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   Sufrágio Pelos Mortos - Parte III

 

III – ORIGEM DOS CÂNTICOS RITUAIS

1. Os cânticos mais antigos

Na Igreja dos primeiros tempos do Cristianismo, as cerimônias eclesiásticas seguiam o esquema dos cultos das sinagogas, onde as pessoas recitavam salmos e liam passagens das Escrituras. Quando o Cristianismo se expandiu pelo mundo, estabeleceu-se o costume de recitar poemas alternados com os salmos e orações apropriadas ao evento que se comemorava. Os cânticos da Panikhida, na forma como o Ofício chegou aos nossos dias, contêm uma série de poemas espirituais atribuídos principalmente a dois santos hinógrafos bizantinos, Teófanes e João Damasceno, este último chamado Chrysorroas, que significa aquele que derrama ouro. João Damasceno compôs partes do ofício para o enterro de um amigo. Como além de poetas, os dois compositores eram também teólogos, conhecedores dos santos padres da Igreja dos primeiros séculos, o Ofício de Sufrágio por eles composto, encerra os ricos ensinamentos de São João Crisóstomo, de São Gregório de Nissa e de outros Padres da Igreja sobre a morte e a esperança da restauração do estado original da imagem de Deus impressa no ser humano. O Ofício era tão sublime que serviu inicialmente para a Igreja de Antioquia e, logo depois, para as igrejas vizinhas, relembrando, em termos poéticos, os ensinamentos do Apóstolo São Paulo: "Se é só em função desta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão. Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que adormeceram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua própria categoria: como primícias, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a seu Deus Pai, depois que tiver destruído todo principado e toda autoridade e poder. Pois é preciso que ele reine, até que Deus ponha todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Cr. 15, 19-28).

Os cânticos de meditação de São João Damasceno refletem o que o Apóstolo diz mais adiante: “Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível, semeado na humilhação, ressuscita na glória; semeado na fraqueza total, ressuscita no maior dinamismo; semeia-se um corpo só com a vida natural, ressuscita um corpo espiritual. Se existe corpo só com a vida natural, existe também o corpo espiritual. É como está escrito: o primeiro homem, Adão, foi um ser natural, dotado de vida; o último Adão é um ser espiritual e que dá a vida” (1Cr 15, 42-45).

Partindo-se desta doutrina, o tema da comemoração dos falecidos é a reflexão sobre o destino das pessoas. A morte é um caminho incontornável para a corrupção, mas mesmo no estado de corrupção, o ser humano guarda em si a imagem de Deus, e a morte da humanidade é vencida pela morte do Filho de Deus, que destruiu a morte, quando ressuscitou. À luz da ressurreição e da esperança de uma vida nova, de um novo céu e uma nova terra, o fim da vida assume um novo significado no contexto do Cristianismo, o significado de transição iluminada pela esperança. Todo o ofício em sufrágio pelos falecidos desperta, em quem o celebra, aquela esperança e o ideal da vida futura, que faz com que a Profissão de Fé estabelecida pelos padres dos dois primeiros concílios ecumênicos salte de um simples ato de fé para um ato de esperança: “Confesso um só batismo para o perdão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos”.

2. A evolução do cerimonial

Todas as cerimônias litúrgicas do rito bizantino são regidas por uma série de rubricas detalhadas e complexas contidas no livro de rubricas (Typikon). Graças à escrupulosa obediência às rubricas do Typicon, todo o ritual da Liturgia (missa bizantina) e dos Ofícios das Horas, dos Sacramentos, Bênçãos, Rezas e Devoções, mantém-se dentro de moldes mais ou menos uniformes, pouco sujeitos a alterações locais. O Typicon dita regras sobre os mínimos detalhes do ritual, inclusive sobre as partes de orações que devem ser recitadas em silêncio e as que são recitadas em voz alta, mas não legisla sobre o canto, talvez porque a melodia dos textos fosse uma expressão intuitiva. Na Rússia, até o século XVII, as leis eclesiásticas não previam a adoção da polifonia nem de coros mistos.

As empolgantes composições que enriquecem o culto ortodoxo nos dias de hoje devem sua glória a compositores geniais que harmonizaram as antigas melodias monotônicas e austeras dos mosteiros, criando estilos polifônicos teatrais, mas ao mesmo tempo profundamente espirituais. Tal foi a evolução da melodia dos cânticos do Ofício de Sufrágio pelos Falecidos, inclusive da recitação das súplicas ou ektênias pronunciadas pelo diácono. O uso do idioma eslavo eclesiástico, que é razoavelmente compreendido pelas pessoas, conserva os textos litúrgicos inalterados, o que facilita a memorização e a melodia. Em geral, a linha melódica de um cântico não muda, o que se altera e a harmonização das diversas vozes de tal maneira que, as pessoas presentes a uma cerimônia podem acompanhar os cânticos desde os seus lugares, apoiando a sua voz nas vozes do coral. Consegue-se naturalmente a interação do canto com a oração e, por mais teatral que um cântico pareça, não perde nunca o sentido da oração. Seja dito de passagem que na cultura bizantina não se reconhece a música instrumental, e assim, o órgão, a guitarra, o arcodeón, os tímpanos, pratos e violão, são formas alheias ao culto. Alguém poderia perguntar se não poderia surgir a curiosidade de se introduzir instrumentos ou tambores no culto ortodoxo.

Francamente, esta curiosidade não existe. Seria o mesmo que tentar inovar a arte iconográfica, representando um santo da atualidade, deixando ver no pulso um relógio ou na mão um microfone. Alguns admiradores do protopresbítero Alexander Men, assassinado na manhã de domingo, 9 de setembro de 1990, quando se dirigia para a sua igreja paroquial, criaram um ícone deste mártir dos nossos dias. Imagine-se um ícone deste santo sacerdote deixando ver no pulso o relógio. Imagine-se um ícone da Bem-aventurada Xênia de São Petersburgo, representando-a na forma como ela vivia, trajando, no mais genuíno estilo surrealista, o uniforme militar do esposo... Sabe-se do caso de um disco de músicas russas em que o famoso cantor, Borís Khristoff, executou a recitação da cerimônia chamada Polielei, do Ofício de Matinas, acompanhado ao órgão. Foi uma peça de grande beleza artística, mas não apreciada como peça do culto. Outro fato curioso foi o que ocorreu, na década de cinqüenta, na cidade de Itu, no Estado de São Paulo, no Brasil, onde a Companhia de Jesus tinha fundado um pensionato para filhos de emigrantes russos, provenientes da China naqueles anos. Na Páscoa russa, para a qual foi convidada também a tradicional população católica da cidade, compareceu uma banda de música local para abrilhantar a procissão em torno da igreja à meia-noite. Os católicos não sabiam que as procissões não eram solenizadas com bandas de música.

Nessa procissão, os russos repetem todo o tempo da procissão, em ritmo compassado do modo 6°, o cântico: Vossa Ressurreição, Cristo Salvador, cantam os anjos no céu e nós também na terra, queremos louvar-vos com o coração puro. Após meia hora de repetição do cântico, o maestro da banda teve a inspirada idéia de fazer acompanhar o cântico com o golpe compassado do tambor. Foi maravilhoso; todo o mundo se comoveu com aquele cântico ao som do tambor; mas ninguém pensou que tal novidade pudesse ser implantada no ritual litúrgico da Igreja Ortodoxa. Não poucas vezes, em igrejas católicas nos Estados Unidos e Canadá, sacerdotes de rito oriental celebravam panikhidas durante as quais um órgão eletrônico acompanhava baixinho e discretamente a melodia dos cantores que entoavam o Senhor, tende piedade (Góspodi pomílui), criando um clima emocionante de oração e conforto espiritual.

Não se pode profetizar se alguma novidade neste sentido virá a ser admitida ou sempre repudiada nas tradições bizantinas, mas uma coisa é certa: o ritual bizantino não é um conjunto de cerimônias que o sacerdote celebra diante de uma assembléia silenciosa e indiferente. Supõe-se, portanto, que as pessoas presentes tenham noção do cerimonial que está sendo oficiado. Os ritos litúrgicos requerem celebrantes, sacerdotes e diáconos, acólitos e leitores, coral ou cantores que conheçam as rubricas e, indispensavelmente, a comunidade orante, mas nem sempre isto acontece; principalmente nos países ocidentais, quase sempre é difícil reunir numa igreja bizantina pessoas que possam desempenhar todas as funções litúrgicas. Por isto, na medida do possível, as cerimônias fúnebres freqüentemente são simplificadas, ainda que nunca omitidas.



IV – CULTO DE LEMBRANÇA

1. Lembrança dos que adormeceram

A lembrança saudosa dos falecidos é um sentimento sagrado. Lembrar as pessoas que amamos e com quem convivemos é duplamente confortador, em primeiro lugar, porque o cristão crê firmemente que existe um elo entre a Igreja da Terra e a Igreja do Céu, igreja militante e padecente e a igreja triunfante. Esta convicção estava impressa muito vivamente nos cristãos dos três primeiros séculos da Igreja, perseguida e martirizada, mas cheia de esperança. Da mesma forma que o cristão ora pelos seus pais, parentes e amigos quando em vida, continua orando por eles, para que possam gozar da visão da face de Deus, visto que a morte é um ponto final no tempo, mas não no ser. Em segundo lugar, é um conforto para o ser humano orar pelos falecidos, refletindo sobre o seu próprio destino, ignorado, obscuro, misterioso, mas certo e inevitável; contraditório, mas nunca desesperador. O breve cântico que encerra o Ofício da Panikhida e que consta de apenas duas palavras: Eterna lembrança (vetchnaia pâmiat), traduz o desejo e a oração da Igreja para que o nome e as boas ações dos falecidos não desapareçam nunca da face da terra e da memória dos seus descendentes e para que a boa lembrança de tudo o que fizeram de bem possa inspirar os que na terra permanecem, de modo que os falecidos não sejam como aqueles que não deixam memória. A expressão Eterna lembrança evoca o elogio dos antepassados do texto poético do capítulo 44 do livro do Eclesiástico ou da Sabedoria de Jesus, filho de Sirac. Dos antepassados, diz o sábio:

Alguns exerceram o poder em seus domínios, foram renomados em força e dotados de prudência, e expressaram-se em profecias. Outros guiaram o povo com seus conselhos e com sua habilidade em escrever, e na sua instrução estavam as palavras da Sabedoria. Outros, ainda, excogitaram cantos melodiosos e compuseram os poemas das Escrituras. Outros foram ricos e dotados de força, zelosos na busca da beleza e viveram em paz nas suas casas. Todos esses alcançaram glória entre as gerações do seu povo, já louvados desde os dias de sua vida. Os que deles nasceram deixaram um nome que faz recordar os seus louvores. Outros não deixaram lembrança alguma, desaparecendo como se não tivessem existido. Viveram como se não tivessem vivido, e seus filhos também, depois deles. Agora, porém, falemos dos homens de bem, pois seus gestos de bondade não foram esquecidos, eles permanecem com os seus descendentes: seus netos são a sua melhor herança. (Eclo 44, 2-11).

O mesmo sentido tem a expressão no salmo 111/112, onde se diz: "Eterna será a lembrança do justo". No livro dos Provérbios está escrito: "A memória do justo é abençoada" (Pr 10,7).

2. Lembrança para os que adormecerão

Com as palavras Eterna lembrança a Igreja recorda aos que ficam na terra, que os falecidos se tornam cidadãos do reino de Deus ou vida eterna, em novos céus e nova terra, que não acabarão mais. Ao mesmo tempo, a Igreja exorta os que ficam na terra que, em suas orações, não se esqueçam nunca dos seus entes queridos e do sentido da vida do além, porque todos morrem para a vida, mas vivem na eternidade. Para manter viva esta memória, dedica-se, na celebração da Eucaristia, entre a Consagração e a Comunhão, uma recordação detalhada dos santos antepassados, patriarcas, profetas, evangelistas, pregadores, mártires, confessores, mestres, e todos que adormeceram na esperança da ressurreição para a vida eterna. É nesse momento, entre a Consagração e a Comunhão, que o celebrante da Eucaristia, lendo, um por um, os nomes que os fiéis fizeram chegar ao altar, ora por eles, pelo seu repouso e perdão dos pecados em um lugar de luz, de onde desaparecem a dor e os gemidos e onde resplandece a luz da face de Deus. Este hábito, conservado piedosamente na Igreja, provém da época da Igreja primitiva, como atesta uma passagem do já citado Santo Epifânio de Salamina. Na sua obra Panarion (contra as heresias) ele explica que o costume de comemorar os mortos é útil para lembrar aos que assistem à cerimônia que as almas dos nossos falecidos vivem e não são dissolvidas como os seus corpos. Ele acrescenta que as nossas preces fúnebres são também prece de esperança de que as faltas que os falecidos cometeram em vida sejam apagadas pela misericórdia de Deus.


V – REFLEXÕES SOBRE A MORTE E A LEMBRANÇA

1. Morte: tragédia inevitável

Neste início do Terceiro Milênio, a inteligência e o esforço humano alcançaram níveis nunca antes previsíveis na conquista do universo. O avanço da ciência e tecnologia mostra os homens verdadeiramente como governantes ou juízes todo-poderosos, ou deuses, como são chamados na linguagem bíblica: Vós sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo (Sl 82,6). Este ser humano, como juiz todo-poderoso, volta hoje o olhar soberbo para o universo conquistado e submetido à sua vontade soberana, ávida de conquistas ainda mais espetaculares, movida por uma ambição insaciável. As civilizações da humanidade seguem uma trajetória progressiva e acelerada, sem voltar atrás. O homem quase Deus e filho do Altíssimo não é mais o filho da natureza-mãe, ele agora é o rei da natureza, aquele que a governa e lhe dita leis, ao que parece, com pleno êxito. A cada momento, novas descobertas, novos inventos causadores de uma felicidade inebriante que o faz avançar por toda a parte do universo e fora do universo, pelas profundezas abissais do oceano e pela infinitude do firmamento. Porém, extasiado por esta glória de quase deus, ele negligenciou e preteriu a alma e o coração e se esqueceu do versículo subseqüente do mesmo salmo.

Que diz o salmo? Proclama laconicamente: No entanto, morrereis como qualquer homem, caireis como todos os poderosos (Sl 82,7). Na sua insignificância, ele descerá ao seio da natureza-mãe, que o produziu e que o recebe de volta. Movido por uma instintiva avidez de conquista, e animado com os gratificantes resultados de suas realizações, o quase deus vasculha o firmamento, estuda os astros e os mistérios das galáxias. Nessa busca não há desafio que não seja enfrentado. Teleguiado pelo espaço, o homem, que deveria ter ouvido inúmeras vezes os salmos recitados na oração vespertina e na eucaristia dominical, deveria exclamar: Minha alma, bendize o Senhor! Senhor, meu Deus, como és grande! Revestido de majestade e de esplendor, envolto em luz como em um manto! (Sl 103/104, 1,2) e ainda: Bendizei o Senhor, vós, todas suas obras, em todos os lugares onde ele domina. Minha alma, bendize o Senhor ((Sl 102/103, 22). Lastimavelmente, muitas vezes não é assim que procede aquele de quem o salmista diz: O insensato pensa: "Deus não existe" (Sl 14,1), Quem não se lembra do astronauta que fez uma grande descoberta no espaço? Ele comunicou aos companheiros, de dentro da sua nave espacial, supondo confirmar o inconfirmável: Percorri o firmamento e não encontrei Deus.

A Pátria dele, a Rússia, antigamente era a única nação do mundo que tinha o nome de nação fiel a Deus. A ousadia irrefreável do homem-rei da natureza dissecou cadáveres, buscou o princípio da vida, teimou até em encontrar e definir a alma. Por que não? Se ele está conseguindo clonar os seres vivos e reanimar os desfalecidos, está certo que terá o poder para encurtar ou prolongar a vida, inventar o elixir do rejuvenescimento, criar enfermidades destrutivas e também medicamentos milagrosos e governar a vida pelo implante das células tronco. Está provado: ele já descobriu quase tudo, já sabe quase tudo, já pode quase tudo. Tudo mesmo? Não, não tudo; talvez, o tudo que descobriu seja ainda muito pouco. Ele ainda não conseguiu definir a vida e deter a morte. Diante da morte, cessa seu orgulho e assoma sua insignificância, mas ele, ao invés de se humilhar, se envaidece além da medida, com o talento com que Deus o dotou: "Que coisa é o homem, para dele te lembrares, o que é o ser humano para o visitares?

No entanto, o fizeste só um pouco menor que um anjo, de glória e de honra o coroaste. Tu o colocaste à frente das obras de tuas mãos. Tudo puseste sob os seus pés. (Sl 8,5-7). Este ser humano, só um pouco inferior aos anjos, cria sistemas filosóficos geniais, realiza cálculos de precisão infinitesimal, traz bibliotecas, laboratórios, salas de concerto, imagens, vozes e sons do planeta inteiro para a tela diminuta de um monitor de computador. Isto tudo é estupendo. Mas ele não consegue responder à desconcertante pergunta: O que é e por que existe a morte? A inteligência humana aqui é derrotada. A morte é mais forte e, sem alarde, segue cumprindo a sua tarefa silenciosamente. Diz-se então que a morte é um enigma, uma charada, quando não uma armadilha ou um mistério torturante. Para a inteligência descrente, o que é a morte, senão um horrendo e tenebroso esqueleto, armado com uma foice? Ela arremessa contra o rosto do homem quase deus, as contradições da vida e destruição da vida, da liberdade e coação, do prazer e angústia. A vida significa tanta coisa valiosa: a glória do ego, a satisfação de existir, horizonte promissor de prosperidade, bens e beleza.

No entanto, todo este quadro maravilhoso é obscurecido pelo pensamento opaco e ominoso do aniquilamento total. A simples idéia da morte angustia a mente, oprime o coração e entristece o espírito. Por mais que se procure conviver com este estigma do destino, o fantasma da morte é uma força de perseguição que de dia e de noite atormenta as pessoas, apontando o fim inevitável. Não existe teoria filosófica nenhuma capaz de desfazer esta contradição: esoterismo, ocultismo, nirvana, reencarnações, transmigração das almas, ciência ou ateísmo, materialismo dialético, nada disso convence nem aparta o impotente ser humano da iminência da catástrofe, se ele não for tocado pelo sopro do espírito de Deus.

2. O sopro do Espírito de Deus

Onde se sente este sopro do espírito de Deus? No recolhimento de um ato que os incrédulos chamam de teatro e os cristãos conhecem como culto de intercessão em sufrágio pelos falecidos. Se possível, o leitor poderá dirigir-se a uma igrejinha de rito bizantino-eslavo, onde se celebre o Ofício Vespertino, de preferência no Sábado antes do Domingo do Carnaval ou no Sábado que antecede o Domingo da Santíssima Trindade, ou ainda, no Sábado dos Pais, antes de 26 de outubro. Ali é celebrado um culto religioso por pessoas que seguram velas acesas, que se prostram até o solo e se benzem repetidas vezes, em um conjunto de ações e cânticos que respondem a todas as indagações sobre a morte. Ali não se ouvirá a dissertação erudita dos filósofos nem as exposições de sábios hindus; ali os cânticos sagrados explicarão tudo que a alma quer saber.

Ali é onde se sente o sopro do espírito de Deus. Ali o centro da atenção não está na tragédia da morte, mas na esperança da vida após a vida com toda a força da última expressão da profissão de fé e esperança: Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. O que conta no culto dos antepassados e nas inúmeras comemorações dos falecidos não é a nota trágica da morte mas o anseio pela luz do dia sem ocaso do reino prometido aos abençoados de Deus Pai. Ali, até a desoladora saudade dos parentes e amigos falecidos se transforma em perpétua lembrança de um amor que não morre e por isto é visitado pela consolação.

O sopro do espírito de Deus é benfazejo e libertador, porque liberta do temor e da aversão à morte, na medida em que a pessoa se aprofunda na meditação, sem se iludir, contudo, nem fazer de conta que o fato do desenlace não seja uma ruptura dolorosa. Ninguém pode afirmar que na morte alguém seja livre, porque a morte não isenta ninguém da lei da dissolução do corpo material. O salmo diz: Ele sabe de que somos feitos: sabe que não somos mais que pó. Como a erva são os dias do homem, ele floresce como a flor do campo; basta que sopre o vento, desaparece e o lugar que ocupava não voltará a vê-la (Sl 102/103, 14-16).

Está no início da Bíblia: És pó e ao pó retornarás. (Gn 3,19). O ser humano recebe a morte como recebe a vida, independentemente do seu querer, com a diferença que os bens e os males que a vida traz, os traz progressivamente, com avanços e retrocessos, ao passo que a morte consiste em um corte súbito e sem retorno, ainda que prenunciado pela dissolução progressiva do ser que atormenta as pessoas mais saudáveis e otimistas. A doutrina cristã está longe de incitar os cristãos à indiferença e, muito menos, ao desespero; o que ela faz é revelar que a morte não é o fim de tudo, mas a porta de acesso à vida que há de vir, fazendo o ser humano conhecer por intuição que ele traz dentro de si o germe da eternidade. Aceitar isto, o ser humano não pode aceitar por leis matemáticas ou filosóficas, mas somente pelo sopro do espírito de Deus que enche toda a terra e, tendo unidas todas as coisas, tem conhecimento de toda voz (Sb 1,7). Trava-se, então, na humanidade, um combate entre as forças da morte e as forças do espírito, mas deste combate sai vencedor o espírito, que é imortal. É o poder do espírito que afugenta o medo da morte e inspira conforto e satisfação em viver a vida na qual cada parcela de tempo é um dom precioso do Deus doador da vida.

Traz satisfação e tranqüilidade a lembrança permanente da crença cristã, segundo a qual a consciência da morte não é um fenômeno nebuloso, medo do vazio, mas apenas a ruptura com o corpo físico e passagem para a outra vida, a vida do mundo que há de vir. Este ensinamento é transmitido entre cânticos religiosos e orações do Ofício da Panikhida, de sufrágio pelos falecidos em um clima de sublime religiosidade. O Cristianismo revela que a morte, episódio inevitável, castigo imperdoável é vencida, quando a imagem e semelhança de Deus se reconstitui no ser humano, libertado das deficiências da vida terrena. Deus chama os seres que criou para que voltem e se unam novamente a Ele para compartilhar da vida incorruptível. Neste ponto, o discurso sobre a morte toma um novo rumo. A vitória sobre a morte não é ilusória, mas foi obtida por Jesus Cristo que, crucificado e morto, ressuscitou, vencendo a morte pela própria morte. O fato concreto e histórico da ressurreição de Cristo dá uma resposta ao desassossego humano a respeito do fim de tudo e da vida do além.

3. As preces que calam fundo na alma

Não é preciso ser um membro da igreja ortodoxa russa ou de uma igreja bizantina em geral, para assimilar a mensagem do ritual de sufrágio pelos falecidos. O conteúdo teológico dos textos e a riqueza espiritual da recitação dos salmos, súplicas e responsórios, demonstram que este é um rito de natureza universal, inspirado por Deus para comunicar a cada pessoa a sublimidade do dogma da ressurreição. No texto dos cânticos, não há uma só palavra dispensável, uma só ação destituída de simbolismo litúrgico e de significado evangélico. Se a Panikhida é celebrada numa igreja, o próprio ambiente do local cria o clima de oração e meditação que envolve as pessoas. Se o Ofício é celebrado no cemitério ou em outro lugar, as próprias pessoas que se reúnem constroem o ambiente de recolhimento próprio para a cerimônia, por ser esta cerimônia um momento recomendável para se fortalecer a fé na ressurreição.

A Igreja oferece aos fiéis outras oportunidades para orar pelos falecidos e meditar na morte e na vida que se segue à morte, mas o Ofício da Panikhida ou Parastrás ou Intercessão é o mais apropriado. Na catequese, os que estudam a religião, crianças ou adultos, aprendem a comemorar os mortos, da mesma maneira como comemoram os vivos, nas orações particulares da manhã e da noite. Procura-se ensinar que o nosso Deus é um Deus dos vivos e não dos mortos e que os nossos falecidos são mortos só para o corpo físico; as almas são imortais. As palavras dos cânticos consolam a dor dos que se sentem separados de seus entes queridos; cada palavra lembra, a cada passo que os falecidos não são aniquilados: perece o corpo material, mas subsiste a alma imortal, que voltará ao corpo no dia da ressurreição, garantida pela promessa de Jesus Cristo: Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Esta é a vontade do meu Pai: que quem vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna. E eu o ressuscitarei no último dia. (Jo 6,39-40).

Do início ao fim do Ofício de sufrágio pelos mortos sentimos o apelo da esperança da felicidade eterna, da misericórdia de Deus, que nos deu a vida terrena e dará a vida que não envelhece jamais e não terá fim. A recitação dos cânticos fala da eternidade, que mal conseguimos imaginar como um período de tempo a perder de vista, porque a nossa inteligência limitada não sabe o que é a vida sem o tempo. Os dias de comemoração universal dos falecidos durante o ano fazem os cristãos recordar e orar pelos falecidos da humanidade inteira, que partiram e que a linguagem eclesiástica diz que adormeceram no Senhor, pessoas de quem não restam mais vestígios materiais nem pátria nem parentes. A Igreja comemora todos e cada um, sem exceção de ninguém. O que pede a Igreja por todos?

A misericórdia divina, o perdão dos pecados e o repouso lá onde não há doenças nem dor nem gemidos, mas a vida que não tem fim, prometida por Deus. É difícil que nos países do Ocidente, o ritual da Panikhida possa ser observado plenamente, com a lectio divina (leitura espiritual) do sinaxário6, que explica a necessidade da oração pelos falecidos e o sentido desta oração para a pessoa que ora. Na mesma linha de instrução catequética são lidos trechos de São Dionísio Areopagista, Gregório Magno, papa de Roma, que entre os orientais é chamado o Eloqüente, João Crisóstomo, Gregório Nazianzeno, ??cário, o Grande, Gregório de Nissa e outros pastores e mestres da Igreja.

 

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