinhos e cardos,
e as ovelhas não conseguiam livrar-se dos espinhos e dos
cardos, pois ficavam emaranhadas neles. Pastavam presas, entre os
espinhos e cardos, e sofriam muito, açoitadas pelo pastor,
o qual as fazia andar de cá para lá, sem lhes dar
descanso, e elas jamais se tranqüilizavam.
CAPÍTULO 63
Ao vê-Ias assim flageladas e atormentadas, fiquei triste por
elas, porque assim torturadas não tinham nenhum tipo de trégua.
Então perguntei ao pastor que conversava comigo: "Senhor,
quem é esse pastor tão cruel e severo, que não
tem nenhuma piedade dessas ovelhas?" Ele respondeu: "Esse
é o anjo do castigo. Ele é justo, mas foi encarregado
do castigo. Ele recebe aqueles que vagueiam longe de Deus e que
seguiram o caminho dos desejos e enganos deste mundo. Ele os pune
conforme cada um merece, com castigos terríveis e variados."
Eu pedi: "Senhor, eu desejaria saber quais são esses
diversos castigos." Ele continuou: "Escuta quais são
as diversas provações e castigos. As provações
são as da vida. Alguns são castigados com prejuízos,
outros pela indigência outros por doenças diversas,
outros por alguma insegurança e outros ainda são injuriados
por pessoas indignas e têm que sofrer muitas outras calamidades.
De fato, incertos em suas intenções, muitos se lançam
a muitas coisas, mas em nada conseguem sucesso. Dizem que não
são felizes em seus negócios e não lhes entra
no coração que cometeram ações más;
ao contrário, acusam o Senhor. Quando são atribulados
por essas provações, são entregues a mim para
uma boa reeducação. Eles se reforçam na fé
do Senhor e o servem, de coração puro, pelo resto
de seus dias. Quando fazem penitência, as obras más
que praticaram lhes entram no coração e então
eles glorificam a Deus, porque é juiz justo e porque cada
um sofreu justamente por suas próprias ações.
Doravante, eles servem ao Senhor de coração puro e
têm sucesso em tudo o que fazem, pois recebem do Senhor tudo
o que pedem. Então eles glorificam ao Senhor, por terem sido
entregues a mim, e já não sofrem mal nenhum".
CAPÍTULO 64
Eu lhe disse: "Senhor, explica-me ainda esse ponto." Ele
perguntou: "O que procuras ainda?" Eu continuei: "Senhor,
os voluptuosos e transviados são atormentados por tanto tempo
quanto aquele em que foram voluptuosos e transviados?" Ele
respondeu: "São atormentados durante tempo igual."
Observei: "Senhor, são atormentados por pouquíssimo
tempo. Com efeito, seria preciso que as pessoas que vivem assim
na volúpia e se esquecem de Deus, fossem torturadas por tempo
sete vezes maior." Ele me disse: "Insensato! Não
conheces a força do tormento." Eu respondi: "Senhor,
se eu conhecesse, não pediria explicação."
Ele continuou: "Escuta qual é a força de uma
e outra coisa. O tempo da volúpia e do engano é de
uma hora; mas uma hora de tormento tem a força de trinta
dias. Passando um dia na volúpia e no engano, e um dia nos
tormentos, esse dia de tormento vale por um ano inteiro. A pessoa
é atormentada por tantos anos quantos dias passou na volúpia.
Vês, portanto, que o tempo da volúpia e do engano é
mínimo, mas o do castigo e do tormento é longo."
CAPÍTULO 65
Eu disse: "Senhor, não compreendi inteiramente os tempos
do engano, da volúpia e do tormento. Explica-me com mais
clareza." Ele respondeu: "Tua insensatez é insistente
e não queres purificar teu coração e servir
a Deus. Cuidado para que o tempo não se cumpra e sejas encontrado
insensato. Ouve, portanto, para compreender o que desejas. Aquele
que vive um dia na volúpia e no engano, fazendo o que quer,
reveste-se de muita insensatez e não percebe a ação
que faz. No dia seguinte, esquece o que fez no dia anterior. A volúpia
e o engano não têm memória, por causa da insensatez
de que se revestem. Quando, porém, o castigo e o tormento
se ligam ao homem por um dia, é durante um ano todo que ele
é castigado e atormentado, pois o castigo e o tormento têm
grande memória. Atormentado e castigado durante um ano inteiro,
ele se lembra então da volúpia e do engano, e reconhece
que é por causa deles que sofre esses males. Todo homem que
vive na volúpia e no engano é assim atormentado, porque,
possuindo a vida, ele se entregara à morte." Eu perguntei:
"Senhor, quais são as volúpias perniciosas?"
Ele respondeu: "Tudo o que o homem faz com prazer, é
volúpia. Assim o colérico, fazendo aquilo que é
conforme a sua paixão, é voluptuoso. O mesmo acontece
com o adúltero, o bêbado, o maledicente, o mentiroso,
realizando aquilo que é conforme à sua própria
doença, se entrega por esse ato à volúpia.
Todas essas volúpias são más para os servos
de Deus. Portanto, é por causa desses enganos que sofrem
aqueles que são castigados e atormentados. Contudo, há
também volúpias que salvam os homens, pois muitos
experimentam volúpia em fazer o bem: são impulsionados
pelo próprio prazer. Essa é volúpia proveitosa
para os servos de Deus e traz vida para o homem. As volúpias
perniciosas, de que falamos antes, só lhe trazem tormentos
e castigos. Caso se obstinem e não se arrependam, acarretam
a morte para si mesmos."
SÉTIMA PARÁBOLA
CAPÍTULO 66
Poucos dias depois, vi o pastor na mesma planície onde tinha
visto também os pastores, e ele me perguntou: "O que
procuras ainda?" Respondi: "Senhor, estou aqui a fim de
te pedir que mandes o pastor justiceiro sair da minha casa, pois
ele me atribula muito." Ele disse: "É preciso que
sejas atribulado. Com efeito, foi assim que o anjo glorioso ordenou
a respeito de ti. Ele quer que sejas provado." Perguntei: "Senhor,
o que fiz de tão mau, para ser entregue a esse anjo?"
Ele respondeu: "Escuta. Teus pecados são numerosos,
mas não tanto para que sejas entregue a esse anjo. Todavia,
tua família cometeu grandes pecados e iniqüidades, e
o anjo glorioso ficou irritado com as obras deles e, por isso, ordenou
que sejas atribulado por algum tempo. Dessa forma, eles farão
penitência e se purificarão de todo desejo deste mundo.
Quando se tiverem arrependido e purificado, o anjo do castigo se
afastará." Perguntei-lhe: "Senhor, se foram eles
que fizeram essas coisas para irritar o anjo glorioso, que fiz eu?
Ele respondeu: "E que não há outro modo para
que eles sejam atribulados, se tu, chefe da família, não
sofreres tribulação. Porque sendo tu atribulado, eles
forçosamente o serão também, mas, se tiveres
prosperidade, nenhuma tribulação poderá atingi-los."
Eu repliquei: "Senhor, eles já fizeram penitência
de todo o coração." Ele respondeu: "Eu sei
muito bem que eles fizeram penitência do fundo do coração.
Você pensa que os pecados daqueles que fazem penitência
são imediatamente remidos? De modo algum. E preciso que aquele
que fez penitência prove sua própria alma, se humilhe
profundamente em tudo o que faz e passe por muitas e variadas tribulações.
Se ele suportar as tribulações que lhe sobrevierem,
aquele que tudo criou e fortaleceu terá compaixão
dele e lhe concederá a cura. Isso acontecerá seguramente,
se ele vir puro de toda coisa má o coração
do penitente. E, portanto, proveitoso a ti e à tua família
passar agora por tribulações. Mas, por que estou falando
tanto? Tens que passar por tribulações, conforme ordenou
esse anjo do Senhor que te confiou a mim. Agradece ao Senhor por
julgar-te digno de te mostrar previamente a tribulação.
Dessa forma, conhecendo-a de antemão, tu a suportarás
valorosamente." Eu lhe pedi: "Senhor, fica comigo, e eu
poderei suportar qualquer tribulação." Ele respondeu:
"Eu estarei contigo, e pedirei ao anjo justiceiro para te atribular
mais suavemente. Todavia, serás atribulado por pouco tempo,
e depois serás restabelecido em teu lugar. Continua, porém,
a te humilhar e a servir ao Senhor de coração puro
- tu, teus filhos e tua família - e anda conforme os meus
mandamentos que te dei. Desse modo, tua penitência poderá
ser firme e pura. Se observares isso com tua família, toda
tribulação se afastará de ti. E a tribulação
também se afastará de todos os que andarem conforme
os meus mandamentos."
OITAVA PARÁBOLA
CAPÍTULO 67
Ele me mostrou um grande salgueiro, que cobria planícies
e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se recolhido todos
os que são chamados pelo nome do Senhor. Debaixo do salgueiro,
estava de pé o anjo glorioso do Senhor, com enorme estatura.
Tinha uma grande foice, e cortava ramos do salgueiro e as dava à
multidão abrigada debaixo do salgueiro. Os ramos que entregava
eram pequenos, com cerca de meio metro. Depois de todos terem recebido
seu ramo, o anjo deixou a foice, e a árvore estava inteira,
da mesma forma como eu a vira. Eu me admirava e dizia a mim mesmo:
"Como é possível que, depois de tantos ramos
cortados, a árvore esteja inteira?" O pastor me disse:
"Não te admires que essa árvore permaneça
inteira, depois que tantos ramos foram cortados. Espera e, depois
de ver tudo, te será explicado o que significa isso."
O anjo que entregara os ramos à multidão, pediu-os
de novo. Pedia-os na ordem segundo a qual eles os haviam recebido,
e cada um entregava seu ramo. O anjo do Senhor os tomava e os examinava.
De alguns, ele recebia ramos secos e roídos como por vermes,
e aos que entregavam tais ramos o anjo dizia que formassem um grupo
à parte. Outros entregavam ramos secos, mas não roídos
por vermes. Também a estes o anjo dizia que formassem um
grupo separado. Outros os entregavam meio secos, e também
estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos meio
secos e fendidos, e também estes formavam um grupo separado.
Outros entregavam seus ramos verdes e fendidos, e também
estes formavam um grupo separado. Outros entregavam ramos com metade
seca e metade verde, e também esses formavam um grupo separado.
Outros devolviam seus ramos, dois terços verdes e secos no
resto, e também estes formavam um grupo separado. Outros
entregavam seus ramos, dois terços secos, e verdes no resto,
e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam
seus ramos quase completamente verdes; apenas uma pequena parte
dos seus ramos estava seca, bem na ponta, mas estavam fendidos.
E também estes formavam um grupo separado. Os ramos de alguns
outros tinham apenas uma pequena ponta verde e o resto estava seco,
e também estes formavam um grupo separado. Outros vinham
com os ramos verdes, como os tinham recebido do anjo. A maior parte
da multidão entregava ramos assim, e o anjo alegrava-se muito
com isso. E também estes formavam um grupo separado. Outros
entregavam seus ramos verdes com brotos novos, e também estes
formavam um grupo separado, e o anjo ficava muito alegre com eles.
Outros entregavam seus ramos verdes e com brotos, os quais traziam
uma espécie de fruto. Os homens, cujos ramos foram encontrados
assim, estavam muito alegres. Também o anjo se alegrava com
eles, e igualmente o pastor estava muito alegre com eles.
CAPÍTULO 68
O anjo do Senhor ordenou que trouxessem coroas, e foram trazidas
coroas que pareciam feitas de palmas. Então coroou os homens
que haviam entregue os ramos que tinham brotos e uma espécie
de fruto, e enviou-os para a torre. Também enviou para a
torre aqueles que haviam entregue os ramos com brotos, mas sem fruto,
dando-lhes um selo. Todos os que iam para a torre vestiam roupas
brancas como a neve. Enviou também aqueles que tinham entregue
os ramos verdes como os haviam recebido, dando-lhes roupas brancas
e o selo. Ao terminar isso, o anjo disse ao pastor: "Eu também
vou. Conduze tu para dentro das muralhas os que são dignos
de habitar aí. Examina com cuidado seus ramos, e depois os
conduze. Examina cuidadosamente. Atenção para que
ninguém te escape, pois, se alguém escapar, eu mesmo
julgarei junto ao altar." Dito isso ao pastor, foi embora.
Depois que o anjo saiu, o pastor me disse: "Tomemos os ramos
de todos e os plantemos, para ver se alguns dentre eles viverão."
Eu lhe perguntei: "Senhor, como esses ramos secos viverão?"
Ele me respondeu: "Esta árvore é salgueiro, e
é cheia de vida por natureza. Plantando esses ramos, muitos
deles viverão, se receberem um pouco de umidade. Por isso,
procurarei água para regá-los. Se algum deles viver,
eu me alegrarei com ele; se não viver, não terei sido
negligente." O pastor me ordenou que os chamasse conforme estavam
agrupados. Eles vieram, grupo por grupo, e entregaram seus ramos
ao pastor. O pastor os tomou e, por grupo, os replantou; depois
de plantados, jogou tanta água neles, de modo que os ramos
não apareciam sobre a água. Depois de regar os ramos,
disse-me: "Vamos embora. Dentro de poucos dias, voltaremos
para examinar todos esses ramos, pois aquele que criou esta árvore
deseja que vivam todos aqueles que receberam um ramo dela. Quanto
a mim, espero que, encontrando umidade e regados com água,
a maioria desses ramos viverá."
CAPÍTULO 69
Eu lhe disse: "Senhor, faze-me compreender o que é essa
árvore, pois não entendo como ela, aparada de tantos
ramos, continua inteira, sem parecer em nada que foi aparada. É
isso que eu não entendo." Ele me respondeu: "Escuta.
Essa grande árvore que cobre planícies, montanhas
e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo inteiro, e
essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins
da terra. Os povos que se encontram debaixo da árvore são
aqueles que ouviram o anúncio e creram. O anjo grande e glorioso
é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o governa. É
ele que dá a lei e grava no coração daqueles
que crêem. Ele examina, portanto, se aqueles a quem deu a
lei, a observaram bem. Vês muitos ramos inúteis. Reconhecerás
entre eles os que não observaram a lei, e verás a
morada de cada um." Perguntei-lhe: "Senhor, por que o
anjo enviou alguns para a torre e deixou para ti os outros?"
Ele respondeu: "Todos aqueles que transgrediram a lei que receberam
dele foram deixados em meu poder para fazerem penitência.
Todos os outros que se alegraram na lei e a observaram, ele os tem
em seu próprio poder." Perguntei: "Senhor, quem
são aqueles que foram coroados e se dirigiram para a torre?"
Ele me respondeu: "Esses coroados são os que lutaram
contra o diabo e o venceram; eles sofreram pela lei. Os outros que
entregaram seus ramos verdes com brotos novos, mas sem fruto, foram
atribulados por causa da lei, sem entretanto serem torturados por
ela, mas não a renegaram. Os que entregaram os ramos verdes
como os haviam recebido, são santos e justos. Caminharam
muito de coração puro, observando os mandamentos do
Senhor. Conhecerás o resto, quando eu examinar os ramos plantados
e regados."
CAPÍTULO 70
Alguns dias depois, voltamos a esse lugar e o pastor sentou-se no
lugar do anjo grande, e eu fiquei ao seu lado. Então ele
me disse: "Cinge-te com uma toalha e serve-me.” Eu me
cingi com uma toalha limpa, feita de saco. Vendo-me cingido e pronto
para servi-lo, ele me disse: "Chama os homens cujos ramos foram
plantados, na mesma ordem em que cada um o devolveu." Fui até
à planície, chamei a todos, e todos os grupos se apresentaram.
O pastor lhes disse: "Cada um arranque seu próprio ramo
e o traga a mim." Os primeiros a devolvê-los foram aqueles
cujos ramos estavam secos e corroídos. Como estavam secos
e corroídos, ele mandou que fossem colocados à parte.
Em seguida, os devolveram os que tinham os ramos secos, mas não
corroídos. Alguns deles os devolveram verdes, e outros, secos
e corroídos como por vermes. Aos que os devolveram verdes,
o pastor mandou formar um grupo separado; aos que os devolveram
secos e corroídos, ele mandou que os colocassem com os primeiros.
Depois, os devolveram os que os tinham recebido metade secos e fendidos,
e muitos deles os devolveram verdes e sem fendas; alguns, verdes
com brotos novos e frutos nesses brotos, como os tinham aqueles
que foram coroados para a torre. Alguns os devolveram secos e carcomidos;
outros, secos mas não carcomidos; outros ainda, tais como
estavam antes: meio secos e fendidos. E o pastor mandou que eles
se separassem, cada um em seu grupo respectivo, e os outros restantes,
à parte.
CAPÍTULO 71
Em seguida, os devolveram os que tinham recebido os ramos verdes,
mas fendidos. Todos esses os devolveram verdes e tomaram lugar em
seu próprio grupo. O pastor alegrou-se com estes, pois todos
se tinham transformado e livrado de suas fendas. Também os
devolveram aqueles que os haviam recebido metade verdes e metade
secos. Os ramos de alguns foram encontrados inteiramente verdes;
de outros, metade verdes; de outros, secos e carcomidos; e de outros
ainda, verdes com brotos novos. Todos esses foram mandados para
seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que os
tinham recebido com dois terços verdes e um terço
seco. Muitos deles os devolveram verdes; muitos outros, metade secos;
e outros, secos e carcomidos. Todos esses foram mandados cada um
para seu próprio grupo. Em seguida, os devolveram aqueles
que tinham recebido ramos secos em dois terços e verdes no
resto. Muitos deles os devolveram metade secos; alguns, secos e
carcomidos; e alguns ainda, metade secos e fendidos. Muito poucos
os devolveram verdes. E todos esses tomaram lugar em seus respectivos
grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que tinham recebido ramos
verdes, mas com mínima parte seca e fendida. Desses, alguns
os devolveram verdes; e alguns, verdes com brotos novos. Também
esses se foram para seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram
aqueles que tinham recebido com mínima parte verde e todo
o resto seco. Os ramos destes, em sua maior parte, foram encontrados
verdes, com brotos novos e com frutos neles; e outros, inteiramente
verdes. O pastor se alegrou muito com esses ramos, por tê-los
encontrado assim. E também esses se foram, cada um para seu
próprio grupo.
CAPÍTULO 72
Depois de examinar os ramos de todos, o pastor me falou: "Eu
lhe disse que esta árvore é cheia de vida. Vês
quantos fizeram penitência e foram salvos?" Eu respondi:
"Vejo, senhor." Ele continuou: "Isso é para
que saibas que a misericórdia de Deus é grande e gloriosa,
e como ele deu um espírito àqueles que eram dignos
de fazer Penitência." Perguntei: "Senhor, então,
por que nem todos fizeram penitência?" Ele respondeu:
"O Senhor concedeu a penitência àqueles cujo coração
ele viu que estava pronto para se purificar e que haviam de servi-lo
de todo o coração. Contudo, àqueles nos quais
viu a perfídia e a maldade e que iriam arrepender-se apenas
hipocritamente, ele não concedeu a penitência, para
que não blasfemassem novamente sua lei." Eu lhe pedi:
"Senhor, explica-me quem é cada um daqueles que te devolveram
os ramos, e a morada que lhes cabe. Desse modo, após terem
ouvido, aqueles que acreditaram e receberam o selo, mas que o quebraram
e não o preservaram inteiro, reconhecerão suas obras,
farão penitência e receberão de ti um selo.
Assim glorificarão o Senhor, por ter usado piedade com eles
e te haver enviado para renovar seus espíritos." Ele
explicou: "Escuta. Aqueles cujos ramos foram encontrados secos
e carcomidos por vermes, são os apóstatas e traidores
da Igreja que, com seus pecados, blasfemaram o Senhor e que ainda
se envergonharam do nome do Senhor invocado sobre eles. Tais indivíduos
estão definitivamente mortos para Deus. Vês que nenhum
deles fez penitência, embora tenham ouvido as palavras que
lhes transmitiste, sob minha ordem. A vida, portanto, foi tirada
desses homens. Aqueles que devolveram os ramos secos, mas não
apodrecidos, estão próximos dos anteriores: eram hipócritas
que introduziam ensinamentos errados, que desviavam os servos de
Deus e sobretudo os pecadores, não lhes permitindo fazer
penitência, mas persuadindo-os com ensinamentos loucos. Todavia,
esses têm esperança de fazer penitência. Vês
que muitos dentre eles já fizeram penitência, desde
quando lhes falaste sobre os meus preceitos. Outros ainda farão
penitência, e todos aqueles que não fizerem penitência,
já perderam a vida. Aqueles que fizeram penitência
tornando-se bons, têm sua morada nas primeiras muralhas; alguns
subiram à torre. Vês, portanto, que a penitência
dos pecadores traz vida, e a impenitência, traz morte."
CAPÍTULO 73
Escuta também sobre aqueles que devolveram os ramos metade
secos e fendidos. Aqueles cujos ramos estavam somente secos pela
metade, são os que duvidam; não estão nem vivos
nem mortos. Os que os tinham secos pela metade e fendidos, são
os que duvidam e murmuram, e que nunca estão em paz entre
si, mas sempre em discórdia. Também esses ainda têm
possibilidade de fazer penitência. Vês que alguns deles
já fizeram penitência e ainda há esperança
de penitência para eles. Todos os que dentre eles fizeram
penitência, têm sua morada na torre. Aqueles, porém,
que se arrependerem demasiadamente tarde, habitarão nos muros;
aqueles que não fizerem penitência, persistindo em
suas ações, certamente morrerão. Aqueles que
devolveram ramos verdes, mas fendidos, sempre foram fiéis
e bons, mas têm entre si inveja pelos primeiros lugares e
por alguma honraria. Todos eles são loucos em rivalizarem
entre si pelos primeiros lugares. Todavia, depois de terem ouvido
meus mandamentos, como eram bons, eles se purificaram e logo fizeram
penitência. A morada deles foi na torre. Contudo, se um deles
voltar novamente à discórdia, será expulso
da torre e perderá a própria vida. A vida pertence
a todos os que observam os mandamentos do Senhor. Ora, nesses mandamentos
nada se diz de primeiros lugares, nem de alguma honraria, mas fala-se
da paciência e humildade do homem. Nessas pessoas, portanto,
está a vida do Senhor; nos que provocam discórdia
e violam a lei, está a morte."
CAPÍTULO 74
"Aqueles que devolveram seus ramos metade verdes e metade secos,
são os que estavam imersos em seus negócios e não
se juntavam aos santos. Por isso, metade neles estava viva, e metade
estava morta. Todavia, depois de terem ouvido meus mandamentos,
fizeram penitência e foram morar na torre. Alguns outros se
afastaram definitivamente, e não têm possibilidade
de fazer penitência. Com efeito, por causa de seus negócios,
eles blasfemaram o Senhor e o renegaram. Portanto, perderam a vida,
por causa da maldade que praticaram. Muitos dentre eles são
vacilantes; esses ainda têm possibilidade de fazer penitência,
se logo se arrependerem, e sua morada será na torre. Se levarem
demasiado tempo para fazerem penitência, irão morar
nas muralhas; se não fizerem penitência, também
eles já terão perdido a vida. Aqueles que devolveram
os ramos dois terços verdes e no resto secos, são
aqueles que renegaram de diversas formas. Muitos deles fizeram penitência
e foram morar na torre. Outros se afastaram definitivamente de Deus;
esses perderam definitivamente a vida. Alguns deles duvidaram e
provocaram discórdia; estes ainda têm possibilidade
de fazer penitência, se a fizerem logo, sem persistir em seus
prazeres. Mas, se eles se obstinarem em suas ações,
estarão trabalhando para a própria morte."
CAPÍTULO 75
"Aqueles que devolveram ramos com dois terços secos
e no resto verdes, são os que foram fiéis, mas que
se enriqueceram e adquiriram honra entre os pagãos. Revestiram-se
de grande orgulho, tornaram-se arrogantes, abandonaram a verdade
e se separaram dos justos. Ao contrário, conviveram com os
pagãos, e esse caminho lhes pareceu mais agradável.
Eles não se afastaram de Deus, permaneceram na fé,
mas não praticaram as obras da fé. Muitos deles fizeram
penitência e tiveram sua morada na torre. Outros, convivendo
inteiramente com os pagãos e arrastados pelas suas glórias
vãs junto aos pagãos, afastaram-se de Deus e praticaram
as obras dos pagãos; esses foram contados como pagãos.
Outros entre eles ficaram na dúvida, porque não esperavam
mais ser salvos, por causa das ações que haviam praticado.
Outros ainda, não só duvidaram, mas fomentaram divisões
entre si. Para esses indivíduos e para aqueles que permaneceram
na dúvida por causa de suas ações, ainda há
possibilidade de penitência. Mas a sua penitência deve
ser rápida, para que a morada deles seja dentro da torre.
Para os que não fazem penitência, mas permanecem nos
seus prazeres, a morte está próxima."
Parte
I — Parte II
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As
prósforas são utilizadas na Liturgia Bizantina de
onde é retirado o Cordeiro ofertado na Eucaristia, elaborado
com levedura e preparado sempre por um(a) fiél ortodoxo(a)
segundo uma fórmula específica de acordo com a Tradição
da Igreja
Turibulo usado na liturgia bizantina

S. Serafim Vyritzkiy

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