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O Arquimandrita Sofrônio,
um homem sedento de absoluto - Parte 2

Testemunho do Aquimandrita Symeon

Texto extraído de Cahiers saint-Siouane l´Athonite 10
Tradução: Manastir Sv. Apostola Petra i Pavla, BiH.

 

6. Epistolário
No Mosteiro de São Panteleimom, o Padre Sofrônio mantém, desde 1932, uma importante correspondência com David Balfour, em seguida com menos intensidade, até a morte deste último em 1989. Mais tarde, na França e depois na Inglaterra, teve relações epistoláres seguidas com membros de sua família em Moscou, com Padres (como exemplo, o Padre Boris Stark, em Iaroslav) e outras pessoas. Desta volumosa correspondência, em vias de publicação, três volumes já foram publicados em russo.

7. Escritor Litúrgico
O Padre Sofrônio compôs numerosas orações pessoais mas também importantes coletâneas de orações podendo ser utilizadas no quadro da Liturgia, ofícios para os defuntos, etc...

8. Fundador de um Mosteiro
Desde o outono de 1956, um pequeno grupo de pessoas de diferentes nacionalidades começa a se reunir para orar junto em um curral transformado em capela, situado em uma propriedade privada pertencente a um emigrante refugiado em França, Bédir Khan, que nesta época era professor na Escola de línguas orientais em Paris. A ausência de livros litúrgicos em eslavônico e a diversidade de línguas das pessoas concorrentes – homens e mulheres – fez com que esta oração se concentra-se na recitação em comum da Oração de Jesus, e sobre a Liturgia eucarística celebrada pelo próprio Padre Sofrônio, único padre do grupo, na época. Em 1959, o Padre Sofrônio, acompanhado de outras quatro pessoas deste grupo, atravessa o Canal da Mancha e lançam as bases do que tornar-se-á, ao curso dos anos, o Mosteiro São João Batista em Tolleshunt Knights, próximo a Maldon (Essex).

9. Iconógrafo
No fim de sua vida, o Padre Sofrônio retoma os pinceís que havia abandonado em sua juventude. A construção de um grande refeitório podendo igualmente servir de capela (como por exemplo, na Lavra da Trindade São Sérgio, próximo a Moscou) o leva a conceber e a executar uma imponente composição de pinturas murais cobrindo as paredes e o teto deste refeitório e representando as principais festas do ciclo litúrgico. Um grupo de monjas, e outras pessoas as quais ele mesmo havia iniciado à iconografia, trabalham com ele, no entanto, não hesita em subir, ele próprio, nos andaimes para pintar as partes mais delicadas, particularmente os rostos. A Igreja de São Siluan é igualmente coberta de afrescos, executados sob a sua direção ou por ele mesmo, e isto depois de ter passado a marca dos noventa anos.

10. Oriental ou Ocidental?
Grosso modo, o Padre Sofrônio passou metade de sua vida no “Oriente” (Rússia e Grécia) e a outra metade no “Ocidente” (França e Inglaterra). Mesmo guardando a riqueza, ele soube não permanecer nela prisioneiro, abrindo-se ao Ocidente. O que pode ser demonstrado pelo seu domínio do francês, e até mesmo do inglês, que ele começou a aprender com uma idade já avançada. O mais longo quanto possível, guardou o contato com o Padre Eugrafo Kovalevski, que preconizava uma abertura da ortodoxia sob a herança cristã ocidental. Nisto, ele também era muito próximo a Vladimir Lossky. Ele muito rapidamente insistiu no fato de que no mosteiro celebrássemos a Liturgia também em inglês, isto em uma época onde o grego ou o eslavônico reinavam quase absolutamente nas igrejas da diáspora ortodoxa na Europa. Uma tradução inglesa da Liturgia, feita por uma pessoa próxima ao Padre Sofrônio foi publicada em 1982, depois de ter sido utilizada sob a forma manuscrita durante muitos anos, a título experimental. Este senso da inculturação é também perceptível no estilo iconográfico pouco a pouco criado sob a sua influência no Mosteiro de São João Batista: é o estilo bizantino, todavia interpretado de uma maneira que reflete igualmente o ambiente físico e cultural da Inglaterra.

11. Dom da Palavra
O Padre Sofrônio tinha um excepcional dom da palavra. Remarquei ainda acima que ele podia relacionar-se praticamente com quem quer que fosse, todavia não é isso que agora tenho em vista. Quando falava de realidades do mundo espiritual no qual ele vivia, ele possuía o dom de fazer, de certa medida, penetrar seus auditores ou seus interlocutores. Sua palavra era mais do que uma simples vibração do ar transmitido idéias ou pensamentos: era uma energia espiritual que ele transmitia àqueles que eram capazes de recebê-la. Ouvindo-o falar, podíamos entrever o que o Ancião Siluan tinha em vista ao dizer: “Os perfeitos nada falam por eles próprios... só falam o que o Espírito lhes inspira” (Starets Silouane; p.56).

12. Humor
Para o Padre Sofrônio, os opostos se encontravam: ele era antinômico. Depois de todos os traços de sua personalidade que aqui enumeramos, não era justo passar em silêncio este então: o Padre Sofrônio tinha um excepcional senso de humor. Tinha todo um repertório de anedotas as quais ele gostava de contar de vez em quando. Decerto, elas ocultavam geralmente uma “lição” sob sua aparente superficialidade, tal como nas fábulas de Krylov – o La Fontaine russo – que por tantas vezes ele citava.

Antes de concluir este breve esboço, eu gostaria ainda de adicionar uma palavra. Falei (citei) da coexistência no Padre Sofrônio das características que se encontram raramente reunias em uma mesma pessoa. É isto que faz toda riqueza de sua pessoa no plano simplesmente humano.

Sou conscientemente levado a me limitar aos traços exteriores de sua personalidade, sem tocar em sua vida interior, em sua vida espiritual íntima. Mencionarei, todavia, uma das vivas impressões que guardo dele: a união da fragilidade de um corpo enfraquecido pelas doenças e o peso dos anos, e a espantosa força de um espírito habitado até a morte pela graça do Espírito Santo. Nele realizou-se verdadeiramente a vocação do homem: da terra que pode falar com o Deus transcendente do Céu e, em toda verdade, Lhe dizer: “Pai”.

 

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