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Rev.
Antonio Eça de Seixas, júnior A
Espiritualidade do Oriente Cristão Da mesma forma o cristão ocidental é acostumado a assimilar o cristianismo histórico como sendo uma realidade bipolar entre católicos romanos e protestantes[1]. Ao se deparar com a espiritualidade do oriente cristão de uma forma superficial, ele não conseguirá fazer distinções entre as tradições de Roma e Constantinopla (centro histórico da espiritualidade Ortodoxa). Assim como em idiomas de origem latina (por exemplo, o português e o espanhol) onde algumas palavras cujas grafias e fonemas são idênticas, contudo possuindo significados diferentes; assim, também, símbolos e termos teológicos comuns a ambas as tradições (orientais e ocidentais) possuem compreensões e aplicações bem distintas. Em outras palavras, para o observador superficial ou desatento, Romanos e Ortodoxos representam o pingo da neve em terras brasileiras. Portanto, será necessário para a compreensão da presente abordagem, esvaziar a mente dos tradicionais conceitos da simbologia ocidental, para que estes não venham obstacular a percepção da espiritualidade ortodoxa. Diferentemente dos cristãos ocidentais (acostumados às definições e racionalizações teológicas) o oriente cristão pouco aplica o método científico ou o racionalismo para obter compreensão da fé. De natureza essencialmente contemplativa, o Oriente compreende a Teologia antes de tudo como uma vivência, muito mais do que uma ciência analítica; em outras palavras: a geografia da fé não se aprende através de livros técnicos ou de cartões postais, mas, através da experiência de se estar no local. O Oriente Cristão fala a partir da experiência que se vive como igreja no tempo e no espaço (tradição viva), usando tal realidade como principal instrumento de compreensão das revelações objetivas de Deus através dos Patriarcas, Profetas e, principal e centralmente através de Cristo; preservando a fé inabalável na presença real e inequívoca direção do Espírito Santo prometido, o qual – segundo a promessa Divina – guiaria a igreja em toda a verdade (João 16:13-15). A Theotokos • Virgindade Perpétua Os irmãos de Jesus mencionados no Novo Testamento devem ser entendidos à luz da realidade sócio-cultural de Israel, no qual a estrutura familiar é patriarcal e não nuclear, como no Ocidente, ou seja, os laços consangüíneos são contados a partir de um ancestral comum (patriarca) e o termo genérico para indicar a pertença – seja primo ou prima, tio ou tia – é o vocábulo “irmão ou irmã”. Se Cristo houvesse tido irmãos segundo o conceito do Ocidente, este não teria se preocupado com o amparo de sua Mãe (João 19:26), posto que a Lei de Israel obrigava os filhos a ampararem os pais (Ex. 20:12; Dt. 27:16). • Maria Como Intercessora
Felizmente, algumas edições mais recentes de Bíblias Protestantes vêm se redimindo deste erro grotesco de tradução. Vejamos o texto de algumas versões em inglês e espanhol: New
American Bible New
International Version 1984 (US) New
Revised Standard Version 1989 Reina-Valera
1995 (Espanhol) La
Biblia de Las Americas 1986 Em sua aversão ao Catolicismo Romano, o movimento evangélico – na tentativa de negar ou esvaziar a importância da Santa Virgem perante seu Filho – não avalia as conseqüências teológicas de tal postura: 1. Ao conceber indiferença e até descaso de Jesus para com Maria, nos faz pensar que Jesus estaria quebrando o primeiro mandamento com promessa: “Honra ao teu pai e a tua mãe”. É inconcebível que um filho de Israel (muito mais ainda Jesus) pudesse pensar numa relação fragmentada com sues familiares e antepassados, principalmente com seus genitores diretos. Nem mesmo a condição messiânica pode comportar tal idéia. Quando em outra passagem Cristo pergunta: “Quem são minha mãe, meu pai e meus irmãos?” Esta fala não é dirigida num colóquio direto com a sua Mãe, mas, sim, dirigida às multidões para ensinar os laços íntimos e familiares para com Ele de todo aquele que faz a vontade de Deus (ver tópico posterior sobre as implicações da Redenção). Tal afirmativa, longe de negar a sublimidade da maternidade de Maria, antes, a ratifica, pois, se mãe e irmãos do Cristo é todo aquele que ouve e guarda a Palavra de Deus, quem melhor do que Maria se encaixa nesta condição? Portanto, a expressão “Senhora, que temos nós com isto? A minha hora ainda não é chegada” além de expressar melhor o sentido do texto grego, torna-se harmônica com a lógica da narrativa. Ora, Cristo, Maria e os Discípulos eram convidados e não anfitriões. Então, é lógico que este problema diz respeito aos organizadores da festa e não aos seus comensais. Naturalmente que Ele, Jesus, compreendeu que havia subjetivamente um pedido de sua Mãe para que ele interviesse miraculosamente, e à esta intenção ele contrapõe que ainda não era chegada a sua hora. 2. Em mais uma tentativa de encontrar razões nas Sagradas Escrituras que se oponham à devoção mariana, tais evangélicos procuram dar ênfase à frase dita por Maria aos serviçais “fazei tudo que ele vos disser”. Mais uma vez isola a frase da dinâmica dos acontecimentos para destacar de forma irônica que este é o único mandamento deixado por Maria. Com isto, sem o perceberem, caem em heresia ao afirmar que à Bem-aventurada Virgem é concedida a capacidade fazer mandamentos; e, assim, se lhes obscurecem o entendimento e a percepção das sutilezas teológicas da narrativa do texto. Pergunta-se: Se ainda não era chegada a hora do Messias manifestar os seus sinais ao mundo, por que então ele a antecipa? A resposta está na natureza da oração quando praticada por um justo: ela é capaz de “alterar” os desígnios Divinos, sempre como um ato de graça e misericórdia. Exemplo disto temos no livro do Profeta Isaías, no episódio da doença do rei Ezequias (Is. 38:1-5). O profeta é enviado ao palácio real levando consigo a seguinte mensagem: Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás (v. 1). Ao ouvir tal sentença o rei se humilha e chora diante de Deus; pelo que o Senhor fala ao Profeta para retornar ao palácio e dizer a Ezequias que a sua oração foi ouvida e ele não mais morreria. Assim também a Mãe de Deus ao sair da presença do seu Filho, dirige-se à presença dos serventes levando consigo a certeza de que o Filho lhe atenderia e, por isto lhes diz “fazei tudo quanto ele vos disser”. Ora, se ele tinha se negado a intervir, o que teria ele a ordenar aos serventes? Contudo, o Filho de Deus chama os serviçais e ordena-lhes que encham as talhas de água e, assim, opera o milagre da transmutação da água em vinho, fazendo com que a festa prosseguisse com mais cor e glamour do que as primeiras horas. Assim, principia Jesus os seus sinais em Caná da Galiléia “antecipando” a hora prevista desde a eternidade para dar início à sua missão. Pelas orações da Mãe de Deus os céus se moveram em favor dos homens e, como é característica própria sua, a Santa Virgem se retira de cena a fim de que a glória seja do seu Filho, o qual é Bendito pelos séculos dos séculos. Amém. Todavia, a crença Ortodoxa na intercessão da Theotokos e de todos os santos não está construída somente em um texto específico das Santas Escrituras; antes se alicerça na essência teológica que flui dos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos sobre a redenção das nossas almas. Que realidades existenciais estão explícitas e implícitas na teologia da redenção? Vejamos algumas delas: 1. Que o ser humano é um projeto Divino, criado para alcançar os níveis mais sublimes da criação, ou seja, à imagem e à semelhança de Deus[2], em pé de igualdade e acima mesmo de seres celestiais[3]. Tendo sido tal condição avariada pelo pecado, a ponto de padecermos a deteriorização de nossa estrutura somática e conseqüente morte, Cristo assume nossa condição em sua morte para que por sua ressurreição alcancemos sua condição Divina (teosis). Portanto, o ser redimido – tal como a semente que faz brotar a árvore e o casulo que expele a borboleta – alcança em sua morte a liberação de suas potencialidades outrora aprisionadas pelo pecado. Para Deus nenhum de nós morre e os que dos nossos agora vivem na plenitude de Sua presença, já não mais existem nas limitações do corpo mortal. Agora são co-participantes da natureza divina (2 Pedro 1:3-4). Sendo co-participes da sua natureza, consubstancial com Ele, possuem efetivamente as características do Filho que está exaltado à sua Destra; por conseguinte, possuem consciência atemporal, estando cientes do que se passa no céu e na terra, ajudando-nos com suas intercessões por nós, numa grande reunião de oração da Igreja que se encontra no céu, que ora com mais propriedade e perfeição do que nós, posto que já têm desenvolvida em si a mente de Cristo (1 Cor. 2:14-16). Os santos nos céus - uma vez que possuem a mesma natureza e mente de Cristo - percebem a realidade terrena com os mesmos olhares e sentimentos do Filho de Deus. Esta característica do Cristo (Homem-Deus), a da perfeita síntese entre a justiça e a misericórdia também é comunicada aos santos (I Cor. 6:2-3). Portanto, os redimidos que já chegaram à Universal Assembléia e Igreja que está no céu, sendo justos e aperfeiçoados (Heb. 12:23), oram com mais perfeição e propriedade, à espera de nós (Heb. 11:39-40), a fim de que a glória de Deus seja tudo em todos. Não estamos sós, posto que temos a nos rodear uma tão grande nuvem de testemunhas (Heb. 12:1). 2. Que o projeto divino - cuja consumação dá-se na eternidade (realidade atemporal) encontra sua antecipação histórica (realidade temporal) através da presença do Espírito Divino em nosso meio e na participação dos santos mistérios (sacramentos), principalmente na Eucaristia. Por meio do martírio (mortificação das paixões humanas e obras da carne), da ascese (reclusão, jejuns, meditações e orações) e por meio da vida do Espírito (amor, bondade, caridade e etc) o cristão experimenta a antecipação do gozo celeste e das virtudes do novo ser criado em Cristo Jesus (Rm 12:1,2; Gal. 5:16-23; Col. 3:1-16); de forma misteriosa participa plena e integralmente da unidade orgânica do Corpo de Cristo (que é a sua Igreja), a qual não conhece divisões espaciais e temporais), pois o Senhor Jesus Cristo reconciliou no corpo de sua carne, por sua morte e ressurreição, as coisas que estão nos céus e as que estão na terra, as visíveis e as invisíveis; fazendo de ambas uma só realidade (Col. 1:12-19). Tal mistério é vivido na participação eucarística: quando cristo diz "isto é o meu corpo", no pão está tipificada a igreja de Cristo e, no vinho ("isto é meu sangue"), a Vida que alimenta a carne. Assim como a carne sem o sangue está morta, também a Igreja estaria morta se não estivesse unida ao Senhor da Vida. Por esta razão a Ortodoxia celebra a comunhão em duas espécies, misturando o pão e o vinho, dando-nos a sensação da carne viva e da união inseparável de ambos os elementos e consubstancialidade da Igreja com o seu Senhor (João 6:56,57; João 14:3,18-21). Sendo assim, a Igreja que está na terra mantém plena e total comunhão com a Igreja que está no céu. Por esta causa reza a liturgia eucarística:
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