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   Excertos de "Cristianismo e Cultura" (Parte 1)

Arcipreste George Florovsky(1893-1979)
Tradução: Rev. Pedro Oliveira Junior.


Fé e Cultura.
Nós estamos vivendo num mundo mudado e em mutação. Isso não pode ser negado nem por aqueles do nosso meio que não desejam ou estão despreparados para mudarem eles próprios e que querem permanecer nesse período que está passando rapidamente. Mas ninguém pode fugir do desconforto de pertencer a um mundo em transição. se nós aceitamos a classificação tradicional de períodos históricos em "orgânicos" e "críticos," não há dúvida que nossa época presente é uma época crítica, uma época de crise, uma época de tensões não resolvidas. Ouve-se, com muita freqüência, nos nossos dias, sobre "o Fim do Nosso Tempo," sobre "o Declínio do Ocidente," sobre "Civilização em Julgamento" e outras expressões desse tipo. É mesmo sugerido às vezes que provavelmente nós estamos passando agora pela "Grande Divisão," pela maior mudança na história da civilização, que é muito maior e mais radical que a modificação da Antigüidade para a Idade Média, ou da Idade Média para os Tempos Modernos. Se o que foi afirmado por Hengel, que "a História é Julgamento" (Die Weltgeschichte ist Weltgerichte), é verdadeiro, então há algumas épocas fatais, quando a história não somente julga, mas também dá a si própria uma sentença de condenação. Nós somos persistentemente lembrados, por especialistas e profetas, que as civilizações crescem e decaem, e não há qualquer razão especial para esperar que nossa civilização venha a escapar desse destino comum. se há qualquer futuro histórico, pode muito bem acontecer que este futuro esteja reservado para outra civilização, e provavelmente para uma que será muito diferente da nossa.

É muito comum em nossos dias, e na verdade está muito na moda, dizer-se que nós já estamos vivendo num "mundo pós-Cristão" — seja qual for o significado dessa pretensiosa frase — num mundo que subconscientemente ou deliberadamente, "retirou-se" ou apartou-se do Cristianismo. "Nós vivemos nas ruínas de civilizações, esperanças, sistemas e almas."Não só nós nos encontramos em encruzilhadas, nas quais o caminho certo parece incerto, como, além disso, muitos de nós questionamos se existe um caminho certo, e se há qualquer perspectiva de encontrá-lo. Não se encontraria nossa civilização num impasse para o qual não há saída, a não ser à custa de uma explosão? Agora, qual a razão do problema? Qual é a causa primária ou definitiva desse colapso iminente e aterrador? É somente um "colapso nervoso" como às vezes é sugerido, ou é então uma "doença mortal," uma doença do espírito, a perda da fé? Não há consenso neste ponto. No entanto, parece haver um considerável consenso de que nosso mundo cultural foi de algum modo desorientado e descentralizado espiritualmente e desorientado e desorganizado intelectualmente, de tal forma que nenhum princípio todo-abrangente que fosse capaz de manter todos os elementos mutáveis juntos,foi deixado. Como Cristãos nós podemos ser mais enfáticos e precisos. Nós afirmaríamos que é precisamente a moderna retirada do Cristianismo, seja qual for a data exata do seu início histórico, que está no âmago de nossa presente crise. Nossa época é, antes de tudo, uma época de descrença, e por essa razão uma época de incerteza, confusão e desespero. Há, em nosso tempo, tantos e tantos que não tem esperança, precisamente porque perderam toda a fé.

Nós não deveríamos, no entanto, fazer essas afirmações muito facilmente, e deveríamos ter cautela em pelo menos dois pontos. Primeiro, as causas e motivos dessa óbvia "retirada" foram complexas e variadas, e a culpa não pode ser atribuída somente àqueles que se retiraram. Em humildade Cristã, os fiéis não deveriam se exonerar incondicionalmente, e não se dispensar muito sumariamente, deixando toda responsabilidade pelas falhas com os outros. Se nossa cultura, que nós como Cristãos, costumamos olhar com muita complacência, se desintegra e cai aos pedaços, ela só mostra que a semente da corrupção já estava ali. Segundo, nós não deveríamos olhar todos os fiéis como construtivos em si, e nem deveríamos receber todas as crenças como antídoto contra dúvida e ruptura. Pode ser perfeitamente correto, como os sociólogos afirmam, que as culturas se desintegram quando não existe incentivo inspirador, nem convicção motivadora. Mas, é o conteúdo da fé que é decisivo, ao menos do ponto-de-vista Cristão. O perigo maior em nossos dias é que há excessivas "crenças" conflitantes. A maior tensão não está tanto entre "crença" e "não crença," mas está precisamente entre crenças rivais. Excessivos "Evangelhos estranhos" são pregados, e cada um deles exige total obediência e fiel submissão; até mesmo a ciência, às vezes posa de religião. Pode ser certo que a crise moderna possa ser rastreada até a perda de convicções. Seria desastroso, no entanto, se o povo se reunisse em torno de uma falsa bandeira, e hipotecasse lealdade a uma fé errada. A raiz real da tragédia moderna não está só no fato de que o povo perdeu convicções, mas sim no fato que eles desertaram Cristo.

Agora, quando nós falamos de "crise de cultura," o que de fato isso significa? A palavra "cultura" é usada em vários significados diferentes e não há definição comumente aceita. De um lado, "cultura" é uma específica atitude ou orientação de indivíduos ou de grupos humanos, pela qual nós distinguimos a sociedade "civilizada" da "primitiva." É ao mesmo tempo um sistema de objetivos e interesses, e um sistema de hábitos. De outro lado, "cultura" é um sistema de valores, produzidos e acumulados no processo criativo da história, e tendente a obter uma existência semi-independente, isto é, independente daquele esforço criativo que originou ou descobriu esses valores. Os valores são variados e diversos e provavelmente nunca são integrados completamente num todo coerente-maneiras polidas e que tais, instituições políticas e sociais, industria, adoção de medidas sanitárias, ética, arte e ciência e assim por diante. Portanto, quando falamos de crise de cultura, usualmente estamos mencionando uma desintegração em um, ou nos dois sistemas diferentes e não obrigatoriamente relacionados. Pode acontecer que alguns dos valores aceitos ou considerados, sejam desacreditados e comprometidos, isto é, deixem de funcionar e não mais atraiam os homens. Ou ainda, acontece às vezes, que o próprio ‘homem civilizado" degenera ou até desaparece de todo, hábitos culturais se tornam instáveis, ou os homens perdem interesse por esses hábitos, ou se cansem deles. então uma incitação pelo primitivismo pode emergir, e só talvez dentro do arcabouço de uma civilização duradoura. Uma civilização declina quando aquele impulso criativo que na origem a trouxe à existência, perde seu poder e espontaneidade. Então surge a questão, se "cultura" é relevante para o preenchimento da personalidade humana, ou não é nada mais do que um traje exterior que pode ser necessário em certas ocasiões, mas que não pertence organicamente à essência da natureza humana, e nós normalmente distinguimos entre "natureza" e "cultura," implicando que "cultura" é uma criação "artificial" do homem que ele superimpõe sobre a "natureza," apesar de parecer que de fato nós não conhecemos a natureza humana separada de cultura, ao menos de algum tipo de cultura.Pode ser afirmado que "cultura" na verdade não é "artificial," que é, isso sim, uma extensão da natureza humana, uma extensão pela qual a natureza humana adquire sua maturidade e completamento, de maneira que uma existência "sub-cultural" é de fato um modo de existência "sub-humano." Não é verdade que um homem "civilizado" é mais humano que um homem "primitivo" ou "natural"? É precisamente nesse ponto que nossa maior dificuldade se coloca.

Pode ser perfeitamente verdadeiro, como eu pessoalmente acredito ser o caso, que nossa cultura ou civilização contemporânea esteja "em teste." Mas deveriam os Cristãos, como Cristãos, estarem preocupados com essa crise cultural? Se é verdade, como acabamos de admitir, que o colapso ou declínio da cultura está enraizado na perda da fé, numa "apostasia" ou "retirada," não deveriam os Cristãos estarem preocupados, principalmente ou mesmo exclusivamente, com a reconstrução da crença ou com a reconversão do mundo, e não com a salvação de uma civilização naufragante? Se nós estamos passando, de fato, em nossos dias, por um teste "apocalíptico," não deveríamos concentrar nossos esforços em Evangelização, na proclamação do Evangelho para uma geração esquecida disso, na pregação de penitência e conversão? A questão principal parece ser: se a crise pode ser resolvida se nós simplesmente opusermos a uma civilização gasta e rompida, uma nova civilização, ou se, para superar a crise, nós devemos ir muito além da civilização e alcançarmos as verdadeiras raízes da existência humana. Mas, se nós formos além da civilização, esse movimento não mostraria ser cultura desnecessária e supérflua? Estaria alguém necessitado ou interessado em cultura, quando esse alguém encontra o Deus Vivo, Aquele Que só Ele deve ser adorado e glorificado? Não é então, toda e qualquer "civilização" no fim, nada mais que um sutil e refinado tipo de idolatria, uma atenção e problemas com "muitas coisas," por coisas demais, enquanto existe só uma "boa parte," que nunca será tomada, mas que continuará "no além" pelos séculos dos séculos. De fato, não deveriam aqueles que encontraram a "pérola preciosa" ir em frente e vender todos os seus outros bens? E não seria precisamente uma infidelidade e deslealdade esconder e manter todas essas outras possessões? Não deveríamos simplesmente entregar todos "valores humanos" nas mãos de Deus?

Esse questionamento foi por séculos a maior tentação de muitas almas sinceras e devotas. Todas essas questões estão sendo levantadas e discutidas intensamente em nossos dias. Nós dizemos: tentação. Mas é justo usarmos essa palavra desqualificante? Não é, isso sim, um postulado do qual não se escapa, o da auto-renuncia integral, que é o primeiro pré-requisito e base da obediência Cristã? De fato, dúvidas sobre culturas e seus valores aparecem e emergem não só nos dias de grandes testes históricos e crises. Elas aparecem, com freqüência, também em períodos de paz e prosperidade, quando alguém se acha no perigo de vir a ser escravizado e seduzido pelas conquistas humanas, pelas glórias e triunfos da civilização. Elas aparecem com freqüência no processo íntimo e pessoal de procura por Deus. A auto-renuncia radical pode conduzir pessoas devotas aos desertos, às cavernas da terra, fora do "mundo civilizado," e cultura pareceria a elas como vaidade, vaidade das vaidades, mesmo que se alegue que essa cultura se cristianizou, pelo menos na forma, senão em essência. Seria correto deter esses irmãos devotos, em sua resoluta busca da perfeição, e retê-los no mundo, compeli-los a participar na construção ou reforma daquilo que para eles nada mais é do que uma Torre de Babel? Estamos preparados para desautorizar Santo Antônio do Egito ou São Francisco de Assis e convencê-los a permanecer no mundo? Não está Deus radicalmente acima e além de toda cultura? "Cultura," além disso, possui qualquer valor intrínseco? É ela serviço ou jogo, obediência ou distração, vaidade, luxuria e orgulho, ou seja, finalmente, uma armadilha para as almas? Parece óbvio, que cultura não é, e por sua natureza não pode ser, um fim último ou um valor último, e não deveria ser olhada como um último objetivo ou destino do homem, e provavelmente nem mesmo um componente indispensável da verdadeira humanidade. Um "primitivo" pode ser salvo, não menos que um "civilizado." Como coloca Santo Ambrósio, Deus não escolheu salvar Seu povo por argumentos inteligentes. Além disso, cultura não é um bem incondicional. É, isso sim, uma esfera de inevitáveis ambigüidades e envolvimentos. Ela tende a degenerar em "civilização," se nós aceitarmos a distinção entre esses dois termos feita por Oswald Spengler — e o homem pode ser desesperadamente escravizado por ela, como o homem moderno, supostamente está. "Cultura é uma conquista do homem, é uma criação deliberada do próprio homem, mas uma "civilização" realizada, é com muita freqüência, inimiga da criatividade humana. Muitos em nossos dias, e na verdade em todos os tempos, estão dolorosamente cientes dessa tirania da "rotina cultural," do cativeiro da civilização. Pode ser argumentado, como já foi mais de uma vez, que na civilização o homem está, como esteve, "estranho" a si próprio, estranho e desligado das verdadeiras raízes de sua existência, do seu próprio "eu," ou da natureza, ou de Deus. Essa alienação do homem pode ser descrita e definida por numerosas maneiras e meios, tanto de modo religioso, quanto de modo não-religioso. Mas em todos os casos a "cultura" apareceria não só condicionando, mas como sendo ela própria uma condicionante.

Diferentes respostas foram dadas a essas questões no curso da história Cristã, e o problema ainda permanece sem solução. Foi recentemente sugerido, que toda a questão "Cristo e Cultura" é um "problema persistente," que possivelmente não admite nenhum tipo de solução final. É como dizer que diferentes respostas agradarão a diferentes tipos ou grupos de pessoas, tanto"crentes" quanto "não-crentes," e também diferentes respostas parecerão convencedoras em diferentes tempos. A variedade de respostas parece ter um duplo significado. De um lado, elas apontam para a variedade de situações humanas e históricas, nas quais diferentes soluções se imporiam naturalmente. Questões são colocadas e acessadas diferentemente num tempo de paz ou num tempo de crise. Mas de outro lado, desentendimento é o que se pode esperar na "Cristandade Dividida." Seria inútil ignorar a profundidade dessa divisão na Cristandade. O significado do Evangelho em si, é discordantemente entendido nas varias denominações. e no debate acerca de "Cristo e Cultura" nós encontramos a mesma tensão entre os "Católicos" e os "Evangélicos" que está no âmago do "Cisma Cristão." Se nós estamos real e sinceramente preocupados com a "Unidade Cristã," nós deveríamos olhar para uma solução definitiva para essa tensão básica. De fato, nossa atitude para com a "cultura" não é uma opção prática, mas uma opção teológica em primeiro e também último lugar .O recente crescimento do pessimismo histórico-cultural, que os alemães chamam de Kulturpessimismus e Geschichtspessimismus, não só reflete os envolvimentos factuais e confusões de nossa época, mas também revela uma peculiar mudança nas opiniões teológicas e filosóficas. Dúvidas sobre cultura têm um óbvio significado teológico e nascem nas profundezas da fé do homem. Não deveríamos dispensar qualquer desafio sincero muito facilmente e auto-complacentemente, sem simpatia e compreensão. No entanto, sem impor uma solução uniforme, para o que a nossa época não parece estar madura, não se pode evitar descartar certas soluções sugeridas como inadequadas, errôneas e enganadoras.

As modernas oposição e indiferença Cristãs à "cultura" tomam várias formas e moldes. Seria impossível tentar agora uma pesquisa abrangente de todas as formas reais de opinião. Devemos nos limitar a uma lista tentativa, daquelas que parecem ser as mais vocalizadas e relevantes em nossa situação atual. Há uma variedade de motivos e uma variedade de conclusões.Dois motivos especiais parecem concorrer para um desprêzo pelo mundo por muitos Cristãos, em todas as denominações. De um lado, o mundo está passando, e a própria história parece tão insignificante "na perspectiva da eternidade," ou quando relacionada ao destino definitivo do homem. Todos os valores históricos são perecíveis, e também relativos e incertos. A cultura também é perecível, e de nenhum significado na perspectiva do fim iminente. De outro lado, o mundo todo parece ser tão insignificante em comparação com a insondável glória de Deus, como foi revelado no mistério de nossa Redenção. Em certas épocas, e em certas situações históricas, o mistério da Redenção parece obscurecer o mistério da Criação, e a Redenção é encarada mais como uma dispensa do mundo decaído, do que sua cura e recuperação. A oposição radical entre Cristianismo e Cultura, como é apresentada por certos pensadores Cristãos, é mais inspirada por certas pressuposições teológicas e filosóficas, do que por uma análise da cultura em si. Há um crescente sentimento escatológico hoje em dia, ao menos em certos setores. Há também uma crescente desvalorização do homem no pensamento contemporâneo filosófico e teológico, parte em reação ao excesso de autoconfiança da época passada. Há uma redescoberta da "nulidade" humana, da precariedade e insegurança essenciais de sua existência, tanto física quanto espiritual. O mundo parece ser inimigo e vazio, e o homem sente-se perdido no fluxo de acidentes e falhas. Se ainda há qualquer esperança de "salvação," ela é tomada mais no sentido de "escape" e "resistência" do que no sentido de "recuperação" ou "reparação." O que se pode esperar da história?

Podemos considerar vários tipos dessa atitude "pessimista." Os títulos que eu vou usar não são mais do que tentativos e provisórios.

Antes de todos, devemos enfatizar a persistência do motivo Pietista ou Revivalista na moderna desvalorização da cultura. Os homens acreditam que eles encontraram seu Senhor e Redentor em sua experiência pessoal e privada, e que eles foram salvos pela misericórdia Dele e pela resposta deles em fé e obediência. Nada mais é, portanto necessário.

A vida do mundo, e no mundo, parece a eles ser nada além de um emaranhado pecaminoso, fora do qual eles estão satisfeitos e orgulhosos por terem sido liberados. A única coisa que eles têm a dizer a respeito desse mundo, é expor sua vaidade e perversão e profetizar sentença e condenação, e a futura vinda da ira e julgamento de Deus.Pessoas desse tipo podem ser de diferentes temperamentos, às vezes selvagens e agressivos, às vezes suaves e sentimentais. Em todos os casos, no entanto, eles não conseguem ver nenhum significado positivo no contínuo processo da cultura, e são indiferentes a todos os valores da civilização, especialmente para com aqueles que eles não podem justificar do ponto-de-vista utilitário. Pessoas desse tipo pregariam a virtude da simplicidade em oposição à complexidade do envolvimento cultural. Eles podem vir a escolher retirar-se para a privacidade de uma existência solitária, ou de uma estóica "indiferença," ou eles podem preferir um tipo de vida comunitária, em companhia próxima daqueles que compreenderam a futilidade e falta de propósito de toda canseira e esforço histórico. Pode-se descrever essa atitude como sectária, e de fato, há uma deliberada tentativa de fugir de qualquer participação na história comum. Mas essa aproximação "sectária" pode ser encontrada entre pessoas de varias tradições culturais e religiosas. Há muitos que querem "retirar-se do mundo," ao menos psicologicamente, mais para a segurança do que para o "combate não visto."Há, nessa atitude, uma mistura paradoxal de penitência e auto-satisfação, de humildade e orgulho. Há também nessa atitude, um deliberado descuido com, ou indiferença para com,doutrina, e uma inabilidade para pensar consistentemente nas implicações doutrinais dessa atitude "isolacionista." De fato, isso é uma redução radical do Cristianismo, ao menos uma redução subjetiva, no qual ele se torna não mais do que uma religião privada, de indivíduos. O único problema com que essas pessoas se preocupam é o problema da "salvação" individual.

Em segundo lugar, há o tipo "Puritano" de oposição. Há uma "redução similar da crença, usualmente admitida abertamente. Na prática, é um tipo ativo, sem nenhum desejo de fugir da história. Somente que a história é aceita mais como um "serviço" ou "obediência," e não como uma oportunidade criativa Há a mesma concentração no problema da "salvação."

A controvérsia básica é que o homem, esse miserável pecador, pode ser perdoado, se e quando ele aceita o perdão que é oferecido a ele por Cristo e em Cristo, mas mesmo nesse caso ele permanece precisamente o que ele é, uma criatura frágil e inaproveitável, e não é essencialmente mudado ou renovado. Mesmo como uma pessoa perdoada, ele continua como uma criatura perdida, e sua vida não pode ter nenhum valor construtivo. Isso não deve necessariamente conduzir a uma retirada da cultura, ou à negação da história, mas isso faz da história uma espécie de servidão, que deve ser levada adiante e suportada, e não se deve fugir dela, mas suportá-la como um treinamento de caráter e teste de paciência, mais do que um reino de criatividade. Nada é para ser conseguido na história. Mas o homem deveria usar toda oportunidade para provar sua lealdade e obediência e reforçar o caráter por esse serviço de fidelidade, por esse cativeiro de dever. Há uma forte ênfase "utilitária" nessa atitude, se ela é uma "utilidade transcendente," um pronunciamento que diz respeito "à salvação." Tudo que não servir diretamente a esse propósito deve ser descartado, e nenhum espaço é permitido para qualquer "criatividade desinteressada" como, por exemplo, arte ou "belas-letras."

Em terceiro lugar, há o tipo Existencialista de oposição. Seu motivo básico está no protesto contra a escravização do homem na civilização, que só esconde dele o último predicado de sua existência, e obscurece a desesperança do seu emaranhado. Não seria justo negar a relativa verdade do movimento Existencialista contemporâneo e a verdade da reação; e provavelmente, o homem moderno de cultura precisava desse cortante e impiedoso alerta. Em todas as suas formas, religiosas e não religiosas, o Existencialismo expõe a nulidade do homem, do homem real, como ele é e conhece a si próprio. Para aqueles que entre os Existencialistas falharam em encontrar Deus, ou são tolerantes com a negativa ateísta, essa "nulidade" é justamente a última verdade sobre o homem e seu destino. Mas o homem deveria encontrar essa verdade fora de si mesmo. Mas muitos Existencialistas encontraram Deus, ou como eles colocam a respeito de si próprios, foram encontrados por Ele, desafiados por Ele, em Sua indivisa ira e misericórdia. Mas paradoxo suficiente, eles consideram que o homem ainda é "nada," apesar do amor redentor e consideração do Criador por Suas criaturas perdidas e desviadas. Na concepção deles, a "criação" do homem condena-o a ser inextricavelmente nada mais do que "nada," ao menos aos seus próprios olhos, apesar do misterioso fato de que para Deus Suas criaturas são obviamente muito mais do que "nada," já que o amor redentor de Deus moveu-O pelo homem, ao tremendo Sacrifício da Cruz. O Existencialismo parece estar certo em sua crítica à complacência humana, e é até mesmo útil na detecção da pequenez humana. Mas é sempre cego em relação à complexidade da Divina Sabedoria. Um Existencialista é sempre um ser sozinho e solitário, inextricavelmente envolvido no escrutínio de seu predicado. Seus termos de referência são sempre o TODO de Deus, e o NADA do homem. E mesmo no caso em que sua análise começa com uma situação concreta, mesmo que seja pessoal, ele continua, de alguma maneira, in abstracto: em última instância ele não falará de uma pessoa viva,mas sim do homem como homem, porque no fim, todos os homens estão sob a mesma e universal detecção de sua completa irrelevância. Seja qual for a explicação psicológica e histórica para o crescimento recente do Existencialismo, no todo ela nada mais é do que um sintoma de desintegração e desespero.

E finalmente, não deveríamos ignorar a resistência ou indiferença do "Homem Simples." Ele pode viver mui quietamente no mundo da cultura, e até mesmo gostar dele, mas ele se pergunta o que a cultura pode "acrescentar," exceto pelo lado da decoração, ou como um tributo de reverência e gratidão, especialmente na forma de arte.Mas como uma regra, o "homem simples" suspeita com cautela do uso da razão em assuntos de fé e coerentemente dispensará o entendimento das "crenças."Para ele, que valor religioso pode haver num estudo desinteressado de qualquer assunto, que não tenha imediata aplicação prática, e não possa ser usado na distribuição de caridade? O "homem simples" não tem dúvidas sobre o valor ou utilidade da cultura na economia da vida temporal, mas ele hesitará em reconhecer sua relevância na dimensão espiritual, a menos que ela possa afetar ou exibir a integridade moral do homem. Ele não encontrará justificativa religiosa para a necessidade do homem conhecer e criar. Não é, no fim, cultura nada mais que vaidade, uma frágil e perecível coisa, na verdade? E não são as raízes mais profundas do orgulho e arrogância humana precisamente uma decorrência das demandas e ambição da razão? O "homem simples" usualmente prefere "simplicidade" na religião, e não tem interesse naquilo que ele rotula de "especulações teológicas," incluindo aí, muitas vezes, quase todas as doutrinas e dogmas da Igreja. O que está envolvido nessa atitude, é mais uma vez um conceito unilateral(e defeituoso) do homem e da relevância da vida real do homem na história para seu "destino eterno," isto é, o propósito definitivo de Deus. Há uma tendência a acentuar o "caráter de outro mundo" da "Vida Eterna," a tal ponto, que a personalidade humana corre o rico de ser rachada em dois. É a história, em sua inteireza, somente um campo de treinamento para almas e caráteres, ou é alguma coisa mais comprometida no plano de Deus? É o "último julgamento" somente um teste de lealdade, ou também é uma "recapitulação" da Criação?

É aqui que nós estamos tocando na causa mais profunda da constante confusão na discussão sobre "Fé e Cultura." Os mais profundos assuntos teológicos estão envolvidos nessa discussão, e nenhuma solução poderá ser encontrada algum dia, a menos que o caráter teológico dessa discussão seja claramente aceito e entendido. Nós precisamos de uma teologia da cultura mesmo para nossas decisões "práticas." Nenhuma decisão real pode ser tomada no escuro. O dogma da Criação, com tudo em que ele implica, foi perigosamente obscurecido na consciência dos Cristãos modernos, e o concito de Providência, isto é, da perene preocupação do Criador com o destino de sua Criação, foi, na verdade, reduzido gritantemente a algo sentimental e subjetivo. Coerentemente, "História" foi concebida como um enigmático intervalo entre os Poderosos Atos de Deus, para os quais foi difícil atribuir qualquer substância própria. Isso foi de novo ligado com uma concepção inadequada do Homem. A ênfase foi mudada da realização do plano de Deus para o homem, para a liberação do Homem das conseqüências de sua falha "original." E coerentemente, a doutrina toda das Ultimas Coisas foi perigosamente reduzida, e começou a ser tratada nas categorias de justiça forense ou de amor sentimental. O "Homem Moderno" falha em apreciar e acessar a convicção dos primeiros Cristãos, derivada das Escrituras, de que o homem foi criado para um propósito criativo, e era para agir no mundo como rei, sacerdote e profeta dele. A queda ou falha do homem não aboliu esse propósito ou plano, e o homem foi redimido para ser reinstalado no seu nível original e pra reassumir seu papel e função na Criação. É somente fazendo isso, que ele pode tornar-se naquilo que ele foi projetado para ser, não só no sentido de que ele deveria mostrar obediência, mas também para cumprir a tarefa que lhe foi apontada por Deus, em Seu plano criativo, precisamente como a tarefa do homem. Assim como a História não passa de uma pobre antecipação do "tempo que virá," ela é também, no entanto, uma antecipação real, e o processo cultural na história está relacionado com a consumação final, de uma maneira e em um sentido que nós não podemos decifrar adequadamente agora. Devemos ser cautelosos também em não minimizar a vocação criativa do homem. O destino da cultura humana não é irrelevante para o destino último do homem.

Tudo isso pode ser visto como sendo uma ousada especulação, muita além da nossa autoridade e competência. Mas o fato permanece: Cristãos como Cristãos estiveram construindo cultura por séculos,e muitos deles não só com o sentido de vocação ou obrigação de dever, mas com a firme convicção de que isso era a vontade de Deus. Um breve retrospecto do esforço Cristão na cultura pode nos ajudar a ver o problema de uma maneira mais concreta, em sua total complexidade, mas também em toda sua inevitabilidade. Como uma questão de fato, o Cristianismo entrou no mundo precisamente num dos períodos mais críticos da história, no tempo de uma momentânea crise de cultura. E a crise foi finalmente resolvida pela criação da Cultura Cristã, instável e ambígua como essa cultura provou ser, por sua vez, no curso de sua realização.

Continuação...

 

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