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Arcipreste George Florovsky O ensinamento a respeito da Virgem Maria. Já São Gregório de Nazianzo previne Cledonius: "se alguém não reconhece Maria como Theotokos, ele é estranho à Deus" (Epíst. 101). Como questão de fato, o nome foi amplamente usado pelos Padres do século quarto e possivelmente até do terceiro (por Orígenes, por exemplo, se nós pudermos confiar em Sócrates, Hist. Eccles., VII, 32, e os textos preservados em Catenas, por exemplo In Lucan Hom. 6 e 7 , ed. Rauer, 44. 10 e 50. 9). Esse termo já era tradicional quando ele foi contestado e repudiado por Nestorius e seu grupo. A palavra não ocorre na Escritura, assim como o termo omousios (coessencial) também não ocorre. Mas seguramente, nem em Nicéia nem em Éfeso a Igreja estava inovando ou impondo um novo artigo de fé. Uma palavra "não escritural" foi escolhida e usada, precisamente para dar voz e salvaguardar a crença tradicional e a convicção comum de séculos. É verdade, lógico, que o Terceiro Concílio Ecumênico estava preocupado principalmente com o dogma Cristológico e por isso não formulou nenhuma doutrina Mariológica especial. Mas precisamente por essa mesma razão foi verdadeiramente notável que um termo mariológico tenha sido selecionado e colocado como o teste definitivo da Ortodoxia Cristológica, para se usado, como se fosse, como uma contrassenha doutrinal na discussão de Cristologia. "Esse nome," diz São João Damasceno, "contém todo mistério da Encarnação" (De Fide Orthod., 3. 12). O motivo e o propósito de tal escolha são óbvios. A doutrina Cristológica nunca poderá ser acurada e adequadamente estabelecida a menos que um ensinamento muito definido sobre a Mãe de Cristo tenha sido incluído. De fato, todas as dúvidas mariológicas e erros dos tempos modernos dependem, em última análise, precisamente de uma completa confusão Cristológica. Eles revelam uma desesperança no ‘conflito na Cristologia.’ Não há espaço para a Mãe de Deus numa "Cristologia reduzida." Os teólogos protestantes simplesmente não têm nada a dizer a respeito dela. No entanto, ignorar a Mãe significa mal interpretar o Filho. De outro lado, a pessoa da Bendita Virgem pode ser apropriadamente entendida e descrita corretamente somente numa colocação e contexto Cristológico. Mariologia tem que ser um capítulo no tratado da Encarnação, nunca sendo estendido em um "tratado" independente. Não, lógico, num capítulo opcional ou ocasional, não num apêndice. Ela pertence ao próprio corpo da doutrina. O mistério da Encarnação inclui a Mãe do Encarnado. Algumas vezes, no entanto, essa perspectiva Cristológica tem sido obscurecida por um exagero devocional, por um pietismo desbalanceado. Piedade tem que ser sempre guiada e conferida por dogma. De novo, deve haver um capítulo Mariológico no tratado da Igreja. Mas a doutrina da Igreja em si não é mais do que uma "Cristologia estendida," a doutrina do "Cristo total," totus Christus, caput et corpus. A natureza de Cristo. A doutrina da União Hipostática implica em e exige
a concepção da divina Maternidade. O mistério
da Encarnação tem sido tratado nos tempos moderno
com muita infelicidade, com muita freqüência de uma maneira
completamente abstrata, e como se fosse não mais do que um
problema metafísico ou mesmo um enigma dialético.
Se é complacente muito facilmente com a dialética
do Finito e Infinito, do Temporal e do Eterno, etc., como se eles
não fossem mais do que termos de uma relação
lógica ou metafísica. Pode-se assim correr o risco
de olhar por cima e perder o verdadeiro foco: a Encarnação
foi precisamente um ato poderoso do Deus Vivo, Sua intervenção
mais pessoal na existência das criaturas, na verdade, a "descida"
de uma Pessoa divina, de Deus em pessoa. De novo, há um sutil
mas real sabor docético em muitas tentativas recentes de
recolocar a fé tradicional nos tempos modernos. Há
uma tendência de superenfatizar a iniciativa divina na Encarnação
em tal extensão que a vida histórica co Encarnado
em si empalidece dentro do "o Incógnito do Filho de
Deus." A identidade direta do Jesus da história e do
Filho de Deus é explicitamente negada. O impacto todo da
Encarnação é reduzido a símbolos: o
Senhor Encarnado é entendido mais com um expoente de algum
augusto princípio ou idéia (seja ela Ira de Deus ou
Amor, Cólera ou Alegria, Julgamento ou Perdão) do
que como uma Pessoa viva. Em ambos os casos as implicações
pessoais do Encarnado são olhadas superficialmente ou negligenciadas
— quero dizer, nossa adoção na verdadeira filiação
de Deus no Senhor Encarnado. Mas , algo muito real e definitivo
aconteceu com os homens e para os homens quando o Verbo de Deus
"Se fez carne e habitou entre nós," ou ainda "tomou
Sua morada no meio de nós" — uma virada muito
pictórica de fato: eskinosen em imim (Jo. 1:14). De outro lado, Maria foi a verdadeira mãe de sua Criança — a verdade de sua maternidade humana não é de menor relevância e importância que o mistério de sua maternidade divina. Mas a Criança era divina. Ainda assim as implicações espirituais de sua maternidade não pode ser diminuída pelo caráter excepcional do caso, nem poderia Jesus falhar em ser verdadeiramente humano em Sua resposta filial para a afeição maternal daquela de quem Ele nasceu. Essa não é uma vã especulação. Seria impertinente de fato se intrometer no sagrado campo dessa intimidade sem paralelo entre a Mãe e a divina Criança. Mas seria ainda mais impertinente ignorar o mistério. Em todo caso, teria sido uma idéia muito pobre se olhar para a Virgem Mãe meramente como um instrumento para nosso Senhor tomar carne. Além disso, tal má interpretação está formalmente excluída pelo ensinamento explícito da Igreja, atestado desde os primeiros tempos: ela não foi simplesmente um "canal" através do qual o Senhor Celestial veio, mas verdadeiramente a mãe de quem Ele tomou Sua humanidade. São João Damasceno sumariza precisamente nessas palavras o ensinamento Católico: Ele não veio como se fosse "através de um tubo," mas assumiu dela (eks avtis), uma natureza humana consubstancial à nossa (De Fide Orth., 3,12). A eleição Divina. Na Encarnação o "novo homem" nasceu, o "Último Adão," Ele foi verdadeiramente homem, mas Ele foi mais do que um homem: ‘...o segundo homem, o Senhor é do céu" (1 Cor. 15:47). Como Mãe desse "Segundo Homem," a própria Maria esteve participando do mistério da recriação redimidora do mundo. Seguramente, ela tem que ser contada entre os redimidos. Ela obviamente estava necessitada de salvação. Seu Filho é seu Redimidor e Salvador, assim como Ele é o Salvador do mundo. No entanto, ela é o único ser humano de quem o Redimidor do mundo é também Filho, sua própria Criança a quem ela verdadeiramente deu à luz. Jesus, na verdade, nasceu ‘...nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus" (Jo. 1:13; esse versículo se relaciona tanto à Encarnação quanto à regeneração batismal), mas ainda assim Ele é "o fruto do ventre" de Maria. Seu nascimento sobrenatural é o padrão e a fonte da nova existência, do novo e espiritual nascimento de todos os fiéis, que nada mais é do que uma participação em Sua sagrada humanidade, uma adoção na filiação de Deus — no "segundo homem’, no "último Adão." A Mãe do "segundo homem" necessariamente tem seu caminho próprio e peculiar na nova vida.Não é muito se dizer que para ela a Redenção foi, num certo sentido, antecipada pelo fato da própria Encarnação, — e antecipada de maneira peculiar e pessoal. "Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra..." (Lucas 1:35). Essa foi uma verdadeira "presença teofânica" — na totalidade da graça e do Espírito. A "sombra’ é exatamente um símbolo teofânico. E Maria ficou verdadeiramente "cheia de graça," gratia plena, keharitomeni. A Anunciação foi, para ela, como se fosse, um Pentecostes antecipado. Somos forçados a arriscar esse ousado paralelismo pela lógica inescrutável da eleição divina. Pois de fato não podemos olhar a Encarnação simplesmente como um milagre metafísico que não se relacionaria com o destino pessoal e existência das pessoas envolvidas. O homem nunca é tratado por Deus como se não fosse mais do que uma ferramenta nas mãos do mestre. Pois o homem é uma pessoa viva. De maneira nenhuma poderia ser simplesmente uma graça "instrumental," quando Maria foi "ensombrada" com o poder do Altíssimo. A posição única da Virgem Maria não é, obviamente, sua conquista própria, nem simplesmente uma "recompensa" por seus "méritos" — nem mesmo, talvez, a totalidade da graça foi dada a ela em "previsão" de seus méritos e virtudes. Isso foi supremamente o dom livre de Deus , no mais estrito sentido — gratia gratis data. Foi uma eleição absoluta e eterna, apesar de não incondicional — pois ela foi condicionada por e relacionada ao mistério da Encarnação. Maria sustenta sua posição única e tem uma "categoria dela própria" não como simples Virgem, mas com a Virgem-Mãe, parthenomitir,como a predestinada Mãe do Senhor. Sua função na Encarnação foi dupla. De um lado, ela assegura a continuidade da raça humana. Seu Filho é, em virtude de Seu "segundo nascimento," o Filho de Davi, o Filho de Abrahão e de todos os "antepassados" (isso é enfatizado pelas genealogias de Jesus, em ambas versões). Na frase de santo Irineu, Ele "recapitulou em si próprio os longos anais da humanidade" (Adv. Haeres., 3, 18, 1: longam hominum expositionem in se ipso recapitulavit), "reunindo em si próprio todas as nações, dispersas como estavam desde Adão" (ibid 3, 22, 3) e "tomou sobre Si o modo velho da criação" (ibid 4, 23, 4). Mas, de outro lado, Ele "exibiu um novo tipo de geração" (ibid 5, 1, 3). Ele foi o Novo Adão. Essa foi a mais drástica quebra de continuidade, a verdadeira reversão do prévio processo. Essa "reversão" começa precisamente com a Encarnação, com a Natividade do "Segundo Homem." Santo Irineu fala de uma "recirculação" — de Maria para Eva (3, 22, 4). Como a Mãe do Novo Homem Maria teve a sua participação antecipada nessa completa novidade. Por certo, Jesus o Cristo é o único Senhor e Salvador. Mas Maria é Sua Mãe. Ela é a estrela da manhã que anuncia o nascer do sol., o nascer do verdadeiro Sol salutis: astir emfenon ton Ilion. Ela é "a aurora do dia místico," (ambas as frases são do hino Akatiste). E em certo sentido, até a Natividade de nossa Senhora em si, pertença ao mistério da salvação. "O teu nascimento,ó Puríssima Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria a todo o universo, pois de ti nasceu o Sol de Justiça, o Cristo nosso Deus..." (tropário da Natividade da Virgem Maria). O pensamento Cristão move-se sempre na dimensão de personalidades, não no reino de idéias gerais. Ele compreenda o mistério da Encarnação como um Mistério da Mãe e da Criança. Essa é a salvaguarda definitiva contra qualquer docetismo abstrato. É uma salvaguarda de solidez evangélica. O ícone tradicional da Abençoada Virgem, na tradição Oriental, é precisamente um ícone de Encarnação: a Virgem está sempre com o Bebê. E seguramente nenhum ícone de Encarnação é possível sem a Virgem Mãe. Cumpra-se em mim segundo a tua palavra. Esse paralelo foi feito bastante cedo. A primeira testemunha é São Justino (Dial., 100) e em São Irineu nós já encontramos uma concepção elaborada, organicamente ligada com sua idéia básica de recapitulação. "Como Eva foi seduzida pela conversa de um anjo, como para fugir de Deus, transgredindo Sua palavra, assim também Maria recebeu as boas-novas por meio de uma conversa de um anjo, como para carregar Deus dentro dela, sendo obediente à Sua palavr |