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O Culto Judeu

Compreendendo o Caráter Eterno da Adoração em Israel – Ensaios de uma Teologia Bíblica do Culto numa Perspectiva Ortodoxa.


Em nossos dias, vivemos uma crise sem precedentes do culto cristão. Isso é não apenas profético e deve ser relacionado aos últimos dias, mas também algo próprio do desgaste que a própria história humana reserva às culturas em geral.

O culto cristão, enquanto elemento cultural, está sujeito a todas as vicissitudes da existência, o que muito tem repercutido em meio às igrejas que, em sua heterodoxia, terminam por acomodar-se à máxima do envelhecimento de toda e qualquer tradição.
Tão nociva máxima, foi proposta e paulatinamente assumida pelo ocidente, desde que Giambattista Vico intui fundamentalmente que o verdadeiro é o fato – verum est factum. A partir daí, Vico se considera – e realmente é – inventor da ciência histórica, por ele chamada de “ciência nova”. Em um tom nitidamente italiano – ou tipicamente romano – Vico termina concluindo: “Esta ciência, no tocante a um de seus aspectos mais importantes, deve ser uma teologia civil racionalista da Providência divina”.

Parece que os velhos projetos de uma cristandade, em tantas ocasiões encarnados inicialmente pelos judeus e depois pela igreja, em sua versão romana, bizantina ou calvinista, agora emergiriam também em nível de filosofia e ciência, estando também destinados a alimentar os ideais nazistas e fascistas posteriores. E tudo porque a história vai sendo encarada como algo absoluto, sem que se preste atenção ao seu caráter transitório.


Em contra-partida, a Ortodoxia entende a Tradição como eterna, contendo por isso mesmo os primeiros sinais do definitivo em meio à história humana. Todavia, uma tradição definitiva não poderia ser localiza pela Ortodoxia em suas instituições e culturas. A Tradição possui a Liturgia, o culto, enquanto seu lócus histórico, dado o seu caráter essencialmente eucarístico-sacramental, onde a Presença Real de Cristo une definitivamente o divino e o humano, os céus e a terra, a eternidade litúrgica em meio às vicissitudes da existência, tornando esta última capaz de conter elementos não perecíveis, formas intactas, ritos inalteráveis. Eis aqui o porque da Igreja Ortodoxa manter e conservar a fé em um rito atemporal e eterno celebrado sob determinada forma de existência contingente durante a antiga aliança, em meio à qual seria aperfeiçoado e migraria de seu caráter provisório ao caráter definitivo da liturgia eucarístico-sacramental iniciada pelos apóstolos e plenamente amadurecida na experiência litúrgica do cristianismo primitivo, tudo isso fazendo com que a tarefa da Igreja se limite a preservá-la em obediência ao Senhor da Igreja que começou a instituí-la no antigo testamento. Essa é a razão para nos determos agora nas raízes históricas do culto cristão como pertencentes ao antigo testamento, raízes estas que se encontravam em sua forma de existência contingente sob a antiga aliança.

Contudo, nossa maior ênfase deve ser vista na máxima litúrgica ortodoxa: o verdadeiro não é simplesmente o fato. Assim, diferentemente da visão de Vico – e daquela que ultimamente tem se alojado em algumas igrejas do ocidente – não podemos tomar como referencial as dimensões meramente históricas do culto, e quando o fazemos em nível de histórica bíblica, não estamos tentando provar os nossos cânones litúrgicos, mas tão somente buscando demonstrar a consonância e harmonia da tradição litúrgica da Igreja Ortodoxa com as sagradas escrituras, desde sua revelação embrionária esboçada pela teologia bíblica do culto que passamos a expor.

1. A Base Teológica do Israel Nascente

Propondo uma Teologia do Culto
Nos primeiros capítulos do Gênesis, se pode inferir que, contra a situação reinante de pecado, Moisés propõe uma vida de culto ao Senhor como o grande instrumento de redenção. Ao longo do seu livro, Moisés institui uma perfeita obediência ritual (as leis rituais) que se deveria prestar unida a uma proclamação nacional (as leis morais) que, liturgicamente, se deveria realizar no tabernáculo. Assim sendo, a vida de culto ao Senhor como instrumento redentivo era nada mais, nada menos, do que um instrumento para santificação de um povo que deveria encarar o culto e a sua mensagem como direcionados sobretudo à restauração de todas as famílias da terra.

Pensando um pouco no estado atual do debate acerca do culto no antigo testamento, se por muito tempo a perspectiva histórica (relacionada ao método histórico-crítico) eclipsou os aspectos rituais da lei de Moisés , o colapso de tal perspectiva, nos estimula a revalorização das leis rituais, em nível de teologia do antigo testamento. O valor de tais leis se relaciona ao fato de servirem como setas que apontam na direção de um sacrifício contínuo ao Senhor (uma vida de culto) através dos extremos da existência (vida e morte) a fim de que, em horas cruciais, o cotidiano remetesse ao templo, e, em conseqüência, à necessidade da obediência a Deus. Tais leis, (1) não eram compreendidas a partir de uma mentalidade supersticiosa, do tipo “não toqueis”; (2) eram perpétuas para os filhos de Israel e apontavam para o sagrado (fazer a diferença entre o santo e o profano, o puro e o impuro); (3) não são normativas, mas devem ser utilizadas como exercícios cristãos que visam a santificação da vida cotidiana a partir da leitura feita pela Igreja que as recomenda por meio da abstinência quaresmal, do jejum eucarístico, ou mesmo, as regras monásticas, para aqueles que fazem tal opção.

Dessa forma, perceba a relevância da interpretação de algumas destas leis rituais em nível de antigo testamento: (1) o lavar das mãos, próprio dos sacerdotes no interior do templo anteriormente, se tornou uma obrigação para todos os judeus a fim de apontar para o sacerdócio comum de toda a comunidade de Israel, quando depois de 70 AD o judaísmo se encontrava sem templo, nem ritual; (2) a contaminação pelo contato com corpos mortos – contato que inclusive era um ato de misericórdia e de amor ao próximo – remetia ao templo por causa da necessária purificação exigida pelas leis rituais. Tal preceito livraria o homem de toda auto-contemplação de seus méritos, pois nesse caso a obediência à lei moral correspondia à uma desobediência à um preceito ritual, conduzindo-o sempre à adoração ritual e nunca ao ócio religioso e ao narcisismo espiritual; (3) o ritual litúrgico despertava todos os sentidos: olfato – incenso; visão – templo; paladar – pães da propiciação e carne dos sacrifícios; audição – escuta da lei, cântico dos salmos; tato – unção com óleo e aspersão de sangue; (4) os ciclos femininos e a polução masculina simbolizavam a vida e assim apontavam com regularidade para a necessidade de consagração nas melhores (orgasmo) ou nas piores (menstruação) horas da vida.

Ainda em relação às leis rituais, devemos seguir a seguinte linha de raciocínio: Como nação estabelecida, Israel se valeu da música na celebração dos seus rituais. Assim, enquanto o rito era cuidadosamente realizado pelos sacerdotes ordenados no espaço interior do templo (o horizonte da adoração) a fim de invocar a manifestação divina; ao redor do templo, os louvores eram entoados a fim de testemunharem a presença divina na direção das tribos de Israel convocadas ao culto (o horizonte da celebração) e na direção das nações que afluíssem a Jerusalém por causa do culto (o horizonte da proclamação).

Dessa forma, podemos sintetizar pelo menos três horizontes de uma vida de culto na revelação do antigo testamento: (1) o horizonte da adoração que se caracterizava exclusivamente pelo rito sacrificial; (2) o horizonte da celebração, onde a celebração se expressava tanto nos louvores entoados durante a adoração ritual como nas músicas e danças compostas para as festas anuais de celebração; (3) o horizonte da proclamação, o qual mesmo sendo incipiente nos louvores - pensando aqui na comunicação da revelação às nações – ainda haveriam de surgir, de acordo com os profetas, dias em que através de gente que falasse outras línguas tal comunicação seria plena.

2. Tensão Historiográfica e Teológica no Israel Institucional

Bifurcando a Teologia do Culto
A existência de uma base teológica explícita no Israel nascente – Gn-Dt – não evitou a ocorrência de tensões teológicas à medida que o movimento iniciado por Moisés se institucionaliza na terra de Canaã. Anos mais tarde, o Israel institucional é chamado à conversão restauradora por causa dos seus pecados, sendo tal chamado, realizado simultaneamente pela mensagem urgente dos profetas e pelo ensino paciente dos sacerdotes. Sem dúvida, que uma tensão criativa se instauraria em meio à instituição nacional e, vemo-la refletida através dos dois círculos historiográficos e teológicos presentes no antigo testamento – a tensão teológica entre o profetismo e o sacerdócio.

2.1. O Círculo Profético
O livro de Deuteronômio nos oferece o paradigma da história de Israel. A própria relação feita por 1 Rs 6:1 com o êxodo serve como uma prova inicial da intenção do autor da historiografia deuteronomista (Js – 2 Rs) em conectar-se à plataforma fornecida pelos discursos finais de Moisés retratados pelo Deuteronômio. Assim, a temática delineada pelo livro de Deuteronômio se desenvolveu no interior dos círculos proféticos existentes em Israel ocasionando o surgimento da obra historiográfica deuteronomísta. Tal hipótese, aponta para um profeta bíblico conhecido (ou uma escola de profetas) como possível intérprete da história passada de Israel.

A historiografia deuteronomísta (bloco de Josué à 2 Reis) possui um caráter mais profético, avaliando a experiência histórico-teológica de Israel. É chamada de deuteronomísta porque narra a história de Israel tratando de sua conformidade ao, ou de sua rejeição do ideal pactual proposto pelo Deuteronômio. Trata-se de um balanço após a catástrofe do exílio, ou mesmo, em meio aos seus acontecimentos. Nela, podemos também perceber a maneira profética como descreve as razões da queda da nação, de modo geral, em 2 Rs 17:16 com a expressão: “todos os mandamentos” e, de modo específico, com a listagem de sete violações do pacto em 2 Rs 17:16-17.

2.2. O Círculo Sacerdotal
Os livros de 1 e 2 Crônicas desenvolvem uma outra visão historiográfica em Israel. Esta, por sua vez, é desenvolvida em círculos sacerdotais e é designada como historiografia eclesiástica de Jerusalém, a qual, se coloca a partir de uma perspectiva pós-exílica. Em relação à historiografia deuteronomísta, é interessante notar os pontos dissonantes que a historiografia do cronista inclui ou omite: (1) ela omite os eventos que tendem a desacreditar a dinastia davídica (ignora o adultério de Davi e outros problemas da vida familiar real); como também (2) inclui uma nova perspectiva a respeito da história como reflexo da fidelidade pactual, não propriamente pensando no pacto do Sinai, mas desenvolvendo uma espécie de teologia de Sião (= eleição por Deus de uma casa real eterna). Por isso, (3) há todo um interesse litúrgico centrado nas figuras de Davi e Salomão como adoradores (1 Cr 11-14 = ascenção ao poder político de Davi; 1 Cr 15-17 e 22-29 = planejamento feito por Davi de um lugar de adoração; 2 Cr 1-7 = preocupação de Salomão com o aspecto cúltico; 2 Cr 8-9 = interesse com outros aspectos do reinado de Salomão). Além disso, os reis Josafá (2 Cr 17-20 / principalmente 17:3), Ezequias (2 Cr 29-32 / principalmente 29:2) e Josias (2 Cr 34-35 / principalmente 34:2) são celebrados não por algum desenvolvimento político ou cultural, mas por reformarem ou restaurarem o princípio pactual para o qual Davi tem sido chamado (2 Cr. 17:1-3; 31:20-21; 34:2,33). Há, portanto, uma tendência teológica inequívoca. Enquanto a historiografia deuteronomísta é uma interpretação profética do passado de Israel, a historiografia do cronista é uma interpretação eclesiástico-sacerdotal do mesmo passado.
Todavia, falemos ainda sobre os dois círculos teológicos do Israel Institucional que novamente demonstram a tensão entre o profetismo e o sacerdócio no Israel institucional.

2.3. Teologia do Nome e Teologia da Glória
Em Israel, dois tipos de teologia do culto se desenvolveram. A dimensão integral do culto é sinalizada por meio de dois círculos específicos: o círculo sacerdotal e o profético. Isto se evidencia ao percebermos a trajetória teológica do culto em Israel, conforme as suas diversas fases.

Em uma fase inaugural, o projeto de Moisés estabeleceu um culto fundamental em Israel propondo cinco aspectos específicos: (1) a construção do tabernáculo (Ex. 25.31); (2) o papel dos Sacerdotes (Ex. 28.29); (3) a arca da aliança como trono da misericórdia – o kaphoreth; (4) as práticas sacrificiais; e (5) a ênfase no aspecto visual no detalhamento artístico instituídos, sob a ação do Espírito do Senhor, em prol da verdadeira adoração. Através destes cinco aspectos, a teologia mosaica unia o transcendente – a presença real de Yahweh – ao imanente – arte estética do tabernáculo – na adoração.

Em uma fase referencial, o templo de Salomão continuou a teologia mosaica da presença real do Senhor unida a obra artística em Israel, o que marcou profundamente a consciência litúrgica do povo.

Em uma fase emergencial, podemos dizer que o exílio representou um golpe impactante contra o poder litúrgico de Jerusalém provocando uma reformulação radical da teologia e liturgia israelitas a fim de adequar-se às novas necessidades.

Surge assim uma fase teologal, onde Israel encontra dois caminhos para (re)formular a idéia de uma “presença real” do Senhor unida a suntuosidade do templo agora em ruínas. De um lado, uma teologia da glória, falando às novas circunstâncias do exílio, enfatizava a glória de Yahweh a fim de ressaltar Sua presença soberana. Um exemplo nítido deste tipo de teologia encontra-se presente no livro do profeta Ezequiel. De outro lado, uma teologia de nome, como em um balanço após a catástrofe do exílio, acentuava algumas características marcantes a serem delineadas nos seguintes postulados: (1) o nome do Senhor está no templo; (2) o Senhor está nos céus; e (3) o Senhor, desde os céus, atenta constantemente para o templo.

Em ambos os casos, tais teologias visam atender as novas necessidades dos judeus exilados (sem Jerusalém e sem Templo), justificando o caso da queda do sistema do templo agora destruído. De um lado, a teologia da glória desenvolve uma hermenêutica de recuperação do templo, trabalhando a idéia de manifestação da glória do Senhor através do Rito, sendo esta uma postura sacerdotal que enfatiza a adoração objetiva do povo de Deus. Do outro lado, a teologia do nome desenvolve uma hermenêutica de suspeição em relação ao templo trabalhando a idéia do nome do Senhor através da Palavra, sendo esta uma postura profética que enfatiza a adoração subjetiva do povo de Deus.

3. Desenvolvimentos Teológicos na direção de um Judaísmo Tardio

Desdobrando a Teologia do Culto
Os desdobramentos da tensão criativa existente e decorrente dos círculos profético e sacerdotal, ou ainda, da teologia do nome e da glória, podem ser alistados aqui em forma de escolas de pensamento que, ao longo da história de Israel até o judaísmo tardio, configuraram algum tipo de teologia do culto. Estaremos chamando tais configurações de Escolas Mosaica, Isaiana, Zadoquita e Sapiencial.

3.1. A Escola Mosaica: A Crítica dos Oráculos do Deserto.
O Destino da Liturgia no Israel Vindouro. O antigo testamento trabalha o tema do sacerdócio direcionadamente. Em Gênesis e Êxodo, um sacerdócio universal dos fiéis é nítido desde os primeiros sacrifícios oferecidos a Deus (Gn 3 e 4 - sacrifício vicário = inauguração do culto) aos mais proeminentes (Gn 15 – sacrifício de inauguração do pacto; Gn 22 – sacrifício vicário). Trata-se da função sacerdotal do cultuante que, sem intermediação alguma, preserva a auto-revelação divina em seu interior. Contudo, todo processo de libertação de Israel e seu concomitante encontro com Iahweh visam um sacrifício específico (“para que sacrifiquemos ao Senhor”; o niphal hebraico contém a idéia de um sacrifício embrionariamente mediado, certamente pelos sacerdotes mencionados em Êx. 19). A partir de então, o sacrifício seria institucionalmente mediado por uma classe sacerdotal de acordo com a prescrição das leis rituais (Levítico e Números 8-9).

Estamos enfatizando assim, não à idéia de sacerdócios mutuamente excludentes, mas à preeminência do sacerdócio exercido por Abraão (mais tarde retomado pelos autores neotestamentários) sobre o sacerdócio levítico instituído por Moisés a fim de disciplinar Israel em relação à mentalidade paganizada dos egípcios no que diz respeito aos seus ritos, imagens cultuais e sacrifícios. Neste ponto, vale frisar que, o sacerdócio vinculado à lei, é exercido em função desta lei, preparando assim, o germe de grave crise futura.

3.2. A Escola Isaiana – a Erudição dos Visionários de Jerusalém
A Liturgia Escatológica na Plenitude dos Tempos. Tamanha crise futura, é assinalada pelo livro do profeta Isaías, já no seu primeiro capítulo, o qual trata especificamente da crise espiritual da liderança em Israel e da quase rejeição divina das próprias instituições rituais. Se este capítulo contempla a possibilidade de Jerusalém se tornar uma cidade de justiça, cidade fiel, é o capítulo seguinte, em sua profecia inicial, que a coloca sobre todos os demais povos e no exercício de suas plenas funções litúrgicas. A esse respeito também fala o capítulo 58 da profecia ao tratar da afluência das nações à Jerusalém, cujo templo haveria de se tornar casa de oração para judeus e gentios.

Não é difícil entender que, desde os dias dessa profecia, nunca houve qualquer sinal de seu cumprimento. Pelo contrário, o templo posteriormente foi destruído, e quando de sua reconstrução nunca houve um templo em que as nações afluíram a Jerusalém e, muito menos, se lhe submeteram, o que nos conduz a uma interpretação escatológica da profecia, cujo cumprimento somente se daria nos tempos de plenitude profeticamente idealizados no final do livro – os tempos escatológicos. Estes seriam, conforme a profecia de Jeremias, os dias da nova aliança. Uma aliança tal que, sendo confirmada por agentes universais como o sol e a lua, chegaria a ofuscar o nacionalismo israelita, atingindo os ideais mosaicos de um povo de coração circuncidado, de uma nação que habitasse diante de Deus para sempre (Dt. 30 // Jr. 4 e 31).

Com isso entendemos que, em pleno Israel institucional, durante os dias da monarquia em Israel, a escola de Isaías, cuja erudição era e se tornou cada vez mais notável em Israel, visionava um tempo escatológico onde o culto atingiria a sua plenitude, assim como levaria à plenitude os propósitos de Deus sobre a terra. Neste culto escatológico, a dimensão ritual não mais seria facilmente driblada, pois nele os cultuantes não seriam circuncidados segundo à carne, mas segundo o Espírito.

3.3. A Escola Zadoquita – O Pragmatismo dos Sacerdotes do Templo
A Restauração da Liturgia da Nova Criação. A respeito do culto no Israel tardio é preciso enfatizar a insuficiência da teologia da mediação proposta pelos círculos sacerdotais – os pragmáticos Zadoquitas.

Desde os dias de Salomão, a exuberância do templo, a afluência dos povos, a prosperidade político-econômica, parecem ter formado um paradigma litúrgico em Israel sustentado pela classe sumo-sacerdotal de Zadoque. Os Zadoquitas se consideravam a legítima representação da ordem melquizedita visto que estavam associados à dinastia davídica e sediavam a religião desde Jerusalém, a cidade amada, a antiga Salém, cidade do grande rei-sacerdote, a quem o próprio Abraão – o pai da nação – havia se prostrado para receber a benção e dizimar de sua fazenda. Zadoque, sumo-sacerdote nos dias de Salomão, agora representava o sacerdócio eterno dos filhos de Levi (Ex. 40:15), que remontava ao sacerdócio judaíta de Davi a respeito do qual se haveria de cantar: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquizedeque” (Sl. 110:4). Sim! Uma ordem imperecível de sacerdotes, agora representada e legitimada pela tribo de Levi, ordenada conforme a lei de Moisés.

Durante os dias que se seguiram, os zadoquitas mantiveram sua descendência sumo-sacerdotal até o período intertestamentário. E mesmo durante o exílio babilônico, eles foram alvo da profecia de Ezequiel, a qual indicava a sua restauração, juntamente com o soerguimento da nação e do templo, em seu programa de reconstrução (Ez. 40-48). A grande questão que se interpõe aqui é: Quando se cumpriu a profecia de Ezequiel?

A história do Israel pós-exílico em muito preenche as expectativas do programa de reconstrução de Ez. 40-48. Contudo, a linguagem destes capítulos claramente sobrepõe realidades históricas e escatológicas, apontando na direção dos dias pós-exílicos, mas também dos dias escatológicos já profetizados pela escola isaiana e pelo próprio Jeremias, desde o exílio.

Tudo isso nos faz entender melhor, a profecia de Ez. 36 a respeito da nova criação de Israel, quando um novo coração – a velha proposta mosaica retomada por Jeremias no exílio – e um novo espírito seriam estabelecidos sobre o povo a fim de que retornassem à lei do Senhor e experimentassem da abundância e prosperidade, desde os dias de Salomão idealizadas, como o ideal sacerdotal dos Zadoquitas – um Sacro-Estado Israelita.

No pós-exílio, porém, tal Estado definhou, à semelhança da dinastia davídica, desde os dias do exílio. Por isso, não encontramos grandes esperanças entre os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, exceto na direção de um remanescente pobre, e não estatal, que haveria de preservar-se contra toda sorte de mudanças dos tempos e das leis (Dn. 7:25) até a vinda do juízo divino, na ressurreição dos mortos, quando o domínio seria dado ao povo dos santos do altíssimo, o povo que viesse a se conservar sob um sacerdote do Deus altíssimo (Gn. 14:18), cuja ministração fosse perene e imperecível.

3.4. A Escola Sapiencial – o Radicalismo dos Porões da Clandestinidade
A Caduquice da Liturgia no Judaísmo Tardio. A essa altura, é preciso lembrar que, desde os porões da clandestinidade no exílio, a apocalíptica dá os primeiros sinais de consolidação na literatura veterotestamentária. E isso se dá com o livro, de caráter inicialmente narrativo, de Daniel. Somente a catástrofe do exílio, e a experiência de sobrevivência de uma piedade sem templo e sem ritos, fariam com que um sábio em Israel admitisse que o germe de uma grande crise litúrgica em Israel ainda haveria de abater a nação de sacerdotes, o povo santo, o reino exclusivamente destinado a mostrar às demais famílias da terra a soberania de Deus por meio da verdadeira adoração.

Seria necessário o radicalismo (demonstrado nos capítulos narrativos do livro de Daniel) de um verdadeiro sábio para anunciar que somente os sábios, dentre o povo (aqueles que aprendessem a justiça) escapariam. Daniel preconiza a caduquice da liturgia a ocorrer no judaísmo tardio, apontando para a sabedoria proveniente do temor do Senhor como única solução em meio à crise final. Então, o sacrifício contínuo seria tirado, conforme a visão das 70 semanas, visão com a qual podemos ver encerrada a revelação progressiva acerca do culto em nível de Antigo Testamento.

Setenta semanas estão determinadas para que:

a justiça chegue ao seu termo...
E o que a mim me concerne,
o Senhor levará a bom termo...

O caráter profético das 70 semanas não deve ser precipitadamente relacionado aos últimos dias da história humana, mas pretendia tocar diretamente o coração dos seus primeiros ouvintes (ou leitores) e dos demais leitores judeus ao longo de cada fase da história de Israel, principalmente durante o período dos macabeus, nitidamente intencionado em todas as profecias do livro. Em Dn. 7 encontramos a visão de quatro animais que são os símbolos apocalípticos de um imperialismo internacional totalitário. Um império assim nunca existira. Ao analisarmos este texto, devemos manter sempre em vista que tal imperialismo em sua profecia serve como contexto para o livro a apontar na direção do fim de uma era (essa é a razão para a expressão, inúmeras vezes repetida no livro - até o fim; ou - até o tempo do fim).

O livro é uma grande revelação acerca do imperialismo internacional, a qual possui elementos históricos e escatológicos que se intercambiam. Trata-se de um “quadro” apocalíptico, o qual dá a impressão de imagens em movimento, em justaposição, em sobreposição, tudo à semelhança do que acontece com as imagens televisivas hoje. Essa é a razão para afirmarmos que: (1) a intenção do autor era a de falar ao povo de sua época a respeito de eventos que ocorreriam na história daquela nação; (2) a menção apocalíptica feita a eventos que ultrapassariam a sua época está presente no texto como algo óbvio; (3) a interpretação da profecia está relacionada à intenção histórica do seu autor e à sua linguagem apocalíptica.

Trata-se de uma revelação profética registrada em linguagem apocalíptica, um quadro apocalíptico geral dos últimos dias da história de Israel, cujo propósito específico era o de revelar algo decisivo a respeito da atuação aparentemente vitoriosa e do fim definitivo de todo e qualquer imperialismo internacional despótico e totalitário.

Para Daniel, todavia, as escrituras (e não somente os sonhos dos caps. 2 e 7) serviam como um grande referencial. É, portanto, na interpretação das escrituras de Jer. 25:8-12 e 29:10 que Daniel encontra algumas respostas na interpretação que, por sua vez, Jeremias havia feito da Lei de Moisés. Jeremias falara da promessa referente à queda de Babilônia e libertação de Israel ao cabo de um período simbólico de 70 anos, ou seja, dez períodos sabáticos (cf. Lv. 25: 1-7, 18-55: Dt. 15:1-5). Assim, podemos concluir que: o exame das escrituras, nos livros de Moisés e de Jeremias, foi o ambiente em meio ao qual uma revelação divina específica foi dada: as 70 semanas que estavam determinadas recaírem sobre o povo e a cidade de Daniel. Já estava decretado o fim para os desobedientes, o fim da desobediência. E esta é a palavra do Senhor para todas as épocas!

Todavia, as 70 semanas também possuem um caráter histórico. E, pensando nisso é que entendemos ser o texto uma revelação acerca da história nacional dos judeus desde a saída da ordem para reconstrução de Jerusalém (durante o reinado da Média) até a profanação do templo e sua purificação (durante o reinado da Grécia).

O texto em si mesmo deve ser interpretado a partir de sua intenção autoral (intenção pretendida pelo autor sagrado) de falar àquele momento específico na vida do povo a respeito dos acontecimentos históricos que sucederiam àquela geração e às vindouras que conhecessem alguma restauração nacional. Em todo caso, se deveria saber que nenhuma restauração definitiva estava determinada para a religião de Israel. De fato, um dos sinais do fim da legítima religião de Israel estaria no fato de que um ungido, um príncipe, teria a sua descendência, sua linhagem, cortada da terra dos viventes, estando isso conectado ao fim do sacrifício contínuo em Israel ocasionado pela abominação desoladora, outro dos sinais do fim da religião legítima. Daniel 9 parece contradizer o programa de reconstrução anunciado desde o exílio por Ezequiel 40-48. Se não o faz é somente por apontar na direção de um remanescente sábio que haveria de, mesmo em meio à intensa destruição, escapar e ser recompensado com o cumprimento dos propósitos divinos – o reino do povo dos santos do altíssimo.

Assim sendo, Daniel revela que estava determinada a caduquice das instituições religiosas nacionais reveladas por Deus a Moisés quanto ao culto e, conforme cremos, o novo testamento revela o envelhecimento de tais instituições a fim de que o Reino de Deus esteja surgindo como uma novidade de vida a renovar todas as coisas e levando à plenitude o culto em espírito e em verdade.

Conclusão

Dessa forma, pelo menos, três conclusões devemos tirar a respeito de uma teologia de culto em nível de antigo testamento. Em primeiro lugar, a Torah narra o encontro entre Deus e o homem acontecendo primordialmente por meio de uma identificação do cultuante com Iahweh através da fé que inclui a lei (Gn 26 e a obediência de Abraão em meio a toda sua caminhada), e, secundariamente (ainda que de modo central) por meio da instituição da lei de Moisés, o qual não deveria em momento algum eximir-se da fé (Nm 20 e a incredulidade momentânea de Moisés em um momento crucial da caminhada do povo de Israel). Uma vida de culto ao Senhor deveria em todas as épocas está calcada na simplicidade da graça e coberta pelas provisões sacerdotais e rituais mais excelentes, porque imperecíveis, à semelhança do que ocorrera sob o sacerdócio eterno de Melquizedeque nos dias do Israel nascente. Em segundo lugar, no transcorrer da história de Israel, tal encontro entre Deus e o homem ocorre por meio da genuína e contínua conversão de Israel à Iahweh – o temor do Senhor é afastar-se do mal!. Este é o caminho do verdadeiro adorador por entre as tensões histórico-teológicas do Israel institucional. Em terceiro lugar, por fim, como que em um extrato teológico das escolas mosaica, isaiana, zadoquita e sapiencial, pode-se observar a resposta litúrgica dada por Israel somente à medida em que, se refugiando unicamente no temor do Senhor, consegue constatar a crise de sua liturgia – por causa da insuficiência da lei – de sua adoração e, até mesmo, de sua hierarquia, tudo isso a fim de levá-lo a atingir os propósitos últimos de Deus.

Portanto, participar da solução da crise instaurada pelo pecado e desencadeada pela incredulidade é a vocação a que o povo de Deus é profeticamente chamado em todos os séculos. Outrossim, só poderemos criar circunstâncias e ensaiar alternativas concretas de solução, se acreditarmos na imperecibilidade e eternidade de uma liturgia que nenhum fato histórico, por mais verdadeiro que porventura venha a ser, será capaz de envelhecer de modo definitivo. E se o envelhecimento chegou no tocante ao rito veterotestamentário, jamais haverá de chegar sobre o rito litúrgico fundado na carne de Cristo tornada incorrutível e imortal por meio da morte e ressurreição que celebramos na eucaristia e comemoramos nAquele que é a nossa Páscoa.

Assim, em todas as épocas, a criação se transfigura em redenção, a lei se converte em evangelho, a maldição se transforma em benção. Trata-se de um movimento que nos faz migrar de uma antiga e provisória preparação para uma nova e definitiva revelação de Deus em Cristo, a imagem (Ícone) visível do Deus invisível.

Jairo Carlos
06/04/06
Missão Ortodoxa
São João Crisóstomo
Caruaru – PE


Notas:

(1) Batista Mondin, Curso de Filosofia, vol. 2 (São Paulo: Paulinas, 1982), p. 141.
(2) A. R. Caponigri, Time and idea. The theory of history in J. B. Vico (London: London Press, 1953).
(3) Giambattista Vico citado por Mondim, Curso de Filosofia, p. 152.
(4) Aliás, mesmo para os que defendem a “sola scriptura”, deve-se reconhecer que os textos de Êxodo e Levítico, em nível canônico, são os únicos que instituem uma liturgia. Diferentemente ocorrendo com os textos litúrgicos – ou de instruções acerca do culto cristão – do Novo Testamento, excetuando-se as perícopes evangélicas que mencionam, sem qualquer detalhamento, a instituição da eucaristia, a qual se constitui como a novidade do Evangelho e o mistério oculto desde a fundação do mundo.
(5) J. Wellhausen, Prolegomena to the History of Ancient Israel (Gloucester, Mass,: Peter Smith, 1973), pp. 15-167.
(6) Samuel Balentine, The Torah’s Vision of Worship, (Minneapolis: Fortress Press, 1999), pp. 16-32, além de L. G. Perdeu, The Collapse of History: Reconstructing Old Testament Theology (Minneapolis: Fortress Press, 1994).
(7) Aqui devemos citar teólogos, tais como: R. Knierim, F. Gorman e J. D. Levenson, além de destacar a obra deste ultimo: Creation and the Persistence of Evil: The Jewish Drama of Divine Omnipotence (San Francisco: Harper and Row, 1988).
(8) Louvores – é o nome dado ao livro dos salmos na bíblia hebraica, o saltério cristão ou a salmodia própria das horas canônicas.
(9) O idioma hebraico se constituiu em um limite à comunicação da mensagem, principalmente após o cativeiro babilônico quando até mesmo os judeus, em sua maioria, não mais o entendiam.
(10) Eugene Merrill, OldTestamen History: A Theological Perspective em Willem VanGemeren, A Guide to Old Testament Theology and Exegesis (Grand Rapids: Zondervan, 1999), pp. 65-82.
(11) Norbert Lohfink em J. Schreiner (ed.), Palavra e Mensagem (São Paulo: Paulinas, 1987), p. 281-98.
(12) O termo foi proposto, pela primeira vez, como referência a uma “obra histórica independente” por Martin Noth em Uberlieferungsgeschichtliche Studien (Halle, 1943), cf. Brevard Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 230.
(13) Conforme Lohfink, nota supra.
(14) Simon De Vries, 1 and2 Chronicles (Grand Rapids: Eerdmans Publishing Company, 1989).
(15) Nesta parte, nos valemos – ainda que parcialmente – da perspectiva inusitada de Walther Brueggemann sobre as “Twin Jerusalem Trajectories” em Theology of the Old Testament (Minneapolis: Fortress Press, 1997), pp. 670-75.
(16) Com a expressão, estamos nos referindo ao fato de que Moisés escreveu o seu livro durante as peregrinações de Israel no deserto.
(17) “Vermittelungtheologie” expressão utilizada por Frans Gustav Oëhler em sua Old Testament Theology.
(18) F. F. Bruce, Israel and the Nations – from the Exodus to the Fall of the Second Temple (Grad Rapids: Eerdemans, 1963), p. 129.
(19) Também o livro de Ezequiel e o chamado “apocalipse de Isaías” ensejam alguns trechos apocalípticos.
(20)Bruce, Israel and the Nations, p. 143-46.
(21) É impressionante o dado de que a santidade de vida no cristianismo nascente, já no século III, chegava mesmo a levar o imperador romano e seus filhos a consultarem os protagonistas do movimento monástico incipiente.
(22) Walther Brueggemann, Hans Walter Wolff, O Dinanismo das Tradições do Antigo Testamento (São Paulo: Paulinas, 1984), p. 99-120.

 

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