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II – MORTE, VIDA, RESSURREIÇÃO Das três palavras do título deste capítulo, as duas primeiras são objeto de constatação para a mente humana e só a terceira palavra - ressurreição - é que constitui objeto da fé sobrenatural. A morte é o último e trágico acontecimento da vida humana, no momento em que a pessoa tomba na imobilidade definitiva, sem condições de comunicar-se mais com o mundo em seu redor e sem opção de voltar atrás, de consertar algum estrago, melhorar alguma coisa mal acabada, arrepender-se, enveredar por algum novo rumo, fazer um ajuste de rota. Santo Epifânio de Salamina, um dos santos padres do final século IV, descreve esta situação recorrendo à figura realista de uma Olimpíada, nestes termos: "O espetáculo terminou; o estádio está vazio; as coroas de louro já foram distribuídas e os atletas já foram embora. Quem não participou do certame não tem mais chance e os vencidos são rejeitados, porque tudo já terminou" (Panarion, ? 59). É neste mesmo sentido que São Paulo fala da morte: "Quanto a mim, já estou sendo oferecido em libação, pois chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora, está reservado para mim o prêmio da justiça, que o Senhor, o Juiz justo me dará naquele dia, não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação" (2Tm 4, 6-8). Trata-se de um momento inquietante, quando, no silêncio e imobilidade, o falecido agita o espírito dos que estão presentes e o seu silêncio torna-se um grito eloqüente que adverte os espectadores desse momento a respeito de uma realidade que a inteligência humana não pode captar, por mais que se esforce. A inércia espantosa assume o tom de súplica aos que estão ali ainda vivos, rogando que voltem o olhar para o além, enquanto podem e dispõem de tempo. Na tradição cristã, marcada pela saudade e carinho, o Oficio da Panikhida ou réquiem é a voz que rompe o silêncio e a tristeza como um suave cântico de consolação, entoado pelos viventes alternadamente com os falecidos. A recitação dos versículos do salmo 118/119 alternados com o cântico dos tropários e que na linguagem litúrgica tem o nome de Kafisma 17mI (Seção 17), próprio dos ofícios fúnebres, é um diálogo real com os mortos. Os que comemoram o falecido repetem o versículo: Bendito és, Senhor, ensina-me os teus estatutos (isto é, os teus preceitos). Os tropários intercalados são como resposta de encorajamento que o falecido dirige aos que estão orando. Os mortos não podem levantar-se, aparecer, abrir os olhos, mover os lábios, porque como ensina a Igreja, a partir dessa imobilidade material, não existe mais liberdade nem opção, nem arrependimento, nem fuga, nem reencarnação, não existe mais tempo nem espaço. Inicia-se uma nova realidade, aos olhos humanos assustadora, porque envolta em um insondável mistério, mas à luz da fé, uma realidade promissora da conquista da bem-aventurança eterna. Esta realidade é a que incutia coragem aos mártires e heróis da era das perseguições e que é lembrada em todas as exortações dos santos padres da Igreja. Os escritos dos primeiros mestres do Cristianismo primitivo insistem sempre nesta motivação, às vezes com menções fugazes para o leitor de hoje, mas que merecem ser lidas e meditadas. Santo Inácio de Antioquia, numa carta aos habitantes de Éfeso, em uma passagem sobre a Encarnação, diz a certa altura: "O antigo império do mal foi subjugado, quando Deus se manifestou na forma humana para inaugurar uma nova ordem da vida que não terá fim" (Carta aos Efésios, 19). Um documento da Igreja primitiva, descoberto por acaso em Constantinopla, por volta de 1435 e conhecido como Carta a Diogneto, ao descrever as diferenças entre os cristãos e o resto da humanidade, tem uma frase curta, mas de profundo significado: "O destino colocou-os [os cristãos] na carne, mas eles não vivem segundo a carne; eles vivem os seus dias aqui na terra, mas a sua verdadeira nacionalidade é o céu. Eles obedecem às leis prescritas, mas na vida particular estão acima de toda lei. Dedicam amor a todas as pessoas, e todos os perseguem; são mal compreendidos e condenados, mas ao afrontarem a morte são despertados para a vida" (Carta a Diogneto, 5). Um outro escrito valioso, a Carta
de Barnabé, tem a seguinte passagem, ao falar do Sábado
do Antigo Testamento e do Sábado do Novo Testamento: "Estaria
absolutamente equivocado aquele que pensasse estar com o coração
suficientemente puro, para observar o dia que Deus santificou.
Sabei que virá um tempo em que haveremos de descansar e
observar este dia santamente, quando a promessa se concretizar
para nós, quando a iniqüidade for apagada e quando
o Senhor tornar novas todas as coisas. Nesse tempo, então,
observaremos este dia como santo, porque até lá
já teremos sido santificados. O Senhor também disse:
Parai de trazer oferendas sem sentido! Incenso é coisa
aborrecida para mim, lua-nova, sábado, celebração
solene... não suporto maldade com festa religiosa (Is 1,13).
O que Deus quer dizer é o seguinte: Não são
estes sábados de hoje que me agradam, mas aquele que eu
mesmo designei, o Oitavo Dia, depois da criação
de todas as coisas, isto é, o começo do novo mundo"
(Carta de Barnabé, 15). Os poucos exemplos citados acima
encerram a explicação fundamental do heroísmo
dos mártires e a base de toda a filosofia de vida cristã:
a vida eterna. A morte é mal, é castigo, é
parte do caos. O Cristianismo conforta-se à luz da vida
prometida contra a morte, que se chama vida eterna. O que conforta o cristão é que a Igreja, Mãe e Mestra, não minimiza a tragédia da morte nem se deixa abater pelo seu poder fatalmente destrutivo. A teologia da vida e a teologia da morte se unem para lembrar algo maior que a vida e a morte, que é a aliança de Deus com a humanidade, chamando-a a si na eternidade pela promessa da ressurreição. Não se trata de otimismo ilusório e ingênuo, mas de convicções bem fundadas na revelação divina e nas tradições da Igreja Universal. Nas Igrejas do Ocidente, o cântico de prólogo da Ação Eucarística, recitado pelo celebrante em alta voz na comemoração dos falecidos, é a proclamação das idéias que ficaram impressas nas anáforas das liturgias originais de Jerusalém e Antioquia, parafraseando o ensinamento do Apóstolo São Paulo aos coríntios (2Cr 5,1): "É digno e justo dar graças a Deus em Cristo Nosso Senhor, em quem raiou para nós a esperança da bendita ressurreição, pela qual aqueles que se entristecem com a condição da morte certa são confortados pela promessa da futura imortalidade. A vida dos vossos fiéis, Senhor, não é arrancada, mas sim, transformada e, uma vez dissolvida a habitação terrena, o cristão conquista uma nova morada no céu, que é eterna”. A Igreja propõe aos seus filhos um ritual de funerais emocionante, para ajudar os que sobrevivem a trocar o pavor da tragédia da morte pela esperança da imortalidade. Os já mencionados tropários (breves cânticos), alternados com o versículo: Bendito sois, Senhor, ensinai-me os vossos mandamentos (Sl 118/119), exprimem nossos sentimentos de saudade e, ao mesmo tempo, nos inspiram tranqüilidade, confiança e uma luminosa perspectiva da vida futura. Os breves cânticos recitados lembram que, por numerosos que tenham sido os pecados do falecido, a criatura humana permanece sempre como imagem da glória divina inefável. Essa imagem é indelével, imortal e indescritível. Todo o sentido da Panikhida ou sufrágio pelos falecidos, está em pedir a misericórdia divina para que, a pessoa falecida, perdoada dos pecados deste mundo, possa entrar na glória do Reino de Deus para contemplar a face divina, na companhia dos anjos e santos resplandecentes como astros. Os textos sagrados nos relembram que nós, os que ficamos, ainda que marcados pelo estigma do pecado, somos também imagens da glória de Deus, ovelhas desgarradas, mas imagens de Deus, convidados a viver na firme esperança da ressurreição. É só esta esperança que transforma o mistério trágico da morte em visão de um acontecimento vitorioso, capaz de sanar a angústia existencial da humanidade. Esta verdade confortadora foi por Deus anunciada à humanidade através do apóstolo São Paulo: "Eis que vos revelo um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados. Num instante, num piscar de olhos, ao soar da trombeta final - e a trombeta soará -, não só os mortos ressuscitarão incorruptíveis, mas nós também seremos transformados. Pois é preciso que este ser corruptível se vista de incorruptibilidade e este ser mortal se revista de imortalidade. E quando este ser corruptível estiver vestido de incorruptibilidade e este ser mortal estiver vestido de imortalidade, então, estará cumprida a palavra da Escritura: A morte foi tragada pela vitória (Is. 25, 8). Onde está, morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (Os 13,14). O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a Lei” (1Cr 15, 51-57). O acontecimento é vitorioso, como se lê logo no versículo seguinte: "Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo". A religião que o apóstolo São Paulo anunciou aos gregos foi uma mensagem ousada e sensacional da esperança na ressurreição do corpo e não só na imortalidade da alma. Para a cultura grega, dentro da filosofia platônica, o corpo é um cárcere da alma. Para a nova religião, o corpo não era um mero cárcere em que a alma imortal está aprisionada, mas é templo do Espírito Santo e tem um destino nobre, que é a volta à gloria com que Deus o revestiu ao criá-lo. O teólogo Georg Florovsky, tratando deste assunto em um opúsculo que escreveu sobre a Ressurreição dos Mortos, expõe o seguinte pensamento: "É verdade que o veneno da morte, instilado no mundo pelo pecado, ainda age sobre os tecidos da natureza humana, mas o desespero da morte foi esmagado, a sua força foi abatida e o poder da corrupção foi aniquilado. A humanidade obteve a graça da ressurreição. A nova vida já flui pelos tecidos do mundo transfigurado. Surge a misteriosa primavera da graça e a aurora sem ocaso da verdade e da incorruptibilidade". Por respeito aos corpos que ressuscitarão
é que os cristãos criaram os cemitérios,
onde as cruzes simbolizam a vitória de Cristo que será
também a vitória dos que irão ressuscitar.
As igrejas bizantino-eslavas não reconhecem a construção
de monumentos nos cemitérios: não há mausoléus
fazendo sombra sobre a cruz. O corpo dos falecidos é coisa
sagrada, como a semente que apodrece no solo, mas que é
promessa da glória da primavera. O ser humano, como a semente
do trigo, não morre por completo. As pessoas se afligem,
quando conduzem os seus mortos à sepultura, mas a aflição
natural que se sente não significa que as portas da morte
se abrem totalmente para a dor e para o vazio. Foi o Salvador
quem fez a confortadora promessa: "Em verdade, em verdade
vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me
enviou, possui a vida eterna e não irá a julgamento,
porque passou da morte para a vida" (Jo 5,24). Existe, portanto,
uma promessa valiosa de um amor divino que corrige a morte, fim
de tudo com uma vida que subsiste de maneira misteriosa. O cristão
vislumbra a realidade da promessa com os olhos da fé, mas
o véu do mistério não cai enquanto o ser
humano peregrina. Eis uma breve passagem dos escritos de São João de Kronstadt5: O que existe de mais terrível para o homem? A morte? Sim, a morte. Ninguém de nós pode imaginar, sem sobressalto, como será a morte e seu último suspiro, qual a dor dos pais ao assistirem a morte de seus filhos amados, quando os seus corpos de criança jazerem imóveis debaixo de seus olhos! Digo-vos, meus irmãos, não temais e não vos deixeis levar pela aflição excessiva. Pela sua morte, Jesus Cristo, nosso Salvador, venceu a nossa morte e com a sua ressurreição lançou os fundamentos da nossa ressurreição. Cada semana, cada domingo, nós mesmos, celebramos com Cristo ressuscitado nossa ressurreição futura, começando já aqui na terra a vida eterna, da qual a nossa vida terrena é apenas um caminho estreito, curto e cheio de sofrimentos. Para o verdadeiro cristão, a morte não passa de um adormecimento na esperança da ressurreição ou como o nascimento para uma nova vida. Por isto ao celebrar festivamente todas as semanas a ressurreição de Cristo, somos levados a morrer continuamente para o pecado e a ressuscitar das nossas más ações para nos enriquecermos com as virtudes e fugirmos da dor inconsolável pelos falecidos. No Cristianismo, aprendemos a encarar a morte sem terror, aceitando-a como um decreto que é do Pai Celestial, e que, através da ressurreição de Cristo, deixa de ser uma expressão de terror. Queira Deus que, mesmo após a morte, não se rompa a nossa união fraterna com os nossos seres queridos que adormeceram, não se apague o nosso amor a eles, mas pelo contrário, brilhe como uma chama ardente, e que a lembrança constante daqueles que adormeceram nos acompanhe até o fim (Dos escritos de São João de Kronstadt). Ilimitada e de todo inútil seria a dor, sentida pela perda dos entes queridos agonizantes e dos que assistem aos seus derradeiros momentos, se não fosse a esperança da vida eterna. Sem esta esperança, a vida humana seria destituída de todo objetivo. Se tudo acabasse tragicamente com a morte, para que serviriam as boas ações, para que se esforçar para praticar o bem? Por mero altruísmo e bondade inata ou instintiva? Teriam razão os que dizem: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos. Bem outro é o ensinamento de Jesus Cristo e da sua Igreja. Ele, pela sua ressurreição, abriu as portas do Reino da felicidade eterna para aqueles que nele acreditam. Conforme ele ensinou e os seus apóstolos anunciaram, a vida terrena é um período de provação que termina com a morte. Pode-se perguntar: Esta tese não é contraditória, ou ao menos, inconsistente? Responde-se que esta objeção já foi feita pelos santos padres dos primeiros séculos da Igreja e as respostas que deram são convincentes. São Gregório de Nissa, no tratado sobre a ressurreição dos mortos, diz em uma passagem: "De novo conheceremos o paraíso, de novo conheceremos aquela árvore da vida; de novo a beleza da imagem e a nossa primeira dignidade". Ao explicar que o mal que afeta a vida humana é limitado e será suplantado pelo bem através da purificação universal ou apocatástase, ele questiona: "Por que, então, este bem não acontece logo, mas é relegado a um prazo indeterminado, longo e desconhecido?" A expectativa é angustiante e a interrogação que cada pessoa faz é: Por que esta existência dolorosa não se transforma imediatamente na tão almejada felicidade? Por que esta apocatástase não nos conduz logo à liberdade absoluta da bem-aventurança? São Gregório de Nissa lembra, então, a palavra do Apóstolo São Paulo, segundo a qual, um instante é suficiente para Deus transformar a criação: "O Senhor mesmo, à voz do arcanjo e ao soar da trombeta de Deus, descerá do céu. E ressuscitarão em primeiro lugar, os que morreram em Cristo. Depois nós, os vivos, que ainda estivermos em vida" (1Ts 4, 16-17). Aqui se volta à indagação inicial: por que esta promessa alvissareira não se cumpre de imediato? São Gregório de Nissa responde com uma comparação alegórica: imagine-se que um lavrador é avisado de que a sua roça lhe dará uma colheita abundante e que os seus celeiros ficarão abarrotados de grãos. Seria tolo o agricultor se previsse que a colheita ocorreria imediatamente, sem calcular o tempo que vai da semeadura ao amadurecimento da plantação. Assim acontece com as pessoas: sabem que o tempo da colheita virá, mas a ninguém é desvendado o preciso momento. Que fazer? Cultivar a esperança, cada momento precioso da vida. Portanto, a esperança da ressurreição é a razão de ser da comemoração dos mortos. Ainda no mesmo tratado sobre a ressurreição, São Gregório de Nissa explica que esta vida efêmera é o caminho que nos conduz à esperança, como uma planta que brota, e logo vai florir e produzir os seus frutos. Considere-se o milho: a semente plantada não se transforma imediatamente em espiga, mas primeiro brota, depois forma a haste, que irá morrer, em último lugar vem a espiga com os grãos. O agricultor não estranha esta seqüência natural do processo criativo. Qualquer pessoa que contempla as maravilhas da natureza sabe muito bem que o fruto vem depois da semente e que só alcança a perfeição quando a planta é cultivada pelo esforço do trabalhador. O Criador não nos criou para permanecermos no seio materno. Entramos na vida chorando, porque estranhamos a nova realidade. A meta final da nossa caminhada também nos causa estranheza, mas é a apocatástase (restauração) até chegarmos ao estado original da semelhança com Deus. Acrescentam-se a esta idéia confortadora as exortações constantes dos santos padres da Igreja aos seus fiéis, recomendando orações pelos falecidos, para que Deus lhes dê o repouso eterno, perdoando os pecados que cometeram em vida, pois existe a convicção de que com as orações de cada um e da Igreja oficialmente, os fiéis falecidos são ajudados a completar a sua apocatástase. Estes e outros belos pensamentos que possam ser manifestados não evitam que a realidade da morte seja e continue sendo estranha e repugnante à natureza humana, mas esta condição incômoda é atenuada pela esperança cristã, que, sendo uma virtude, é uma força que se adquire através de exercícios espirituais. A virtude supõe o combate espiritual e o combate nem sempre conduz à vitória. Daí a necessidade de avivar continuamente a esperança, meditando na promessa da vida que continua depois da vida, porque costuma ser tênue e muito frágil a fé que as pessoas têm no ensinamento bíblico que convida a acreditar que o ser humano não perece por completo, mas possui uma parte espiritual que é preservada. Acreditar... não há como não acreditar, mas tudo em nós parece conspirar contra a esperança. Por outras palavras, nem sempre subsiste a firme convicção da imortalidade da alma. É bem esta a razão por que os padres da Igreja procuravam, nas instruções catequéticas aos candidatos, abordar este tema. São Cirilo de Jerusalém, diz na Catequese Batismal 18: "A esperança da ressurreição é a raiz de toda boa obra. Tudo o que fazemos, fazemos com entusiasmo em vista da recompensa. Assim age qualquer trabalhador ao abraçar o seu trabalho árduo, prevendo a recompensa... Os gregos e samaritanos dizem que o homem perece, morre e se decompõe e tudo se dissolve em vermes, que por sua vez, também acabam morrendo. Assim apodrecem e se decompõem os corpos! Como o corpo haveria de ressuscitar? Os peixes maiores devoram os mais fracos e os mais fortes, por sua vez, também são devorados por outros. Leões e outras feras devoram até os ossos daqueles com quem lutam. Abutres e urubus bicam a carniça deixada no solo e depois voam por toda a parte. Onde e como os corpos podem se recompor? Das aves que se alimentam de restos mortais, algumas irão morrer na Índia, outras na Pérsia, outras na terra dos godos. O vento e a chuva dispersam as cinzas dos seres que são incinerados. Onde é que o corpo será recomposto? Para ti, homem pequeno e fraco, a Índia está distante do país dos godos e a Espanha está bem longe da Pérsia, mas para Deus, que tem todo o planeta na palma da mão, tudo está perto. Não deves atribuir a Deus a tua própria incapacidade e fraqueza, antes considera o poder que Ele tem! O Sol, que é uma pequena obra de Deus, com a simples difusão de seus raios aquece toda a terra e o ar que Deus criou, está em toda a parte. Deus, artífice do Sol e do ar, estaria longe do mundo? A árvore podada refloresce; o homem que perdeu a vida não poderá reflorescer? O trigo que foi semeado e ceifado fica no campo para ser colhido; o homem, ceifado deste mundo, não permanecerá no solo, como o trigo? Os sarmentos da videira e os grelos das plantas que são cortados e transplantados, recobram vida e produzem frutos: o homem, para quem as plantas existem, não ressuscitará, depois que descer à terra? Comparando-se o trabalho que dá, o que é maior: criar uma estátua do nada ou restaurar uma que já existiu e se partiu? Deus que nos criou do nada não poderá fazer ressurgir aqueles que viveram e morreram? Se não acreditas no que está escrito sobre a ressurreição, é porque és pagão. Contempla a natureza e reflete no que podes ver: semeia-se o trigo ou qualquer semente. A semente é lançada
à terra, se decompõe e se torna inútil para
servir de alimento. Mas logo ressurge, cheia de vida e belíssima.
O trigo foi feito para nós. O trigo e demais cereais foram
criados para nós e não para si mesmos. Aquelas coisas
que foram feitas para nós, morrem e revivem e nós,
a razão de ser pela qual estas coisas vivem, não
haveremos de ressuscitar? Considera a estação do
inverno: as árvores estão como mortas. Onde estão
as folhas e frutos? Onde estão os brotos? No inverno estão
mortos, mas na primavera, se revestem de verde e, chegado o tempo,
a força da vida renasce da morte. Deus, considerando a
tua infidelidade, opera, todos os anos, a ressurreição,
para que, ao ver este sinal nas coisas da natureza, possas compreender
o seu significado..." Ora, será que a Divina Providência ocupa-se tão somente em renovar as árvores, sem ter nenhuma consideração para as pessoas? O Deus que não deixa perecer aquilo que Ele mesmo disponibilizou ao serviço da humanidade, permitirá que venha a perecer o homem, criado à sua imagem?... Quem duvidará das palavras do profeta Daniel: Naquele tempo será salvo todo o seu povo, todo aquele que tiver sido inscrito no livro. Muitos daqueles que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e rejeição eterna (Dn 12,1-2). Atenção à palavra do profeta: Muitos que dormem. Estas palavras sugerem que a morte não é eterna, mas é como um sono. Diz-se também que a vida depois da morte é melhor do que a vida antes da morte, sendo esta última sujeita a sofrimentos e doenças, ao passo que aquela é comparada com as estrelas, conforme a palavra da Escritura: Os criteriosos brilharão como luz do firmamento e de muitos justos, como astros para sempre. Na verdade, a vida antes da morte está sujeita a muitos padecimentos e enfermidades. Nosso Senhor no Evangelho mostra o modo como iremos ressuscitar: Ele não só ressuscitou Lázaro, mas ressuscitou também a fé de todos. Assim, quando lemos a passagem do Evangelho, acreditamos e o nosso pensamento que estava morto, ressuscita na pessoa de Lázaro. Quando Jesus, ao se aproximar do sepulcro, exclamou: Lázaro, vem para fora, Ele demonstrou com estas palavras como será a nossa futura ressurreição. Por que exclamou de viva voz, quando podia agir em espírito, podendo dar ordem, sem pronunciar palavras? Certamente para demonstrar o que está escrito: Subitamente, no abrir e fechar de olhos, soará o clarim e os mortos ressurgirão incorruptos... Jesus Cristo, o poder de Deus, a luz, a ressurreição dos mortos: a força, levantou o que jazia na morte, a vida fez andar, a luz dissipou as trevas, restituiu a visão e ressuscitou a vida. E Jesus não deu um único exemplo: ele ressuscitou outros, para que víssemos e crêssemos. Um dia, enternecido pelo pranto de uma viúva, ressuscitou para ela o filho único; Ele se aproximou, tocou o morto e exclamou: Jovem, eu te ordeno, levanta-te! E o morto sentou-se e começou a falar (Lc 7, 14-15). Logo que ouviu a ordem, o jovem sentou-se e começou a conversar, porque um é o poder da graça e outra é a ordem da natureza. (Do Sermão de Santo Ambrósio sobre a esperança da ressurreição).
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