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   A Transformação da Mente na Semelhança de Cristo

Professor George Mantzarides

Tendo purificado tua mente através dos empenhos ascéticos em Athos, ó Gregório, tu viveste um modo de vida Angélico.”(1)

O empenho do indivíduo para purificar sua mente e o esforço para assegurar a orientação que é própria para isto passam despercebidos nos nossos dias, ou então são considerados como luxos supérfluos que não dizem respeito ao Cristão comum. De fato, aqueles que são motivados pelo espírito do que supõem ser o cristianismo “prático” tratam tais assuntos como teorias equivocadas que na verdade desviam o fiel de sua tarefa primária.

Apenas a religião prática, que se delimita a (suprir) necessidades óbvias e busca lidar com elas de maneira imediata é vista como o cristianismo autêntico, ou a genuína Ortodoxia. Isto está associado, ademais, com a impaciência do homem para ver e admirar os resultados de suas atividades instantaneamente, algo que lhe foi incutido pelo uso de máquinas, que lhe servem mas que também tem uma influência enorme em sua vida.

Nos esforçamos muito para adquirir máquinas, nos locomovemos por meio de máquinas, pensamos com máquinas, e no final, acabamos nós mesmos nos transformando em máquinas, “à imagem e semelhança” das máquinas que criamos. As máquinas não possuem uma mente que requer purificação e orientação correta. Nós nos esquecemos que nós precisamos purificar nossas mentes e orientá-las corretamente. E as máquinas precisam das nossas mentes purificadas e corretamente orientadas para que possam funcionar corretamente e não se voltem contra nós.

Também hoje, quando as máquinas estão dominando nossas vidas mais do que em qualquer outro tempo, a necessidade de purificar e orientar nossas mentes corretamente está se tornando cada vez mais importante. Todo o mal do mundo se origina nas nossas mentes. A mente, ademais, constitui o aspecto mais elevado da nossa existência. A criação do homem por Deus, “em sua imagem” está impressa antes de tudo na mente. A mente é o “espelho” que reflete seu Criador.

Quando a mente do homem está direcionada para Deus, ela recebe a Luz Divina e ela mesma se torna luz. No entanto, quando ela se afasta de Deus, perde sua luz, se torna escurecida e permanece na escuridão. Ela se torna escrava dos cuidados e preocupações deste mundo, é alienada por seu tumulto e sua desordem e esquece de Deus e de si mesma.

“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus,”(2) diz o Espírito de Deus através dos lábios do Salmista. Quando atingimos o conhecimento de Quem Deus é, então também aprendemos o que é um homem verdadeiro. Criada “à imagem e semelhança de Deus”, a mente humana, como Deus, também possui essência e energia, diz São Gregório Palamas. A energia da mente é o pensamento. Quando a mente do homem está escurecida, seu pensamento, que está na escuridão, se torna prisioneiro das sensações e paixões e se torna bestial ou demoníaco. “Pois, a mente que se afasta de Deus se torna ou bestial ou demoníaca, e, tendo se afastado dos princípios de sua natureza..., se entrega aos desejos carnais e desconhece limites para o prazer.”(3)

Foi isto que aconteceu na queda do homem. E continua acontecendo com todos os descendentes de Adão. A queda do primeiro homem arrastou toda a humanidade junto consigo. É por isto que o advento do Novo Adão, Cristo, foi necessário: para que Ele pudesse Se tornar as primícias da nova criação, a Igreja. E Ele deu Seus mandamentos, que são a luz da nova vida para qual os fiéis são chamados a viver.

Cristo habita no homem através dos Mistérios da Igreja: Batismo, Crisma e a Divina Eucaristia. Isto não significa que Cristo transforma o homem automaticamente, de um jeito mecânico. O homem continua retendo sua natureza. Cristo abre o caminho da renovação e oferece Sua Graça para o homem seguir este caminho de seu próprio livre arbítrio. Se o homem não deseja assimilar a Graça de Deus, se ele não se esforçar para coordenar sua vontade com a vontade de Deus e viver sua vida de acordo com os mandamentos de Deus, a Graça permanece infértil.

“Nós temos a mente de Cristo,”(4) diz o apóstolo Paulo. O cristão, isto é, possui a mente e os pensamentos de Cristo. Da mesma forma que um espelho, quando recebe um raio do sol, diz São Gregório Palamas, cria seu próprio raio, quando a mente do homem recebe a Luz de Cristo ela também se torna luz, e também irradia esta luz para outras pessoas. Mas para que o espelho possa irradiar a luz do sol, ele deve estar limpo. Se estiver enlameado ou escurecido, não importa quanta luz recaia sobre ele, ela não será refletida.

O mesmo acontece com a mente humana. Quando ela está enlameada ou escurecida, a luz de Cristo, a mente de Cristo, não é refletida nela. O pecado escurece a mente do homem, e as paixãos jogam lama nela. Assim o homem vive privado de Deus e de Sua Graça. Ele se torna ou bestial ou demoníaco: bestial por rolar ele próprio na lama, e demoníaco por atrair outras pessoas para esta lama e se tornar um foco de poluição e destruição.

Como nós sofremos destas doenças, especialmente hoje! Como nós mesmo nos fazemos vítimas destas doenças! Se desejamos corrigir esta condição espiritual enferma, devemos limpar e purificar nossa mente. “Tendo purificado tua mente através dos empenhos ascéticos,” São Gregório se tornou um recipiente e arauto da Luz da Graça.

Nossa primeira prioridade é imitar o santo o máximo que pudermos. A correção da mente, como ensina São Gregório Palamas, começa com o retorno para si. A menos que o homem desapegue a energia de sua mente, isto é, seus pensamentos e raciocínios, das paixões e do pecado, a menos que ele se torne calmo e retorne arrependido para si e para Deus, ele será incapaz de encontrar a verdadeira riqueza que recebeu.

Em sua interpretação da parábola do Filho Pródigo, São Gregório Palamas diz que a riqueza do homem é sua mente. Quando um homem se desvia para a vida pecaminosa, sua mente é dissipada e se apega às paixões. Ele se torna espiritualmente faminto, e não pode ser salvo a menos que se arrependa e retorne para Deus.

O arrependimento e o retorno de nossa mente para Deus não acontecem através de nenhum movimento rumo ao infinito. Não acontece sequer através de nenhum movimento direcionado para fora de nós mesmos. Ele acontece através de um retorno para nós mesmo. Ele acontece através do retorno da energia de nossa mente, pensamento e raciocínios para “o homem secreto do coração”(5). Ele acontece através do encontro pessoal e união com Deus, Que habita dentro de nós de modo a purificar nossas mentes e corações e de torná-los resplandecentes com a luz de Sua glória Divina.

Visto que fomos batizados em Nome da Santíssima Trindade e fomos incorporados na Igreja de Cristo, nós temos o Próprio Cristo dentro de nós. Por esta razão, ademais, levamos Seu Nome e somos chamados de cristãos. Isto, no entanto, exige que vivamos de maneira correspondente para com Cristo e os ícones de Cristo que são os nossos próximos.

Na passagem do Evangelho a respeito do Juízo Final, enfatiza-se que o julgamento dos homens por Cristo será baseado no amor que demonstraram para com Ele. Naquela hora Ele dirá aos que estiverem à Sua direita: “Vinde, benditos de Meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e Me destes de comer; tive sede, e Me destes de beber; era forasteiro, e Me acolhestes; estava nu, e Me vestistes; adoeci, e Me visitastes; estava na prisão e fostes ver-Me.”(6)

E para a surpresa dos justos, a resposta de Cristo para quando foi que O viram faminto e Lhe deram de comer, ou com sede e Lhe deram de beber, ou forasteiro e Lhe acolheram, será: “Sempre que o fizestes a um destes Meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a Mim o fizestes.”(7) Nós encontramos o Próprio Cristo na pessoa do nosso próximo. Por esta razão, o amor ao nosso próximo, que é o amor ao Próprio Cristo, é de fundamental importância na vida cristã.

Mas Cristo, que é encontrado na pessoa do nosso próximo, é encontrado também em nós – em cada um de nós. E quando nos esquecemos Dele, Ele bate na porta do nosso coração, para que possamos abrir a porta para Ele e Ele possa entrar e cear conosco.(8) O alimento de Cristo, Sua bebida, Seu abrigo, Suas roupas e Seu repouso se encontram no nosso coração. Eles se encontram no lugar onde nossas mentes devem estar concentradas.

Quando dissipamos nossa mente com paixões e diversões, quando a exaurimos com as preocupações do mundo e a privamos de seu alimento espiritual, quando a deixamos vagar sem moradia na miséria e confusão de uma vida de pecado, deixamos o Cristo que há dentro de nós faminto e com sede, forasteiro, nu, doente e aprisionado. E quando não demonstramos amor para com Cristo, Que bate na porta do nosso coração, naturalmente também não Lhe demonstramos amor quando Ele Se aproxima de nós na pessoa do nosso próximo.

O amor do homem a Deus ou a seu próximo nasce ou morre dentro de seu próprio coração: no “homem secreto do coração,” onde São Gregório Palamas, bem como todos os Santos de nossa Igreja, concentrava sua mente purificada. Quando a mente do homem está afastada das paixões e do pecado, quando ela se torna calma e retorna ao coração em oração e arrependimento, ela encontra Cristo e é iluminada por Sua luz.

É por isso que a oração que está ligada ao recolhimento da mente é restrita a apenas uma frase: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim,” para que a mente não fique distraída, mas se concentre no Nome de Cristo e em implorar Sua misericórdia. Assim o pecado dentro do homem é destruído e assim a vida cristã dá fruto. Assim o homem realiza a “mortificação vivificante” de sua vontade e seus pensamentos, e sua incorporação nos horizontes ilimitados da liberdade Divina. Assim ele pode dizer, com o Apóstolo Paulo: “Nós temos a mente de Cristo.”

Foi da mente escurecida do homem que todos os males do mundo surgiram e continuam a surgir. Por esta razão sua erradicação apenas é possível através da iluminação da mente pela Luz de Cristo—por sua transformação na semelhança de Cristo. Através de seus empenhos ascéticos, São Gregório Palamas realizou esta transformação interior na sua própria vida, e ele convida todos a esta transformação no dia em que é comemorado.

Os Santos, diz São Basílio, o Grande, “são expostos como ícones vivos de um modo de vida Divino, para que possamos imitar suas boas obras.”(9) Se desejamos honrar a memória de São Gregório, somos chamados a imitar suas obras da melhor maneira que pudermos. Purifiquemos nossas mentes o máximo que pudermos e permitamos que elas—como ele também permitiu que a sua—sejam guiadas por Deus e iluminadas por Sua Luz não-criada.

São Gregório foi grandiosíssimo; nós somos completamente insignificantes. Mas quando fizermos até mesmo o mínimo que pudermos, teremos o direito de nos aproximar do Santo e lhe dizer: “Como uma mente diante da Mente Primordial, direcione nossas mentes a Ele, ó Pai, para que possamos clamar: Alegra-te, ó Arauto da Graça.”(10)

Notas:
1. Idiomelon da Litia.
2. Salmo 45:II (Septuaginta).
3. Homilia 51, §6 (ed. S. Oikonomou), p. 114.
4. I Coríntios 2:16.
5. I São Pedro 3:4.
6. São Mateus 25:34-36.
7. São Mateus 25:40.
8. Apocalipse 3:20.
9. Epístola 2, §3, Patrologia Græca, Vol. XXXII, col.
228C.
10. Kondákion de São Gregório Palamas.

Professor da Escola de Teologia da Universidade de Thessaloniki

Escrito por Ocasião da Comemoração de São Gregório Palamas (14 de Novembro)

Fonte: http://www.synodinresistance.gr/Theo_en/E3e3012GrhgorPal.pdf

 

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