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Arcipreste
George Florovsky O Cristianismo entrou para a história como uma nova ordem social, ou melhor, uma nova dimensão social. Desde o seu início o Cristianismo não foi primariamente uma "doutrina," mas sim exatamente uma "comunidade." Não havia só uma "mensagem" a ser proclamada, e "Boas Novas" a serem declaradas. Havia precisamente uma Nova Comunidade, distinta e peculiar no processo de crescimento e formação, para a qual membros eram chamados e recrutados.Na verdade, "companheirismo" (komoma) era a categoria básica da existência Cristã. Os Cristãos primitivos sentiam-se atados e ligados intimamente, em uma unidade que transcendia radicalmente todos os limites humanos, de raça, cultura, nível social, e na verdade a dimensão toda "desse mundo."Eles eram irmãos, uns dos outros, membros do "Corpo Único," até mesmo do "Corpo de Cristo." Essa gloriosa frase de São Paulo sumariza admiravelmente a experiência comum dos fiéis. Apesar da novidade radical da experiência Cristã, categorias básicas de interpretação eram tomadas do Velho Testamento, do qual a Nova Aliança foi concebida como sendo o preenchimento e consumação. Os Cristãos eram, na verdade "a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido" (1Pe2,9). Eles eram o Novo Israel, o "pequeno rebanho" fiel remanescente, a quem agradou ao Pai dar o Reino (Lc12:32). As ovelhas espalhadas tinham que ser juntadas em um só "curral" e reunidas em assembléia. A Igreja era exatamente essa "Assembléia" - ekklesta tou Theou- uma assembléia permanente da "geração eleita" de Deus, sem nunca ser adiada. Nesse mundo, os Cristãos não poderiam ser mais do que peregrinos e estrangeiros. A verdadeira cidadania deles, politeuma, estava no "céu"(Fil.3:20). A própria Igreja estava peregrinando por esse mundo(paroikousa). "O companheirismo Cristão era um pouco de jurisdição extraterritorial na terra, do mundo acima"(Frank Gavin). A igreja era um "posto avançado do céu" na terra, ou uma "colônia do céu." Pode ser verdade que essa atitude radical de desprendimento, tivesse originalmente uma conotação "apocalíptica" e fosse inspirada pela expectativa de uma iminente parousia. Entretanto, mesmo como uma paciente sociedade histórica, a Igreja estava destinada a ser desprendida do mundo. Um ethos de "segregação espiritual" era inerente à própria raiz da fé Cristã, como era inerente à fé do Antigo Israel. A Igreja em si era "uma Cidade." uma polis, um novo e peculiar "governo." Em sua profissão de Batismo os Cristãos tinham que "renunciar" a esse mundo,com toda a sua vaidade, orgulho e pompa — mas também a seus laços naturais, mesmo laços de família, e fazer um voto solene de fidelidade à Cristo, o Rei, o único verdadeiro Rei, na terra e, no Céu, a Quem toda "autoridade" havia sido dada. Por esse compromisso batismal os Cristãos eram separados radicalmente "desse mundo." Nesse mundo eles não tinham "cidade permanente." Eles eram cidadãos da "cidade que virá," da qual o Próprio Deus era o artífice e construtor(Hb 13:14e11:10). Os primeiros Cristãos eram com freqüência suspeitos e acusados de indiferença cívica, e mesmo de mórbida "misantropia," odium generis humani, --que poderia provavelmente ser contrastada com a alegada "filantropia" do Império Romano. A acusação não era sem fundamento. em sua famosa resposta à Celsus, Orígenes esteve pronto a admitir a acusação, pois o que mais os Cristãos poderiam ter feito, ele perguntou. Em todas as cidades, ele explicou, "nós temos um outro sistema de fidelidade — allo systema tes patridos" (Contra Celsum, VIII.75). Em companhia da comunidade civil havia em cada cidade,outra comunidade, a Igreja local. E para os Cristãos ela era o verdadeiro lar deles, ou sua "pátria," que não era a sua cidade natal. O escritor anônimo da admirável "Carta à Diogneto," escrita provavelmente nos primeiros anos do segundo século, elaborou esse ponto com elegante precisão. Cristãos não moram em cidades próprias, nem diferem dos demais homens no falar ou nos costumes. "No entanto, enquanto eles vivem nas cidades dos gregos ou dos bárbaros, como os bens de cada um são distribuídos entre todos, a estrutura de seu governo próprio é peculiar e paradoxal...Cada terra estrangeira é uma pátria para eles, e toda pátria é uma terra estrangeira...Sua conversa é na terra mas sua cidadania é no céu." Não há paixão nessa atitude, nem hostilidade, e não retirada real da vida diária. Mas existe uma forte nota de estranhamento espiritual: "e cada pátria é uma terra estrangeira." Isso era ligado, entretanto, com um agudo senso de responsabilidade. Os Cristãos estavam confinados no mundo, "mantidos" ali como numa prisão; mas eles também "mantinham o mundo junto," como a alma mantém o corpo junto. Além disso, essa é precisamente a tarefa atribuída por Deus aos Cristãos,"que é ilegal recusar"(Carta à Diogneto,5,6). Os Cristãos devem permanecer nas suas cidades natais e fielmente executar as suas tarefas diárias. Mas eles eram incapazes de dar a sua fidelidade para qualquer governo desse mundo, porque seu verdadeiro comprometimento estava em outro lugar. Eles eram socialmente engajados e comprometidos na Igreja. e não no mundo. "Para nós nada é mais estrangeiro do que os negócios públicos," declarou Tertuliano "nee ulla magis res aliena quam publica(Apologeticum,38.3). Eu me retirei da "sociedade." disse ele em outra ocasião: secessi de populo(De Pallia, 5). Os Cristãos eram nesse sentido "fora da sociedade," voluntariamente desterrados e banidos — fora da ordem social desse mundo. Seria totalmente enganador interpretar a tensão entre os Cristãos e o Império Romano, como um conflito ou choque entre a Igreja e o Estado. Na verdade, a Igreja Cristã era mais do que "uma Igreja," assim como Israel havia sido ao mesmo tempo, a "igreja" e a "nação." Os Cristãos também eram uma nação, o "povo peculiar," o povo de Deus, tertium genus, nem judeus nem gregos. A igreja não era uma simples "comunidade reunida," ou uma associação voluntária, para propósitos "religiosos" apenas. Ela era, e reclamava ser, uma "sociedade" distinta e autônoma, um governo distinto. De outro lado, o Império Romano era, e reclamava ser, muito mais do que um simples "estado." Desde a reconstrução conduzida por Augusto César, de qualquer forma, Roma pretendia ser "a Cidade," a Cidade permanente e "eterna",Urbs aeterna, e a Cidade definitiva também. Em certo sentido ela pretendia para si uma "dimensão escatológica." Ela posava como a solução definitiva do problema humano. Era uma "Comunidade Universal," "a única Cosmópolis da terra habitada," a Oikoumene. Roma estava oferecendo Paz, a Pax Romana, e "Justiça" para todos os homens e nações sob seu governo e influência. Ela reclamava ser a incorporarão final da "Humanidade," de todos os valores e conquistas humanas. "O Império era, com efeito, uma instituição "político-eclesiástica." Ele era a "Igreja," assim como o "Estado"; "se ele não tivesse sido ambos, ele teria sido estranho às idéias do Mundo Antigo"(Sir Ernst Baker). Na sociedade antiga, na antiga polis, nas monarquias gregas, na República Romana, convicções "religiosas" eram encaradas como parte integrante do credo político. "Religião" era parte integrante da estrutura "política." Nenhuma divisão de competência ou de autoridade poderia jamais ser admitida, e coerentemente nenhuma divisão de lealdade e de fidelidade. O Estado era onicompetente, e portanto a fidelidade tinha que ser completa e incondicional. A lealdade ao Estado era,em si, uma espécie de devoção religiosa, seja de que forma particular ela possa ter sido prescrita ou imposta. No Império Romano havia o culto dos Césares. A estrutura toda do Império era indivisivelmente "política" e "religiosa." O propósito principal do governo imperial era usualmente definido como "filantropia", e freqüentemente até mesmo como "salvação."Em conseqüência, os Imperadores eram descritos como "Salvadores." Em retrospecto, todas essas demandas e pretensões podem ser vistas como não mais do que ilusões utópicas e sonhos desejosos,vãs e fúteis, que na verdade eles foram. No entanto, esses sonhos eram sonhados pelas melhores pessoas da época — é suficiente mencionar Virgílio. E o sonho utópico da "Eterna Roma" sobreviveu ao colapso do Império e dominou o pensamento político europeu por séculos. Paradoxalmente, esse sonho foi acarinhado até mesmo por aqueles que, pela lógica de sua fé, deveriam estar mais bem protegidos contra o encanto decepcionante e emoções dele. De fato, a visão de uma "Eterna Roma," dominou também o pensamento Cristão da Idade Média, tanto no Oriente, quanto no Ocidente. Não havia nada de anárquico na atitude dos primeiros Cristãos para com o Império Romano. A origem "divina" do Estado e de sua autoridade foi reconhecida formalmente já por São Paulo, e ele próprio não teve dificuldade em apelar para a proteção dos magistrados romanos e à lei de Roma.O valor e função positiva do Estado eram comumente admitidos em círculos Cristãos. Mesmo a violenta invectiva do Livro da Revelação(Apocalipse) não foi exceção. O que foi denunciado ali foram iniqüidade e injustiça da Roma real, mas não o princípio da ordem política. Os Cristãos podiam, com toda sinceridade e boa fé, protestar por sua inocência política nas côrtes romanas e assegurar sua lealdade ao Império. De fato, os primeiros Cristãos, oravam devotamente pelo Estado, por paz e ordem,e até pelos próprios Césares. Encontra-se uma alta estima pelo Império Romano até mesmo nos escritores Cristãos daquela época, que eram notórios por sua resistência como Orígenes e Tertuliano. A "justificativa" teológica do Império originou-se já no período das perseguições. No entanto, a lealdade Cristã, que era fruto da necessidade, era uma lealdade restrita. Por certo, o Cristianismo não era sob nenhum aspecto, uma conspiração sediciosa, e os Cristãos nunca pretenderam derrubar a ordem existente, apesar deles acreditarem que ela tinha que sumir definitivamente. Do ponto-de-vista romano, no entanto, não podiam deixar de parecer sediciosos, não porque de qualquer forma eles estivessem envolvidos com política, mas precisamente porque eles não estavam. Sua "indiferença" política irritava os romanos.Eles, os Cristãos se mantinham afastados das preocupações da comunidade, num tempo crítico da luta dela pela existência. Eles não pediam só "liberdade religiosa" par si. Eles também queriam suprema autoridade para a Igreja. Apesar do Reino de Deus ser enfaticamente "não desse mundo," ele parecia ser uma ameaça para o onicompetente Reino do Homem. A Igreja era num certo sentido, um tipo de "Movimento de Resistência" no Império. E os Cristãos eram "objetores conscientes." Eles eram resistentes a qualquer tentativa de sua "integração" na fábrica do Império, Como Christofer Dawson disse com clareza: "O Cristianismo era o único poder restante no mundo que não podia ser absorvido pelo gigantesco mecanismo do novo estado servil." Os Cristãos não eram uma facção política. No entanto, a fidelidade religiosa deles, tinha uma conotação política imediata. Foi muito bem observado que o "monoteísmo" foi um sério "problema político" no mundo antigo(Eric Peterson). Os Cristãos eram conduzidos a pedir autonomia para si e para a Igreja. E isso era exatamente o que o Estado não podia conceder, e nem mesmo compreender. Então o choque era inevitável, apesar de poder ser adiado. A Igreja era um desafio para o Império, e o Império era uma pedra de tropeço para os Cristãos. A era de Constantino é olhada comumente como um ponto de virada na história Cristã. Depois de uma adiada luta com a Igreja, o Império Romano afinal capitulava. O próprio César foi convertido, e humildemente pediu por sua admissão na Igreja. A liberdade religiosa foi formalmente promulgada e, foi enfaticamente estendida aos Cristãos. As propriedades confiscadas foram devolvidas às comunidades Cristãs. Aqueles Cristãos que sofreram inabilitação e deportação nos anos de perseguição, eram agora chamados de volta, e eram recebidos com honra. De fato, Constantino estava oferecendo para a Igreja não só paz e liberdade, mas também proteção e íntima colaboração. Na verdade, ele estava chamando a Igreja e seus líderes para se juntarem a ele na "renovação" do Império. Essa nova fase da política imperial e de suas táticas foi recebida pelos Cristãos com apreço, mas não sem algum embaraço e surpresa. A resposta Cristã para a nova situação não foi de modo nenhum unânime. Houveram muitos entre os Cristãos, inclusive líderes, que estavam bem preparados para receber sem reservas a conversão do Imperador e a prospectiva conversão do Império. Mas existiram também não poucos que estavam apreensivos com o movimento imperial. Para estar certo, poder-se-ia rejubilar com a cessação de hostilidades e com a liberdade de louvação pública, que estavam então legalmente asseguradas. Mas o maior problema ainda não havia sido resolvido, e era um problema de extrema complexidade. De fato, era um problema altamente paradoxal. Já Tertuliano havia levantado algumas questões incômodas, apesar de no seu tempo essas questões não serem mais do que questões retóricas. Poderiam os Césares aceitar Cristo, e acreditar Nele? Pois Césares obviamente pertenciam "ao mundo." Eles eram uma parte integrante da fábrica "secular," necessarii saeculo. Poderia então um Cristão ser César, isto é, pertencer ao mesmo tempo às duas ordens conflitantes, à Igreja e ao Mundo?(Apologeticum 21.24). No tempo de Constantino esse conceito de "César Cristão" era ainda um enigma e um quebra-cabeça, apesar dos eloqüentes esforços de Eusébio de Cesaréia em elaborar a idéia do "Império Cristão." Para muitos Cristãos havia uma contradição interna no próprio conceito. Os Césares eram necessariamente comprometidos com as causas "desse mundo." Mas a Igreja não era "desse mundo." O ofício dos Césares era intrinsecamente "secular." Haveria realmente qualquer espaço para Imperadores como Imperadores, na estrutura da Comunidade Cristã? Tem sido sugerido recentemente que o próprio Constantino esteve inquieto e incerto precisamente quanto a esse ponto. Parece que uma das razões pelas quais ele esteve retardando seu próprio batismo, até seus últimos dias, foi precisamente seu sentimento sombrio, de que seria inconveniente ser "Cristão"e "César" ao mesmo tempo. A conversão pessoal de Constantino não constituiu problema. Mas como Imperador ele estava comprometido. Ele tinha que carregar o fardo de sua exaltada posição no Império. Ele ainda era um "Divino César." Como Imperador ele estava profundamente envolvido nas tradições do Império, ainda que ele estivesse, de fato, se esforçando para se livrar delas. A transferência da residência imperial para uma nova cidade, sem as memórias da Velha Roma pagã, foi um símbolo espetacular desse nobre esforço. No entanto, o Império ainda era, em si, em grande parte, o mesmo que antes, com seu ethos e hábitos autocráticos, com todas as suas práticas pagãs, incluindo a adoração e a apoteose dos Césares. Nós temos boas razões pra confiar na sinceridade pessoal de Constantino. Sem dúvida, ele estava profundamente convencido, que o Cristianismo era o único poder que poderia dar vida ao corpo doente do Império, e fornecer um novo princípio de coesão em um tempo de desintegração social. Mas obviamente ele estava incapaz de abdicar de sua autoridade soberana, ou renunciar ao mundo. Na verdade, Constantino estava profundamente convencido que, por Providência Divina, lhe havia sido confiada uma alta e santa missão, que ele havia sido escolhido para restabelecer o Império, e restabelecê-lo numa base Cristã. Essa convicção, mais do que qualquer teria política particular, foi o fator decisivo em sua política e em seu modo de governo. A situação era intensamente ambígua. A igreja tinha que aceitar a oferta imperial e assumir a nova tarefa? Era uma oportunidade a ser bem recebida, ou era um compromisso perigoso? De fato, a experiência de colaboração íntima com o império não foi de todo feliz e encorajadora para os Cristãos, mesmo nos dias do próprio Constantino. O Império não parecia ser um aliado cômodo e confortável para a Igreja. Sob os sucessores de Constantino, todos os inconvenientes da cooperação tornaram-se muito evidentes, mesmo se nós ignorarmos a tentativa abortada de Juliano de reinstalar o paganismo.Os líderes da Igreja eram compelidos, vezes e vezes, a desafiar as persistentes tentativas dos Césares, de exercer sua suprema autoridade, também em assuntos religiosos. O surgimento do Monasticismo no quarto século não foi acidente. Foi mais uma tentativa de escapara do problema imperial, e construir uma sociedade Cristã autônoma fora dos limites do Império, "fora do campo." De outro lado, a Igreja não podia abandonar sua responsabilidade pelo mundo, ou desistir de sua atividade missionária. Na verdade, a Igreja não estava preocupada só com indivíduos, mas também com a sociedade, até mesmo com o todo da humanidade. No fim, mesmo reinos desse mundo tinham que ser trazidos para a obediência a Cristo. Nem o Império estava preparado para largar a Igreja sozinha, ou a dispensar seu auxílio e serviço. A Igreja já era uma instituição forte, forte por sua fé e disciplina, e espalhada por toda parte, mesmo para os cantos remotos da terra desabitada. Assim, a Igreja foi forçada a uma aliança com o Império, pela dupla pressão de sua vocação missionária e da lógica tradicional do Império. No final do quarto século, o Cristianismo foi estabelecido finalmente como a religião oficial do Império Romano. Sob Teodosius, o Grande, o Império Romano formalmente se comprometeu com a causa Cristã. O Paganismo foi legalmente rejeitado e proscrito. "Heresias" também foram banidas. O Estado formalmente se engajou na manutenção da Fé Ortodoxa. A suposição básica do novo arranjo foi a Unidade da Comunidade Cristã. Havia somente Uma Sociedade Cristã compreensiva, que era ao mesmo tempo a Igreja e o Estado. Nessa Sociedade Una, haviam diferentes "ordens " ou "poderes," claramente distintos, mas intimamente correlatos — "espirituais" e "temporais," "eclesiásticos" e "políticos." Mas a "Sociedade em si, era intrinsecamente Uma. A idéia não era absolutamente nova. O Antigo Israel era ao mesmo tempo Reino e Igreja. O Império Romano havia sido sempre uma "instituição político-eclesiática," e manteve esse duplo caráter também depois de ter sido "cristianizado." Na Comunidade Cristã, o "pertencer à Igreja" e "cidadania" não eram só "co-extensivas" mas simplesmente idênticas. Só Cristãos podiam ser cidadãos. Todos os cidadãos eram obrigados a ser Ortodoxo em crença e em comportamento A "Comunidade Cristã" foi concebida como uma única estrutura "teocrática." Além disso, o Império Romano sempre se viu como o "Reino Universal," como o único Reino legítimo, o único "Império." Como havia uma só Igreja, a Igreja Universal, só poderia haver um Reino, o Império Ecumênico. A Igreja e o Reino eram com efeito uma só Sociedade, indivisível e indivisa, Uma Civitas — Republica Christiana. "A Comunidade Una de todo gênero humano, concebida parcialmente como um Império — a imagem sobrevivente da Antiga Roma — mas principalmente como uma Igreja, é a sociedade essencial daquele longo período da história humana que nós chamamos pelo nome de Idade Média. Isto foi um fato e não meramente uma idéia; e no entanto, foi também uma idéia e não de todo um fato"(Sir Ernst Baker). Foi uma momentânea e magnífica conquista, uma visão gloriosa, uma pretensão ambiciosa. Mas foi também uma conquista nefasta e ambígua. De fato, as duas ordens "espiritual" e "temporal," nunca poderiam ser verdadeiramente integradas em um só sistema. Velhas tensões continuaram dentro da "Sociedade Una," e o balanço de "poderes" na Comunidade Cristã sempre foi instável e inseguro. Seria um anacronismo descrever essa tensão interna entre "poderes" na Comunidade Medieval, como um conflito ou competição entre a Igreja e o Estado, concebidos como duas sociedades distintas, com esferas apropriadas de competência e jurisdição. Na Idade Média, Igreja e Estado, como duas sociedades distintas, simplesmente não existiam. O conflito era entre dois "poderes" na mesma sociedade, e precisamente por essa razão ele foi tão vigoroso e agudo. A esse respeito não existiu diferença básica entre o Oriente Cristão e o Ocidente Cristão, apesar das diferenças reais de curso dos eventos que existiram nessas duas áreas da Comunidade Cristã. O maior problema era o mesmo no Oriente e no Ocidente — o problema de uma "Sociedade Cristã," de um "Sacro Império." Era mais do que natural que esse problema viesse a assumir especial urgência e dimensão precisamente no Oriente. Nele o "Sacro Império" era uma formidável realidade, "um fato tangível no mundo real," na frase de James Bryce, enquanto no Ocidente era mais uma idéia, ou somente uma pretensão, porque Constantino o coração do Império estava em Constantinopla e não mais na velha Cidade de Roma. A história de Bizâncio foi uma imediata continuação da história de Roma. No Ocidente a ordem romana desintegrou-se mais cedo. No Oriente ela sobreviveu por séculos. Mesmo em traje orientais, Bizâncio continuou a ser o "Reino de Romanos" até o seu final. O problema principal de Bizâncio foi exatamente o problema da "Eterna Roma." O peso todo do Império foi ali sentido muito mais do que no Ocidente. É altamente significativo, no entanto, que todos os "problemas bizantinos" reaparecessem no Ocidente com a mesma urgência e a mesma ambigüidade, assim que o Império foi ali reconstruído por Carlos Magno e seus sucessores. Na verdade, Carlos Magno considerava-se um fiel sucessor de Constantino e Justiniano. Suas reivindicações e política em assuntos religiosos eram quase idênticas àquelas dos Césares Bizantinos.
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