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 A Mãe de Deus na Espiritualidade Oriental

Rev. Antonio Eça de Seixas, júnior
Paróquia S. Mateus, Boa Viagem-Recife

A Espiritualidade do Oriente Cristão
As populações que habitam em nosso país – mesmo aquelas que vivem na região sul – não conseguem nomear o pingo da neve por outro termo que lhe seja sinônimo. Neve é neve. No entanto, a civilização esquimó poderá com facilidade utilizar 52 vocábulos para se referir ao pingo da neve (posto que, conforme observação científica, cada pingo de neve tem formato único, não se repete jamais). O fator que proporciona tal fenômeno semântico da percepção generalizada ou detalhada é exatamente a o grau de familiaridade do observador com o fenômeno.

Da mesma forma o cristão ocidental é acostumado a assimilar o cristianismo histórico como sendo uma realidade bipolar entre católicos romanos e protestantes[1]. Ao se deparar com a espiritualidade do oriente cristão de uma forma superficial, ele não conseguirá fazer distinções entre as tradições de Roma e Constantinopla (centro histórico da espiritualidade Ortodoxa). Assim como em idiomas de origem latina (por exemplo, o português e o espanhol) onde algumas palavras cujas grafias e fonemas são idênticas, contudo possuindo significados diferentes; assim, também, símbolos e termos teológicos comuns a ambas as tradições (orientais e ocidentais) possuem compreensões e aplicações bem distintas. Em outras palavras, para o observador superficial ou desatento, Romanos e Ortodoxos representam o pingo da neve em terras brasileiras.

Portanto, será necessário para a compreensão da presente abordagem, esvaziar a mente dos tradicionais conceitos da simbologia ocidental, para que estes não venham obstacular a percepção da espiritualidade ortodoxa.

Diferentemente dos cristãos ocidentais (acostumados às definições e racionalizações teológicas) o oriente cristão pouco aplica o método científico ou o racionalismo para obter compreensão da fé. De natureza essencialmente contemplativa, o Oriente compreende a Teologia antes de tudo como uma vivência, muito mais do que uma ciência analítica; em outras palavras: a geografia da fé não se aprende através de livros técnicos ou de cartões postais, mas, através da experiência de se estar no local. O Oriente Cristão fala a partir da experiência que se vive como igreja no tempo e no espaço (tradição viva), usando tal realidade como principal instrumento de compreensão das revelações objetivas de Deus através dos Patriarcas, Profetas e, principal e centralmente através de Cristo; preservando a fé inabalável na presença real e inequívoca direção do Espírito Santo prometido, o qual – segundo a promessa Divina – guiaria a igreja em toda a verdade (João 16:13-15).

A Theotokos
Assim sendo, no que diz respeito à Bem-aventurada Virgem é que esta (conforme definição do III Concílio Ecumênico) é em verdade a Mãe de Deus. Este é o único dogma mariano da Ortodoxia. Ao contrário do Ocidente, o Oriente Cristão não endossa dogmas e crenças tais como o da imaculada conceição, assunção aos céus, co-redenção e muito menos digressões que almejam pensar na Bendita Virgem como uma quarta pessoa da Santíssima Trindade. Todavia, semelhantemente ao Ocidente – mas, não em tudo idêntico – os Ortodoxos vivenciam as tradições da virgindade perpétua, da eficácia da intercessão da Santíssima Virgem e da sua exaltação como Mãe da Igreja junto ao Criador.

Virgindade Perpétua
Muitos – senão quase a totalidade dos Evangélicos – ignora a teologia dos Reformadores com relação à Mãe do Senhor. De forma unânime todos os Reformadores (Lutero, Calvino e Zwinglio) afirmaram a crença na virgindade perpétua da Maria . Que a Bem-aventurada Theotokos permaneceu virgem antes, durante e depois do parto é crença universal da Igreja. Nem mesmo os Nestorianos (grupo que rejeitou a formulação do III Concílio Ecumênico) e nem os Reformadores do Ocidente (ferrenhos críticos da tradição) rejeitaram tal afirmação, antes a defenderam e rejeitavam qualquer contestação de tal assertiva.

Os irmãos de Jesus mencionados no Novo Testamento devem ser entendidos à luz da realidade sócio-cultural de Israel, no qual a estrutura familiar é patriarcal e não nuclear, como no Ocidente, ou seja, os laços consangüíneos são contados a partir de um ancestral comum (patriarca) e o termo genérico para indicar a pertença – seja primo ou prima, tio ou tia – é o vocábulo “irmão ou irmã”. Se Cristo houvesse tido irmãos segundo o conceito do Ocidente, este não teria se preocupado com o amparo de sua Mãe (João 19:26), posto que a Lei de Israel obrigava os filhos a ampararem os pais (Ex. 20:12; Dt. 27:16).

Maria Como Intercessora
Para boa parte dos evangélicos se obstacula a compreensão do milagre das bodas de Caná em virtude de uma tradução mal elaborada e infeliz do diálogo de Jesus com sua mãe: à obscura expressão grega (ti emoi kai soi, guinai), literalmente “que a mim e/também a ti, mulher” várias edições protestantes apresentam a seguinte versão: “Mulher, que tenho eu contigo?” Contudo, vozes lúcidas e honestas têm se levantado entre evangélicos em relação a este texto. Exemplo disto é o Comentarista Bíblico Evangélico americano, Pr. Dave Humpal, o qual em seu sitio de internet comenta versículos por versículo os livros do Novo testamento, faz a seguinte observação à usual tradução evangélico do texto em questão:

Os tradutores prestaram um grande desserviço ao traduzirem tal versículo, dando a entender que Cristo reprovava sua Mãe
(http://www.elite.net/~ebedyah/PastorsSite/gospels/john2-1-11.htm).

Felizmente, algumas edições mais recentes de Bíblias Protestantes vêm se redimindo deste erro grotesco de tradução. Vejamos o texto de algumas versões em inglês e espanhol:

New American Bible
Jesus said to her, "Woman, how does your concern affect me? My hour has not yet come." (Disse-lhe Jesus: No que sua preocupação me diz respeito? Minha hora ainda não é chegada).

New International Version 1984 (US)
"Dear woman, why do you involve me?" Jesus replied. "My time has not yet come." (Querida, porque você me envolve nisto? Replicou Jesus. Minha hora ainda não chegou).

New Revised Standard Version 1989
And Jesus said to her, "Woman, what concern is that to you and to me? My hour has not yet come." (E Jesus lhe disse: Mulher, no que isto nos diz respeito?).

Reina-Valera 1995 (Espanhol)
Jesús le dijo: -- ¿Qué tiene que ver esto con nosotros, mujer? Aún no ha llegado mi hora. (Jesus lhe disse: O que isto tem a haver conosco, mulher? Minha hora ainda não chegou).

La Biblia de Las Americas 1986
Y Jesús le dijo: Mujer, ¿qué nos va a ti y a mí en esto? Todavía no ha llegado mi hora. (E Jesus lhe disse: Mulher, o que isto tem a haver conosco? Minha hora ainda não chegou).

New King James Version
Jesus said to her, "Woman, what does your concern have to do with Me? My hour has not yet come." (Jesus lhe disse: Mulher, o que a sua preocupação tem haver comigo? Minha hora ainda não chegou).

Em sua aversão ao Catolicismo Romano, o movimento evangélico – na tentativa de negar ou esvaziar a importância da Santa Virgem perante seu Filho – não avalia as conseqüências teológicas de tal postura:

1. Ao conceber indiferença e até descaso de Jesus para com Maria, nos faz pensar que Jesus estaria quebrando o primeiro mandamento com promessa: “Honra ao teu pai e a tua mãe”. É inconcebível que um filho de Israel (muito mais ainda Jesus) pudesse pensar numa relação fragmentada com sues familiares e antepassados, principalmente com seus genitores diretos. Nem mesmo a condição messiânica pode comportar tal idéia. Quando em outra passagem Cristo pergunta: “Quem são minha mãe, meu pai e meus irmãos?” Esta fala não é dirigida num colóquio direto com a sua Mãe, mas, sim, dirigida às multidões para ensinar os laços íntimos e familiares para com Ele de todo aquele que faz a vontade de Deus (ver tópico posterior sobre as implicações da Redenção). Tal afirmativa, longe de negar a sublimidade da maternidade de Maria, antes, a ratifica, pois, se mãe e irmãos do Cristo é todo aquele que ouve e guarda a Palavra de Deus, quem melhor do que Maria se encaixa nesta condição?

Portanto, a expressão “Senhora, que temos nós com isto? A minha hora ainda não é chegada” além de expressar melhor o sentido do texto grego, torna-se harmônica com a lógica da narrativa. Ora, Cristo, Maria e os Discípulos eram convidados e não anfitriões. Então, é lógico que este problema diz respeito aos organizadores da festa e não aos seus comensais. Naturalmente que Ele, Jesus, compreendeu que havia subjetivamente um pedido de sua Mãe para que ele interviesse miraculosamente, e à esta intenção ele contrapõe que ainda não era chegada a sua hora.

2. Em mais uma tentativa de encontrar razões nas Sagradas Escrituras que se oponham à devoção mariana, tais evangélicos procuram dar ênfase à frase dita por Maria aos serviçais “fazei tudo que ele vos disser”. Mais uma vez isola a frase da dinâmica dos acontecimentos para destacar de forma irônica que este é o único mandamento deixado por Maria. Com isto, sem o perceberem, caem em heresia ao afirmar que à Bem-aventurada Virgem é concedida a capacidade fazer mandamentos; e, assim, se lhes obscurecem o entendimento e a percepção das sutilezas teológicas da narrativa do texto. Pergunta-se: Se ainda não era chegada a hora do Messias manifestar os seus sinais ao mundo, por que então ele a antecipa? A resposta está na natureza da oração quando praticada por um justo: ela é capaz de “alterar” os desígnios Divinos, sempre como um ato de graça e misericórdia. Exemplo disto temos no livro do Profeta Isaías, no episódio da doença do rei Ezequias (Is. 38:1-5). O profeta é enviado ao palácio real levando consigo a seguinte mensagem: Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás (v. 1). Ao ouvir tal sentença o rei se humilha e chora diante de Deus; pelo que o Senhor fala ao Profeta para retornar ao palácio e dizer a Ezequias que a sua oração foi ouvida e ele não mais morreria.

Assim também a Mãe de Deus ao sair da presença do seu Filho, dirige-se à presença dos serventes levando consigo a certeza de que o Filho lhe atenderia e, por isto lhes diz “fazei tudo quanto ele vos disser”. Ora, se ele tinha se negado a intervir, o que teria ele a ordenar aos serventes? Contudo, o Filho de Deus chama os serviçais e ordena-lhes que encham as talhas de água e, assim, opera o milagre da transmutação da água em vinho, fazendo com que a festa prosseguisse com mais cor e glamour do que as primeiras horas. Assim, principia Jesus os seus sinais em Caná da Galiléia “antecipando” a hora prevista desde a eternidade para dar início à sua missão. Pelas orações da Mãe de Deus os céus se moveram em favor dos homens e, como é característica própria sua, a Santa Virgem se retira de cena a fim de que a glória seja do seu Filho, o qual é Bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Todavia, a crença Ortodoxa na intercessão da Theotokos e de todos os santos não está construída somente em um texto específico das Santas Escrituras; antes se alicerça na essência teológica que flui dos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos sobre a redenção das nossas almas. Que realidades existenciais estão explícitas e implícitas na teologia da redenção? Vejamos algumas delas:

1. Que o ser humano é um projeto Divino, criado para alcançar os níveis mais sublimes da criação, ou seja, à imagem e à semelhança de Deus[2], em pé de igualdade e acima mesmo de seres celestiais[3]. Tendo sido tal condição avariada pelo pecado, a ponto de padecermos a deteriorização de nossa estrutura somática e conseqüente morte, Cristo assume nossa condição em sua morte para que por sua ressurreição alcancemos sua condição Divina (teosis). Portanto, o ser redimido – tal como a semente que faz brotar a árvore e o casulo que expele a borboleta – alcança em sua morte a liberação de suas potencialidades outrora aprisionadas pelo pecado. Para Deus nenhum de nós morre e os que dos nossos agora vivem na plenitude de Sua presença, já não mais existem nas limitações do corpo mortal. Agora são co-participantes da natureza divina (2 Pedro 1:3-4). Sendo co-participes da sua natureza, consubstancial com Ele, possuem efetivamente as características do Filho que está exaltado à sua Destra; por conseguinte, possuem consciência atemporal, estando cientes do que se passa no céu e na terra, ajudando-nos com suas intercessões por nós, numa grande reunião de oração da Igreja que se encontra no céu, que ora com mais propriedade e perfeição do que nós, posto que já têm desenvolvida em si a mente de Cristo (1 Cor. 2:14-16). Os santos nos céus - uma vez que possuem a mesma natureza e mente de Cristo - percebem a realidade terrena com os mesmos olhares e sentimentos do Filho de Deus. Esta característica do Cristo (Homem-Deus), a da perfeita síntese entre a justiça e a misericórdia também é comunicada aos santos (I Cor. 6:2-3). Portanto, os redimidos que já chegaram à Universal Assembléia e Igreja que está no céu, sendo justos e aperfeiçoados (Heb. 12:23), oram com mais perfeição e propriedade, à espera de nós (Heb. 11:39-40), a fim de que a glória de Deus seja tudo em todos. Não estamos sós, posto que temos a nos rodear uma tão grande nuvem de testemunhas (Heb. 12:1).

2. Que o projeto divino - cuja consumação dá-se na eternidade (realidade atemporal) encontra sua antecipação histórica (realidade temporal) através da presença do Espírito Divino em nosso meio e na participação dos santos mistérios (sacramentos), principalmente na Eucaristia. Por meio do martírio (mortificação das paixões humanas e obras da carne), da ascese (reclusão, jejuns, meditações e orações) e por meio da vida do Espírito (amor, bondade, caridade e etc) o cristão experimenta a antecipação do gozo celeste e das virtudes do novo ser criado em Cristo Jesus (Rm 12:1,2; Gal. 5:16-23; Col. 3:1-16); de forma misteriosa participa plena e integralmente da unidade orgânica do Corpo de Cristo (que é a sua Igreja), a qual não conhece divisões espaciais e temporais), pois o Senhor Jesus Cristo reconciliou no corpo de sua carne, por sua morte e ressurreição, as coisas que estão nos céus e as que estão na terra, as visíveis e as invisíveis; fazendo de ambas uma só realidade (Col. 1:12-19). Tal mistério é vivido na participação eucarística: quando cristo diz "isto é o meu corpo", no pão está tipificada a igreja de Cristo e, no vinho ("isto é meu sangue"), a Vida que alimenta a carne. Assim como a carne sem o sangue está morta, também a Igreja estaria morta se não estivesse unida ao Senhor da Vida. Por esta razão a Ortodoxia celebra a comunhão em duas espécies, misturando o pão e o vinho, dando-nos a sensação da carne viva e da união inseparável de ambos os elementos e consubstancialidade da Igreja com o seu Senhor (João 6:56,57; João 14:3,18-21). Sendo assim, a Igreja que está na terra mantém plena e total comunhão com a Igreja que está no céu. Por esta causa reza a liturgia eucarística:

"Portanto, juntamente com os Anjos e os Arcanjos e com toda a multidão celestial que não cessam de proclamar a tua glória, jubilosos louvamos o teu Nome..."