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NOTAS
SOBRE A SINERGIA São Paulo fala do homem como synergos, colaborador de Cristo, e muitas palavras do Evangelho evocam esta “sinergia”: notoriamente a parábola do semeador, onde cabe ao homem laborar a terra para que ela receba plenamente o bom grão e traga seus frutos ao cêntuplo. 1.
Na tradição ortodoxa – e este será o meu
primeiro ponto – a sinergia se fundamenta sobre três temas
teológicos, estreitamente ligados: Como
tudo é circular (penso na fórmula de Evágrio:
“Deus dá a oração àquele que ora”),
ouso então repetir: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava pros ton Théon e o Verbo era théos”. O quê era o próprio lugar do Espírito torna-se em Cristo, nosso lugar. Em efeito, quando este Deus Se encarna, Ele respeita de tal forma os homens que Se deixa crucificar por eles. “Vinde a Mim, vós todos que estais afadigados e Eu vos darei repouso”. Repousar, pousar duplamente, simultaneamente, graças ao Cristo, no divino, no humano. •
A sinergia do divino e do humano em Cristo
A salvação é virtualmente universal, posto que
Cristo morreu por todos e todos são n´Ele ressuscitados.
No Gólgota – quando Jesus exclama: Eli, eli, lama sabactani
– Deus vem de qualquer maneira em Sua própria ausência.
“Eis que estou à porta e bato”, diz o Apocalipse.
Todos estão predestinados à salvação,
o Adão total no Adão definitivo. Deus não está
ausente: Ele procura o homem com uma inesgotável paciência
e ternura, até a recusa; na mais opaca ou na mais luciferina
separação não há um só instante
em que Deus não solicite o homem, onde Seu amor não
o cerque, pronto a invadi-lo desde que uma porta se entreabra, “...Uma
pressão atmosférica que pesa igualmente sobre cada um”,
diz o Padre Lev Gillet. Nicolau Cabasilas, grande liturgo e espiritual
bizantino do XIV século dizia ao meio laico que “o amor
louco” de Deus pelos homens O faz transbordar-Se para fora de
Si-mesmo, até Se encarnar, sofrer e morrer, a fim de convencer
os homens deste amor. “...Ele declara Seu amor e pede que O
paguemos em retorno; diante de uma recusa, Ele não Se retira,
Ele •
Uma antropologia “teândrica”
São Máximo o Confessor distinguiu no homem duas liberdades
– temas repetidos, com outras nuances, no XX século,
por Nicolas Berdiaev. De uma parte a liberdade propriamente “natural”,
que é justamente o dinamismo de nossa natureza unida à
graça. Cristo restaurou plenamente esta liberdade. Mas de outra
parte, o homem, enquanto pessoa, é uma liberdade sobre a qual
Deus não tem controle (proveniente de Ungrund original, diz
Berdiaev, talvez um pouco ingenuamente). O Verbo, ao encarnar, não
pode assumir esta liberdade, sob pena de ver os homens tornarem-se
presas de marionetes zombadoras. Ele pode somente tentar dobrá-la
– eu diria quase que seduzi-la – pela demonstração
de Seu amor, de Seu “amor louco”, como dizem Máximo
e Cabasilas, pela revelação do Deus crucificado, não
pleno, compacto, arbitrário, tirano, mas “esvaziado”
ao infinito pela kenosis – como que para nos fazer espaço.
Somente a meditação da Cruz pode dobrar nossa mais selvagem
liberdade, diz Máximo o Confessor em sua “Epístola
a Tomé”. Somente a visão do Deus morrente de amor
pode oferecer a própria vida aos Seus assassinos pode abrir
à graça esta liberdade primária – diante
da qual o Cristo destrói os obstáculos, as barreiras
de Sua prisão: a distância entre o criado e o incriado
pela Sua Encarnação, a separação pela
separação invertida da cruz, a morte pela ressurreição.
Então o Espírito Santo, em Cristo, libera nossa liberdade.
O
A transformação incessante – sinérgica
– da natureza na graça, é a passagem da imagem
à semelhança – uma palavra que deve-se tomar em
um sentido dinâmico. O Verbo, diz Máximo, preside à
criação (gênesis) da natureza humana
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