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Vicariato
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Arcipreste George Florovsky(1893-1979) A questão da natureza e significado das divisões e seitas na Igreja foi posta em toda sua agudeza tão cedo quanto as antigas disputas batismais do século terceiro. Naquele tempo, São Cipriano de Cartago desenvolveu com corajosa consistência uma doutrina da completa ausência de graça em todas as seitas, precisamente como uma seita. O significado completo e toda ênfase lógica de seu arrazoado está na convicção de que os sacramentos são estabelecidos na Igreja. Isso quer dizer que, eles são efetivados e só podem ser efetivados na Igreja, em comunhão e em comunidade. Assim, qualquer violação da comunidade e unidade em si conduz imediatamente para além de da última barreira para algum decisivo ‘estar fora.’ Para São Cipriano todo cisma é uma partida para fora da Igreja, para fora da terra santa e santificada onde só nela nasce a primavera batismal, as águas da salvação, quia una est aqua in ecclesia sancta ( Epístola, lxxi,2). O ensinamento de São Cipriano quanto à ausência de graça nas seitas é só o lado oposto de seu ensinamento acerca da unidade e comunidade. Esse não é o lugar nem momento para recolher e relatar as deduções e provas de São Cipriano. Cada um de nós se lembra delas e as conhece, e é levado a conhece-las e levado a se lembrar delas. Elas não perderam a força nesses dias atuais. A influência histórica de São Cipriano foi contínua e poderosa. Falando estritamente, em suas premissas teológicas o ensinamento de São Cipriano nunca foi desaprovado. Mesmo Agostinho não estava muito longe de São Cipriano. Ele argumentou com os Donatistas, não com o próprio São Cipriano, e não tentou refutar esse último; na verdade, seu argumento foi mais sobre medidas e conclusões práticas. Em seu arrazoado sobre a unidade da Igreja, sobre a unidade de amor como uma condição necessária e decisiva para o poder salvador dos sacramentos, Agostinho, na verdade, simplesmente repete São Cipriano com novas palavras. Mas as conclusões práticas tiradas por São Cipriano não foram aceitas e sustentadas pela consciência da Igreja. Pode-se perguntar como isso foi possível, se suas premissas nunca foram nem disputadas nem postas de lado. Não há necessidade de se entrar em detalhes das relações canônicas da Igreja com sectários e heréticos; é uma história imprecisa e envolvente o suficiente. É suficiente afirmar que há ocasiões em que, por suas próprias ações, a Igreja dá a entender que os sacramentos dos sectários — e mesmo dos heréticos —são válidos, que os sacramentos podem ser celebrados fora dos estritos limites canônicos da Igreja. A Igreja costumeiramente recebe aderentes vindos de seitas — ou mesmo de heresias — não por meio do batismo, significando ou supondo por isso, que obviamente eles já foram realmente batizados em suas seitas ou heresias. Em muitos casos a Igreja recebe aderentes até mesmo sem crisma, e às vezes até clero em suas ordens existentes. Além de tudo isso tem que ser entendido e explicado como reconhecimento da validade ou realidade dos correspondentes ritos realizados ‘fora da Igreja.’ Se sacramentos são realizados, no entanto, isso só pode ser por virtude do Espírito Santo, e regras canônicas então estabelecem ou revelam um certo paradoxo místico. Baseado no fato de que a Igreja dá testemunho da extensão de seu território até além dos seus limites canônicos, conclui-se que o ‘mundo exterior’ não começa imediatamente. São Cipriano estava certo: os sacramentos só são realizados na Igreja. Mas ele definiu isso ‘apressadamente’ e muito estreitamente. Não deveríamos, então, argumentar na direção oposta? Onde os sacramentos são realizados, lá está a Igreja. São Cipriano começou da suposição silenciosa de que os limites canônicos e carismáticos da Igreja invariavelmente coincidem, e é essa não provada equação que não foi confirmada pela consciência comunitária da Igreja. Como um organismo místico, como o Corpo Sacramental de Cristo, a Igreja não pode ser adequadamente descrita somente em termos ou categorias canônicas. É impossível estabelecer ou discernir os verdadeiros limites da Igreja, simplesmente por sinais ou marcas canônicas. Com muita freqüência as fronteiras canônicas determinam as fronteiras carismáticas também, e o que é ligado na terra é ligado por uma indissolúvel ligação ao céu. Mas nem sempre. E ainda com mais freqüência, não imediatamente. Em seu ser sacramental, misterioso, a Igreja ultrapassa todas as normas canônicas. Por essa razão, um corte canônico não significa imediatamente empobrecimento místico e desolação. Tudo que São Cipriano disse sobre a unidade da Igreja e dos sacramentos pode e deve ser aceito. Mas não é necessário desenhar com esses elementos o contorno final ao redor do corpo da Igreja somente por meio de pontos canônicos. Isso levanta uma questão geral e uma dúvida. São todas essas regras e atos canônicos sujeitos a uma generalização teológica? É possível estabelecer para eles bases teológicas ou dogmáticas? Ou eles, na verdade, representam somente prudência pastoral e indulgência? Não deveríamos entender o modo de ação canônico como um silêncio indulgente a respeito da ausência-de-graça, mais do que como um reconhecimento da realidade ou validade dos ritos cismáticos? E se for assim, é então razoavelmente prudente citar ou introduzir fatos canônicos em um argumento teológico? Essa objeção é ligada com a teoria do que é chamado de ‘economia’ (oikonomia). No uso geral eclesiástico ‘economia’ é um termo de muitos significados. Em seu sentido mais amplo a palavra abarca e significa o trabalho todo de salvação (cf. Coloss. 1:25; Efes. 1:10; 3:2-9). A Vulgata normalmente traduz esse termo por dispensatio. Em linguagem canônica ‘economia’ não se tornou um termo técnico. É mais uma palavra descritiva, uma espécie de característica geral: ‘economia é oposto a ‘severidade’(na Igreja, em português ‘acribia,’ akribeia) como uma espécie de afrouxamento da disciplina da Igreja, uma isenção ou exceção da ‘regra estrita’ (ous strictum) ou da regra geral. O motivo determinante da ‘economia’ é precisamente ‘filantropia,’ paciência pastoral, um cálculo pedagógico — a dedução é sempre de utilidade prática. ‘Economia’ é um aspecto da consciência pedagógica mais do que da consciência canônica. ‘Economia’ pode e deve ser aplicada por cada pastor individual em sua paróquia, ainda mais por um bispo ou concílio de bispos. Pois ‘economia’ é pastoral e pastoral é ‘economia.’ Nisso está toda a força e vitalidade do princípio ‘econômico’ — e também suas limitações. Nem toda questão pode ser colocada e respondida em termos de ‘economia.’ Deve-se perguntar, então, se é possível tratar a questão do batismo dos sectários e heréticos como uma questão somente de ‘economia.’ Certamente, enquanto for uma questão de salvar almas perdidas para a verdade Católica, de traze-las para o ‘mundo da verdade,’ então qualquer curso de ação deve ser ‘econômico’; isto é, pastoral, compassivo, amoroso. O pastor deve deixar os noventa e nove e procurar a ovelha perdida. Mas por essa razão mesmo, a necessidade é pela maior e completa sinceridade e clareza direta. Não só é requerida inequívoca acurácia, rigor e clareza — na verdade, acribia (akribeia) — na esfera do dogma (como, de outra forma, pode ser obtida unidade de mente?), mas acurácia e clareza são necessárias acima de tudo em diagnóstico místico. Precisamente por essa razão a questão dos ritos dos sectários e heréticos deve ser perguntada e respondida em termos da mais estrita acribia. Pois aqui não tanto uma quaestio iuris (questão jurídica) quanto uma quaestio facti (questão de fato), e, na verdade, um fato místico, uma realidade sacramental. Não é uma questão de ‘reconhecimento’ tanto quanto uma questão de diagnóstico; é necessário identificar e discernir realidades místicas. Muito menos é a aplicação de ‘economia’ para tal questão compatível com o ponto-de-vista radical de São Cipriano. Se além dos limites canônicos da Igreja, o deserto sem graça começa imediatamente, e se os cismáticos não foram batizados e ainda habitam nas trevas que precedem o batismo, então, perfeita clareza, severidade e firmeza são ainda mais necessárias e indispensáveis nos atos de julgamento da Igreja. Aqui nenhuma ‘indulgência’ é apropriada ou mesmo permissível. É de fato concebível que a Igreja devesse receber sectários ou heréticos em seu próprio corpo não por meio do batismo, simplesmente para tornar seus passos decisivos mais fáceis? Isso certamente seria uma complacência muito temerária e perigosa. Pois, ela seria conivente com a fraqueza humana, com amor-próprio, e falta de fé, uma conivência ainda mais perigosa por criar a aparência de um reconhecimento pela Igreja que os sacramentos e ritos cismáticos são válidos, não só na mente dos cismáticos ou pessoas de fora, como na consciência da maioria das pessoas da Igreja e até mesmo de seus líderes. Além disso, esse modo de ação é aplicado porque ele cria essa aparência. Se de fato, a Igreja estivesse completamente convencida de que nas seitas e heresias o batismo não é realizado, para que fim ela receberia cismáticos sem batismo? Seguramente não para simplesmente salva-los por esse passo, da falsa vergonha de confessarem abertamente que eles não tinham sido batizados. Pode esse motivo ser considerado honorável, convincente e de boa reputação? Pode ele beneficiar os que chegam, reunindo-os através de ambigüidades e supressão da verdade? Para a razoável pergunta se seria ou não possível, por analogia, unir judeus e muçulmanos à Igreja por ‘economia’ e sem batismo, o Metropolita Anthony (Khrapovitsky) respondeu com completa candura: ‘Ah! mas todos tais neófitos — e até mesmo aqueles batizados no nome de Montanus e Priscilla — não iriam eles mesmos pleitear entrar na Igreja sem imersão e sem a proclamação das palavras: ‘Em nome do Pai etc...’ Tal pleito só poderia ser feito por um confuso entendimento da graça da Igreja por aqueles sectários e cismáticos cujo batismo, louvação e sistema hierárquico diferissem externamente pouco daqueles da Igreja. Seria muito insultante para eles, por sua vez, que em seu retorno à Igreja, tivessem que se sentar com pagãos e judeus. Por essa razão, a Igreja, indulgente com a fraqueza deles, não realizou com eles o ato externo do batismo, mas deu a eles sua graça pelo segundo sacramento.’ (Fé e Razão,1916, 8-9, pgs. 887-888). Do argumento do Metropolita Anthony, o senso comum tiraria precisamente a conclusão oposta. para conduzir ‘neófitos’ fracos e sem raciocínio para o ‘claro entendimento da graça da Igreja’ que eles não têm, seria, mais do que tudo, necessário e apropriado realizar com eles o ato externo do batismo, ao invés de dar a eles, e a muitos outros, por uma fingida acomodação à suas ‘suscetibilidades,’ não só uma desculpa mas também um campo eles próprios se iludirem através do fato equívoco que seu ‘batismo, louvação e sistema hierárquico pouco externamente daqueles da Igreja.’ Pode-se perguntar quem deu à Igreja esse direito de não somente mudar, mas simplesmente abolir o ato externo do batismo, realizando-o em tais casos só mentalmente, por implicação ou intenção na celebração do segundo ‘sacramento’ (isto é, crisma) sobre o não-batizado. Admissivelmente, em casos especiais e excepcionais o ‘ato externo,’ a ‘forma,’ pode, de fato, ser abolida; tal é o caso do batismo do mártir em sangue, ou mesmo do assim chamado baptisma flaminis (batismo nas chamas). Mas isso é admissível somente em casu necessitatis (caso de necessidade). Além disso, não há nenhuma analogia entre esses casos e uma conivência sistemática com a sensibilidade e auto-ilusão dos outros. Se ‘economia’ é paciência pastoral que leva a vantagem da salvação das almas humanas, então nesses casos só se poderia falar de ‘economia reversa.’ Seria um deliberado retrocesso para o equívoco e obscuridade por conta de um sucesso puramente externo, já que a recepção na Igreja de ‘neófitos’ não pode ter lugar com tal encobrimento. É escassamente possível atribuir à Igreja intenção tão perversa e ladina. E de qualquer forma, o resultado prático dessa ‘economia’ deve ser considerado totalmente inesperado. Pois na própria Igreja surgiu a convicção entre a maioria de que sacramentos são realizados mesmo entre cismáticos, e que mesmo nas seitas, há uma hierarquia válida, apesar de proibida. A verdadeira intenção da Igreja em seus atos e regras pareceria ser muito difícil de discernir, e desse ponto-de-vista assim como das explicações ‘econômicas’ dessas regras não pode ser encarada como convincente. A explicação econômica cria ainda maiores dificuldades quando nós consideramos suas premissas teológicas. Só se pode atribuir escassamente à Igreja o poder e o direito, como se fosse, de converter o ‘não-tem sido’ em ‘tem-sido,’ para mudar o ‘sem-sentido’ em ‘válido,’ como o Professor Diovuniotis o expressa (Church Quarterly Review, nº 231 [abril 1931, p. 97] ‘de acordo com a economia.’ Isso daria uma particular agudeza para a questão se é ou não possível receber clero cismático ‘em suas posições preexistentes.’ Na Igreja Russa aderentes do Catolicismo ou dos Nestorianos,etc., são recebidos em comunhão ‘através de retratação da heresia,’ isto é, através do sacramento do arrependimento. Ao clero é dada uma absolvição por um bispo, e por ai, a inibição que há num clérigo cismático é removida. Pergunta-se se é concebível que nessa liberação e absolvição de pecado haja também, realizados silenciosamente — e mesmo secretamente —batismo, confirmação, ordenação como diácono ou presbítero, e às vezes até mesmo sagração de bispo, sem nenhuma ‘forma’ ou claro e distintivo ‘ato externo’ que pudesse nos habilitar a notar e considerar, que sacramentos estão sendo realizados. Aqui há um duplo equívoco, tanto da posição do motivo quanto da posição do fato em si. Pode alguém, em resumo, celebrar um sacramento em virtude só de ‘intenção’ e sem um ato visível? Lógico que não. Não porque pertença à ‘forma’ algum efeito auto-suficiente ou mágico, mas precisamente porque na celebração de um sacramento o ‘ato externo’ e o jorrar da graça são, em substância, indivisíveis e inseparáveis. certamente, a Igreja é a ‘despenseira da graça’ e à ela é dado o poder de preservar e ensinar esses dons de graça. Mas o poder da Igreja não se estende até as próprias bases da existência Cristã. é inconcebível que a Igreja possa ter o direito, ‘por conta da economia,’ de admitir para funções clericais sem ordenação o clero de confissões cismáticas, até daqueles que não preservaram a ‘sucessão’ apostólica, remediando não só todos os defeitos mas também uma completa falta de graça, e concedendo poder e reconhecimento por meio de uma ‘intenção’ não expressada. Em tal interpretação o sistema sacramental todo da Igreja torna-se muito frouxo e elástico. Khomiakov, também, não foi suficientemente cuidadoso, quando, defendendo a nova prática grega de receber Latinos pelo batismo, ele escreveu a Palmer que ‘todos os sacramentos são completados somente no seio da verdadeira Igreja e não interessa se eles serão completados de uma forma ou outra. Reconciliação (com a Igreja) renova os sacramentos ou os completa, dando um completo e Ortodoxo significado para o rito que foi antes, fosse insuficiente ou heterodoxo, e a ‘repetição’ dos sacramentos precedentes está virtualmente contida no rito ou fato da reconciliação. Portanto, a repetição visível do batismo ou confirmação, apesar de desnecessária, não pode ser considerada com errônea, e só estabelece uma diferença ritual sem qualquer diferença de opinião’ (Russia and the English Church, cap. VI, p. 62). Isso é impossível. A ‘repetição’ de um sacramento é não só supérflua como impermissível. Se não havia sacramento ou o que havia sido realizado previamente fora em um rito imperfeito, herético, o sacramento deve ser realizado pela primeira vez — e com completa sinceridade e candura. Em todo caso, os sacramentos Católicos não são simples ‘ritos’ e não é possível tratar o aspecto externo de uma celebração sacramental com tal relativismo disciplinar. A interpretação ‘econômica’ dos cânones tem que ser provável e convincente, mas só na presença de provas diretas e perfeitamente claras, visto que é geralmente apoiada por dados indiretos e muito freqüentemente por intenções e conclusões indiretas. A interpretação econômica não é o ensinamento da Igreja. É somente uma ‘opinião teológica’ privada, muito tardia e controversa, que surgiu num período de confusão e decadência teológica num esforço apressado para se dissociar, tanto quanto possível, da teologia Romana. A teologia romana admite e reconhece que permanece em seitas uma hierarquia válida e até, num certo sentido, a ‘sucessão apostólica,’ de maneira que, sob certas condições, sacramentos podem ser realizados — e realmente são realizados — entre cismáticos e até mesmo entre heréticos. As premissas básicas dessa teologia sacramental já haviam sido estabelecidas com suficiente definição pelo Bem aventurado Agostinho, e os teólogos Ortodoxos têm toda razão para levar a teologia de Agostinho em conta, em sua síntese doutrinal. A primeira coisa a notar em Agostinho é o modo orgânico pelo qual ele relaciona a questão da validade dos sacramentos com a doutrina da Igreja. A realidade dos sacramentos celebrados pelos cismáticos significa para Agostinho a continuação de suas ligações com a Igreja. Ele afirma diretamente que nos sacramentos dos sectários a Igreja está ativa: alguns ela engendra em si própria, outros elas engendra fora de si própria, de sua virgem-serva, e o batismo cismático é válido por essa razão, tanto quanto o batismo realizado pela Igreja (de bapt. i, 15, 23). O que é válido nas seitas é o que nelas é da Igreja, o que permanece com elas como uma parte do sagrado núcleo interno da Igreja, através do que elas estão com a Igreja. In quibusdam rebus nobiscum sunt. A unidade da Igreja é baseada em uma dupla ligação — a ‘unidade do Espírito’ e a ‘ligação de paz’ (cf. Efes. 4:3). Nas seitas e cismas a ‘ligação |