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A Sinergia de Olivier Clement - 1ª Parte

NOTAS SOBRE A SINERGIA
Por Olivier Clèment
Contacts – revue française de l´orthodoxie
XXXXIIe année – nº 154 / 2e trimestre 1991

São Paulo fala do homem como synergos, colaborador de Cristo, e muitas palavras do Evangelho evocam esta “sinergia”: notoriamente a parábola do semeador, onde cabe ao homem laborar a terra para que ela receba plenamente o bom grão e traga seus frutos ao cêntuplo.

1. Na tradição ortodoxa – e este será o meu primeiro ponto – a sinergia se fundamenta sobre três temas teológicos, estreitamente ligados:
• o arriscar-se de Deus na criação;
• a sinergia do divino e do humano em Cristo;
• uma antropologia “teândrica”, animada pelas noções conjuntas da imagem, da semelhança e da liberdade.

Como tudo é circular (penso na fórmula de Evágrio: “Deus dá a oração àquele que ora”), ouso então repetir:
• O arriscar-se de Deus na criação
Deus é tão poderoso que pode criar, face a Ele, um outro que Ele respeite em sua alteridade e em sua liberdade. Necessário é ao poder pleno para criar (bara) realmente um outro, e por lá-mesmo, este poder pleno implica uma misteriosa limitação, como um retirar-se, dizem os Padres gregos (a mística judia fala aqui do tsimtsum), a limitação que implica o amor. Na criação dum outro, Deus Se arrisca, Deus Se faz vulnerável. A criação está à sombra da Cruz, o Cordeiro fora imolado desde a fundação do mundo, diz o Apocalipse. Nosso Deus não é um Deus compacto, massivo, arrasador, Ele é comunhão e fonte de toda comunhão, Ele Se abre e Se revela amor:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava pros ton Théon e o Verbo era théos”. O quê era o próprio lugar do Espírito torna-se em Cristo, nosso lugar. Em efeito, quando este Deus Se encarna, Ele respeita de tal forma os homens que Se deixa crucificar por eles. “Vinde a Mim, vós todos que estais afadigados e Eu vos darei repouso”. Repousar, pousar duplamente, simultaneamente, graças ao Cristo, no divino, no humano.

• A sinergia do divino e do humano em Cristo
São Máximo o Confessor aplica significativamente à relação do divino e do humano em Cristo a noção até então reservada as Pessoas trinitárias da perichorese. Não existe em Cristo preponderância de uma vontade sobre a outra, de uma energia sobre a outra, mas sim sinergia livre, comunhão dinâmica no mistério, por vezes divino e humano, eterno e temporal, da filiação. O Verbo, pela Encarnação, assumiu a natureza humana, restaurando no homem a imagem, por pura graça. Mas a passagem da imagem à semelhança exige a colaboração ativa do homem: da vontade humana de Jesus primeira e fundamentalmente, e em seguida daquela dos homens re-nascidos no Espírito, à sua vocação própria de filhos de Deus. O local deste renascimento, tonando-se pouco a pouco consciente e operativo, por ser então o Cristo – em quem o tropos filial é oferecido à liberdade pessoal. “Eis que o Senhor nos concedeu o tropos da salvação e nos deu o poder eterno de nos tornarmos filhos de Deus: desde então a nossa salvação está em nosso querer” (Máximo, PG 90,953B).

A salvação é virtualmente universal, posto que Cristo morreu por todos e todos são n´Ele ressuscitados. No Gólgota – quando Jesus exclama: Eli, eli, lama sabactani – Deus vem de qualquer maneira em Sua própria ausência. “Eis que estou à porta e bato”, diz o Apocalipse. Todos estão predestinados à salvação, o Adão total no Adão definitivo. Deus não está ausente: Ele procura o homem com uma inesgotável paciência e ternura, até a recusa; na mais opaca ou na mais luciferina separação não há um só instante em que Deus não solicite o homem, onde Seu amor não o cerque, pronto a invadi-lo desde que uma porta se entreabra, “...Uma pressão atmosférica que pesa igualmente sobre cada um”, diz o Padre Lev Gillet. Nicolau Cabasilas, grande liturgo e espiritual bizantino do XIV século dizia ao meio laico que “o amor louco” de Deus pelos homens O faz transbordar-Se para fora de Si-mesmo, até Se encarnar, sofrer e morrer, a fim de convencer os homens deste amor. “...Ele declara Seu amor e pede que O paguemos em retorno; diante de uma recusa, Ele não Se retira, Ele
não formula injúrias; afastado; espera à porta e faz de tudo para Se mostrar como verdadeiro amante...”

• Uma antropologia “teândrica”
A Ortodoxia recusa colocar o problema da salvação em termos de “causalidade”: é Deus, é o homem, o quê é a “causa” da salvação? Nem a salvação pela fé somente, nem a salvação pelas obras somente, mas a salvação pelo amor. O amor implica o encontro, e o encontro para ser verdadeiro, implica a liberdade. A graça vivifica toda existência. O dinamismo a Deus é suscitado por ela. Liberdade e graça são duas noções que não podemos separar. É necessário concebê-las juntas e uma na outra. Só podemos distingui-las, unindo-as. O momento da graça é incluso na obra criadora de Deus. A criatura existe para receber a graça e esta está presente na criação. A liberdade primária, trágica do homem, a liberdade nascida, de alguma sorte, do “retirar-se” de Deus, pode recusar a graça e tornar-se escrava da morte. Gregório de Nissa escreve (Discursos de Páscoa): “Deus honrou o homem com a liberdade a fim de que o bem pertença, como próprio, àquele que o escolheu não menos que Àquele ao qual o bem pertence como natureza.” A liberdade nos é necessária para aceitarmos o nosso ser criado, bem como todo o cosmos, como dom de Deus – no lugar de sofrê-los (herdá-los) passivamente.

São Máximo o Confessor distinguiu no homem duas liberdades – temas repetidos, com outras nuances, no XX século, por Nicolas Berdiaev. De uma parte a liberdade propriamente “natural”, que é justamente o dinamismo de nossa natureza unida à graça. Cristo restaurou plenamente esta liberdade. Mas de outra parte, o homem, enquanto pessoa, é uma liberdade sobre a qual Deus não tem controle (proveniente de Ungrund original, diz Berdiaev, talvez um pouco ingenuamente). O Verbo, ao encarnar, não pode assumir esta liberdade, sob pena de ver os homens tornarem-se presas de marionetes zombadoras. Ele pode somente tentar dobrá-la – eu diria quase que seduzi-la – pela demonstração de Seu amor, de Seu “amor louco”, como dizem Máximo e Cabasilas, pela revelação do Deus crucificado, não pleno, compacto, arbitrário, tirano, mas “esvaziado” ao infinito pela kenosis – como que para nos fazer espaço. Somente a meditação da Cruz pode dobrar nossa mais selvagem liberdade, diz Máximo o Confessor em sua “Epístola a Tomé”. Somente a visão do Deus morrente de amor pode oferecer a própria vida aos Seus assassinos pode abrir à graça esta liberdade primária – diante da qual o Cristo destrói os obstáculos, as barreiras de Sua prisão: a distância entre o criado e o incriado pela Sua Encarnação, a separação pela separação invertida da cruz, a morte pela ressurreição. Então o Espírito Santo, em Cristo, libera nossa liberdade. O
Oriente desenvolveu uma mística batismal fundada sobre a participação dinâmica do homem em sua santificação. “O Espírito não forja de força a liberdade. Ele a modela segundo o seu querer da santificação...” (Máximo, 90, 280 CD). A forma Cristica de filho é selada no coração do homem pelo Espírito – e eis o gérmen do mundo novo. Então começa a sinergia com a graça de todo agir natural do homem e, através deste, todo o dinamismo da criação: a escatologia começa desde esta vida. A forma divina que recebemos no batismo é uma vocação a entrar no “modo de vida” do Cristo (91, 712 B).

A transformação incessante – sinérgica – da natureza na graça, é a passagem da imagem à semelhança – uma palavra que deve-se tomar em um sentido dinâmico. O Verbo, diz Máximo, preside à criação (gênesis) da natureza humana
criada à imagem de Deus. E o Espírito, quando a liberdade primária pronunciou seu fiat suscita no homem um nascimento (gennêsis), quer dizer uma pessoa livre pela semelhança com Deus: “... a fim de que o mesmo homem seja criatura de Deus por natureza, mas filho de Deus e deus segundo a graça pelo Espírito. Pois não era possível que o homem criado fosse capaz de ser deus e filho de Deus pela santificação da graça, se não houvesse sido primeiramente engendrado ao Espírito segundo a livre escolha, pelo poder da liberdade que o abre ao Espírito” (91, 1315 D).

 

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