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Arcipreste George Florovsky
As principais provas clássicas de imortalidade, derivadas de Phaedo e Phaedrus, são negadas e recusadas, e suas pressuposições básicas são abertamente rejeitadas. Como o Professor A. E.Taylor apontou. "para a mente grega athanasia ou aftharsia significavam regularmente quase a mesma coisa que "divindade" e incluíam o conceito de não-generabilidade assim como o de indestrutibilidade. Dizer para o grego "a alma é imortal" seria a mesma coisa que dizer "ela é incriada," isto é, eterna e "divina." Tudo que teve um começo estava obrigado a ter um fim. Em outras palavras,para um grego, a "imortalidade da alma" imediatamente implicaria em sua "eternidade," isto é, uma "pré-existência" eterna. Só o que não tivesse começo poderia durar para sempre. Os Cristãos não poderiam compactuar com essa assunção "filosófica," já que eles acreditavam em Criação, e vai dai, eles tinham que negar a "imortalidade" (no sentido grego da palavra). A alma não é um ser independente ou auto-governado, mas precisamente uma criatura, que deve sua própria existência a Deus, o Criador. Conseqüentemente, ela não pode ser "imortal" por natureza, isto é, por si própria, mas somente por "prazer de Deus," isto é, por graça. O argumento "filosófico" para a imortalidade "natural" foi baseado na "necessidade" da existência. Ao contrário, dizer que o mundo é "criado" é enfatizar, em primeiro lugar, sua radical contingência, e precisamente — uma contingência na ordem da existência. Em outras palavras, um mundo criado é um mundo que poderia não ter existido de todo. Isso quer dizer que o mundo é,completa e inteiramente, ab alio, e em nenhum sentido a se. Como Gilson coloca, "há alguns seres que são radicalmente diferentes de Deus ao menos porque, diferente Dele, eles poderiam não ter existido, e ainda podem, num certo momento,cessar de existir." "Poder cessar," no entanto, não significa necessariamente, "cessará (realmente)" São Justino não era um "condicionalista," e seu nome foi invocado pelos defensores de uma "imortalidade condicional" em vão. "Eu não digo, seguramente, que todas as almas morrem." O argumento todo era polêmico, e seu propósito era reforçar a crença na Criação. Nós encontramos o mesmo raciocínio em outros escritos do século segundo. Sã Teófilo de Antioquia insistiu no caráter "neutro" do Homem. "Por natureza" o Homem não é nem "imortal" nem "mortal," mas "capaz de ser os dois," dektikon amfoteron. "Pois se Deus tivesse feito o homem imortal do começo, Ele teria feito ele Deus." Se o homem desde o começo tivesse escolhido coisas imortais, em obediência aos comandos de Deus, ele teria sido recompensado com imortalidade e teria se tornado Deus, "um Deus adotivo" deus assumptus, Theos anadihthis (Ad Autolycum II, 24 e 27). Taciano foi ainda mais longe. "A alma não é imortal em si, ó gregos, mas mortal. Entretanto é possível para ela não morrer" (Oratio ad Graecos, 13). O pensamento dos primeiros Apologistas não estava livre de contradições, nem era sempre expresso acuradamente. Mas o ponto principal estava sempre claro: o problema da imortalidade humana tinha que ser encarado no contexto da doutrina da Criação Pode-se dizer também: não somente como um problema metafísico, mas também e antes de tudo, como um problema religioso. "Imortalidade" não é um atributo da alma, mas alguma coisa que no fim depende da real relação do homem com Deus, seu Mestre e Criador. Não só o destino definitivo do homem só pode ser adquirido em comunhão com Deus, como até a própria existência do homem e sua "sobrevivência" ou continuação dependem da vontade de Deus. Santo Irineu continuou a mesma tradição. Em sua luta contra os Gnósticos ele tinha um motivo especial para enfatizar o caráter de criatura da alma. Ela não veio de "outro mundo," isenta de corrupção; ela pertence precisamente a esse mundo criado. Foi afirmado, diz Santo Irineu, que para as almas estarem em existência elas tinham que ser "não-geradas" (sed oportere eas aut innascibiles esse ut sint immortales), pois de outra forma elas teriam que morrer com o corpo (vel si generationis initium acceperint, cum corpore mori). Ele dispensa esse argumento. Como criaturas, as almas "duram tanto quanto Deus quiser que elas durem" (perseverant autem quoadusque eas Deus et esse, et perseverare voluerit). Perseverança aqui obviamente corresponde ao grego:diamoni, Santo Irineu usa quase as mesmas frases que as de São Justino. A alma não é vida per si; ela participa da vida, pela concessão de Deus (sic et anima quidem non est vita, participatur autem a Deo sibi praestitam vitam). Só Deus é Vida e o único Doador de Vida (Adversus haereses II, 34) Até Clemente de Alexandria, apesar de seu Platonismo, lembrava ocasionalmente que a alma não era imortal "por natureza" (Adumbrationes em I Petri 1:9: hinc apparet quoniam non est naturaliter anima incorruptibilis, sed gartia Dei ... perficitur incorruptibilis). Santo Atanásio demonstraria a imortalidade da alma por argumentos que podem ser rastreados até Platão (Adv. Gentes, 33), e ele ainda insistiu com força no fato de que tudo que é criado é "por natureza" instável e sujeito a destruição (ibidem, 41; fysin revstin usan ke dialyomeni). Mesmo Santo Agostinho estava consciente da necessidade de qualificar a imortalidade da alma: Anima hominis immortalis est secundum quendam modum suum; non enim omni modo sicut Deus (Epist. VFF, ad Hieronymum). "De acordo com a mutabilidade dessa vida, pode ser dito ser ela mortal" (Em Jo., tr. 23, 9; cf. De Trinitate, 19.15, e De Civ. Dei, 19.3: mortalis in quantum mutabilis). São João Damasceno diz que até os Anjos são imortais não por natureza, mas somente pela graça (De fide orth. II, 3; u fysi alla hariti), e prova isso mais ou menos da mesma forma que os Apologistas (Dial. c. Manich.,21). Nós encontramos a mesma afirmação enfática na carta "sinódica" de São Sofrônio, o Patriarca de Jerusalém (634), que foi lida e recebida favoravelmente no Sexto Concílio Ecumênico (681). Na parte final de sua carta Sofrônio condena os erros dos Origenístas, a pré-existência da alma e apokatastasis, e coloca claramente que "seres intelectuais" (ta noita), apesar de não morrerem (thniski de udemos), mesmo assim "não são imortais por natureza," mas somente pela graça de Deus (Mansi, XI, 490-492; Migne, 87.3, 3181). Deve ser acrescentado que mesmo no século XVII essa tradição inicial não foi esquecida no Oriente, e nós temos um relato contemporâneo interessante de uma disputa entre dois Bispos gregos de Creta exatamente sobre essa questão: se a alma era imortal "por natureza" ou "por graça." Devemos concluir: Quando discutimos o problema da imortalidade de
um ponto-de-vista Cristão, devemos manter em mente a natureza
de criatura da alma. A própria existência da alma é
contingente, isto é, como se fosse, "condicional."
É condicionada pelo criativo fiat de Deus. Porém,
uma existência dada, isto é, uma existência que
não está necessariamente implicada na "essência,"
não é necessariamente transiente. O criativo fiat
é um ato livre mas definitivo de Deus. Deus criou o mundo
simplesmente para existência: (ektise gar is to ine ta panda
Sabed. 1: 14). Não há previsão quanto à
revogação desse decreto criativo. A ponta dessa antinomia
está exatamente aqui: o mundo teve um começo contingente,
porém sem fim. Ele permanece pela vontade imutável
de Deus. Através de séculos, até o nosso tempo, o Platonismo tem sido a filosofia favorita de sábios Cristãos. Não é nosso propósito agora explicar como isso pode acontecer. Mas esse infeliz malentendido (para não dizer mais) resultou em uma grande confusão no pensamento moderno sobre morte e imortalidade. Nós ainda podemos usar a antiga definição de morte: é uma separação do corpo e da alma, psyhi horismos apo thomatos (Nemesius, De natura hominis, 2; ele cita Chrysippus). Para os gregos era uma liberação, um "retorno" para a esfera nativa dos espíritos. Para os Cristãos era a catástrofe, uma frustração da existência humana. A doutrina grega da imortalidade nunca poderia resolver o problema Cristão. A única solução adequada foi oferecida pela mensagem da Ressurreição de Cristo e pela promessa da Ressurreição Geral dos mortos. Se nós nos voltamos novamente para a antigüidade Cristã, nós encontramos esse ponto feito claramente em data muito cedo. São Justino era bastante enfático nesse ponto. "As pessoas que dizem que não há ressurreição da morte, e que suas almas, quando elas morrem, são levadas para o céu, não são Cristãs de todo" (Dialog 80). O autor desconhecido do tratado Sobre Ressurreição (tradicionalmente atribuído a São Justino) coloca o problema com muita exatidão. "O que é o homem senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma por si só o homem? Não, mas s&oac |