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   A Oração na Igreja Ortodoxa

Arcipreste Alexis Peña-Alfaro

Uma das definições da Igreja para os ortodoxos, e que mais caracteriza sua vida de cristão, é sem dúvida, a de “comunidade orante", porque a oração desempenhará um papel tão importante e vital que sem ela é praticamente impossível viver em Igreja. A tradição oriental fez da oração o instrumento e o meio do exercício da fé, e desenvolveu uma mística espiritual apoiada no exemplo de Nosso Senhor, que fez da oração um ato de amor, ensinou-nos a pedir ao Pai e nos pede para orar sem cessar e nunca desanimar (Lc. 11: 5-13). A própria Virgem Maria, mestra e exemplo de vida feita de oração deixou-nos seu silêncio feito de oração e o belo Magnificat. O apóstolo São Paulo em várias passagens exorta à oração como: "Orai constantemente. Em tudo dai graças" (I Ts.5:17-18), (I Cor. 10:31), (FI. 4:6), (I Tm. 2: 1), etc...

O Oriente desenvolveu uma grande corrente mística, inspirada no apóstolo São João - cognominado “O Teólogo" - o mais profundo e místico dos evangelistas. Lembremos que São João reclinou seu ouvido no peito de Nosso Senhor (Quanta intimidade! Que imenso amor! Que privilégio!) e que era o discípulo amado: daí o místico vai desenvolver toda uma relação especial, íntima com o Senhor através da oração. Esta corrente mística a que nos referimos ficou conhecida como a dos "padres do deserto": homens e mulheres que abandonaram tudo se instalaram em grutas e montanhas e desenvolveram uma espiritualidade prática, através da oração, criando regras e sistemas que são transmitidos de mestre a discípulo. Só posteriormente, no século XIII, seus ensinamentos começam a ser escritos. Existe uma obra chamada Filocalia, coleção de sentenças e ensinamentos dos "padres do deserto", que nos ensinam a oração do coração. A Filosofia juntamente com o livro de autor anônimo, "Relatos de um Peregrino Russo", são duas obras clássicas sobre a oração (recomendamos os livros sobre oração da Coleção Oração dos Pobres, Edições Paulinas).

Mas alguém poderá perguntar: para que serve a oração? Qual é sua atitude sobre oração? Você sabe orar? Compreende a finalidade? Infelizmente, o papel da oração é incompreendido, secularizado e perdeu seu sentido. Hoje em dia a oração é algo inexistente, diluiu-se como se fosse exclusividade de beatas. A tradição oriental nos afirma que a oração é algo natural como a própria vida, o estado de oração é a verdadeira natureza do homem; orar não é obrigação, mas a descoberta de uma relação pessoal, real, autêntica, viva. Referimo-nos aqui a uma experiência, algo que nos acontece, e não apenas a um fato exterior a nós. Afirma a tradição que orar é dialogar de coração a coração com o próprio Deus, onde o homem descobre a si próprio, posto que imagem de Deus. A oração, como diálogo com Deus, é a única forma verdadeira de encontrar a paz e a justiça com os homens; ela abre o entendimento, não no sentido racional do intelecto, mas da compreensão do nosso papel e lugar nessa relação com Deus, manifestada aos homens, aos quais damos testemunho.

Para que serve a oração? Sem oração não posso conhecer a Deus, não descubro minhas faltas, não aprendo a discernir, não compreendo as Escrituras, não aceito a vontade de Deus, não faço justiça a meu irmão, não respiro a vida do Espírito; por conseqüência não vivo em Deus, apenas sobrevivo. Sem oração não se sabe para onde vai, o que fazer; há vazio, solidão, angústia de um coração que quer apenas dialogar com a vida de Deus e não sabe.

O homem moderno grita porque não sabe orar. No seu desespero quer ser ouvido e quer ouvir. Em plena época das comunicações, coitado, ele está só, nega orgulhosamente a Deus que é o único que poderia escutá-lo... apenas se soubesse como orar.

Arcipreste Alexis Peña-Alfaro
Vigário Geral da Igreja Sérvia no Brasil

 

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